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Copa do Mundo mostra cultura, luta e paixão do Haiti pelo futebol antes de jogo contra o Brasil

Torneio é uma ocasião para se reunir, celebrar as cores da bandeira, a história e a resistência popular

Haiti
Haitianos acompanham o primeiro jogo da seleção do país, contra a Escócia, pela Copa do Mundo de 2026 | Crédito: Guérinault Louis

A Copa do Mundo trouxe finalmente os holofotes sobre o Haiti de uma nova forma: sua cultura, sua luta e, sobretudo, sua paixão pelo futebol. Se a situação do país continua preocupante, a alegria popular é também uma demonstração de força.

Vídeos do povo haitiano em festa viralizaram na internet, ao longo dos últimos dias, e não por acaso. As multidões tomando as ruas, desfilando com trompetes e tambores, hasteando bandeiras em janelas e carros, irradiam uma alegria contagiante que rompe de forma abrupta com a imagem de um país destruído, empobrecido e em clima de guerra civil, que tem alimentado as manchetes da imprensa internacional quando o assunto é o Haiti.

Não esperaram a estreia do time para iniciar as comemorações, assim como não desanimaram depois de uma derrota pouco merecida e muito digna. A festa continua plena e o orgulho, imenso em ver a seleção nacional participar da maior competição mundial pela segunda vez na história. O futebol é, sem dúvida, o esporte nacional do Haiti e uma paixão que perpassa todas as camadas da população. É onipresente o ano inteiro.

Cada povoado, por mais isolado que seja, tem seus campos de futebol – no plural – onde jovens se reúnem diariamente para jogar. Há campeonatos internos, com camisetas customizadas, vaquinhas para comprar equipamentos e torcidas vibrando. Apesar dessa cultura esportiva impregnada no cotidiano, e provavelmente devido à falta de estrutura e recurso para ter centros de formação profissional, poucos jogadores chegam a se destacar a nível internacional. E, mesmo neste ano tão especial, a seleção haitiana entrou na Copa como time outsider.

Paixão pelo futebol é muito forte no Haiti e a população se reúne para acompanhar os jogos. Foto: Guérinault Louis

Com ou sem representantes nacionais, os haitianos nunca deixaram de celebrar as Copas do Mundo. Mas, nas últimas décadas, costumavam adotar outros times, tendo o Brasil como incontestável favorito. Por isso, se a notícia da qualificação da seleção nacional já foi motivo de comemoração nas ruas, o resultado do sorteio, colocando as duas nações no mesmo grupo, foi a realização de um sonho inesperado. Dito isso, a torcida não titubeou na hora de escolher o seu campo.

“A gente só vê bandeiras do Haiti em todo canto. As pessoas quase não falam do Brasil, nem da Argentina”, comenta Bedouby Norbert, jornalista e educador popular em Hinche (departamento de Centro), em entrevista ao Brasil de Fato. “Porque o que tornava a criançada fã do Brasil ou da Argentina era o fato de não ter time seu participando em grandes competições internacionais. Ou, quando participava, sentia que não estava preparado. Mas agora, as pessoas acreditam na seleção, estão torcendo e comprando camisetas”, ressalta.

Quanto à atitude polêmica da Fifa de mandar retificar, a poucos dias do primeiro jogo, a camiseta oficial da seleção haitiana, ela não chegou a abalar o entusiasmo da torcida. Pelo contrário, censurar a iconografia de uma batalha histórica contra o colonialismo francês, que sentenciou a independência do país, tornou-se mais um motivo para defender a própria bandeira. “Podemos afirmar que essa história veio para levantar mais ainda o orgulho dos haitianos. É um ambiente incrível que estamos vivendo”, se anima Bedouby.

Uma sede de vida

Em visão aérea, aquelas multidões de azul e vermelho que cobrem o asfalto das ruas até o horizonte parecem até geradas por inteligência artificial, de tão impressionantes. Mas não foram. No entanto, não há dúvida de que foram fomentadas por anos de restrições, enclausuramento e tensão social.

“O povo quer viver”, resume Djeffly Eugène, 20 anos, jogador amador, depois de assistir à estreia da seleção, em Porto Príncipe. “É algo que nunca sentimos antes. É gigante”, destaca. No entanto, ele confessa que preferiu voltar logo para sua casa, assim que acabou o jogo: “Não fiquei muito na rua, não. Não quero me tornar mais uma vítima”, complementa.

Todo esforço é válido para acompanhar os jogos, apesar das dificuldades com energia e internet. Foto: Guérinault Louis

Pois, se a hora é de celebração, o futebol não dá conta de fazer esquecer a situação trágica do país e, em especial, da capital, onde as festas de rua acabam onde começa a violência das gangues. O mês de junho foi marcado por um aumento drástico de sequestros, enfrentamentos e massacres, tomando a população como alvo.

A própria comemoração do jogo do dia 13 de junho foi o cenário de troca de tiros entre facções no bairro popular de Cité Soleil, com saldo de pelo menos 30 vítimas, entre feridos e falecidos, segundo a ONG Mutirão para a Paz e o Desenvolvimento (CPD, sigla em francês), sem intervenção das forças policiais.

Na verdade, o Estado perdeu a autoridade a tal ponto que, no final de maio, um grupo armado invadiu a central elétrica de Carrefour, ao sudoeste de Porto Príncipe, expulsando os trabalhadores e tomando conta das instalações. O motivo: garantir que não falte luz nos horários de jogo, nos seus territórios, durante toda a Copa.

A luta de cada dia

É importante lembrar que essa criminalidade extrema, financiada pelas mesmas potências que se incomodam com o desenho de uma camisa, não corresponde à realidade do país inteiro. As gangues atuam principalmente nos arredores da capital e na região de Artibonite (Oeste), enquanto o resto do país continua bastante seguro e geralmente livre de confrontos armados. No entanto, mesmo nas regiões não diretamente atingidas por confrontos, a precariedade estrutural e a ausência do Estado se fazem sentir.

Assistir aos jogos, por exemplo, dependendo do lugar onde você mora, não é tão trivial quanto parece, já que o acesso à eletricidade se tornou o privilégio daqueles que têm condições de investir num gerador ou num sistema de placa solar. Nas capitais de cada região, o governo conseguiu garantir um telão em praça pública. E ainda assim, devido às dificuldades de trânsito em estradas bloqueadas por gangues, sua instalação acabou atrasando em algumas cidades.

Em todos os centros urbanos, bares e comércios costumam também colocar uma televisão na calçada, pelo menos nos dias de jogo da seleção nacional. Casas de apostas fazem o mesmo, em frente às suas sedes, assim como muitos centros comunitários, espaços culturais, escolas, igrejas ou instituições. Os próprios abrigos, onde se encontram atualmente mais de um milhão de refugiados internos, têm conseguido uma estrutura básica para não perder o espetáculo.

No entanto, para quem mora mais longe das cidades, ou seja, para os 40% da população que vivem no campo, o desafio é maior, em razão da distância a percorrer, da precariedade das estradas e da falta de transporte coletivo depois de certo horário.

“Os jogos têm acontecido à noite e, para nós, em meio rural, o deslocamento é difícil até a cidade. E aqui nós temos sérios problemas de eletricidade e equipamento”, explica Nicossa, militante da organização camponesa Konbit Peyizan Grandans, no sul da ilha. “Na zona onde eu moro, temos uma televisão, mas estamos com problema de baterias e placa solar. Estamos trabalhando nisso para tentar resolver até o fim do mês e facilitar a vida do povo. Porque, quando o jogo vai até umas 11 horas da noite, as pessoas já não têm como voltar”, explica.

No fim, a solução que sobra nos lugares mais isolados é assistir ao jogo na tela do celular, por alguma página de rede social com transmissão clandestina e imagem cortada. Muitas vezes é preciso mudar de canal no meio do jogo, quando a própria internet não trava de vez.

Mas, mesmo ao som do rádio e no escuro da noite, é sempre uma ocasião para se reunir, celebrar as cores da bandeira, a história da nação e a resistência popular que continua firme em 2026.

Editado por: Rodrigo Gomes

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