Entrevista exclusiva

Vitória do Irã sobre os EUA é um ponto de inflexão na história do mundo, diz Mohammad Marandi

Para Mohammad Marandi, o islamismo xiita é uma ideologia de libertação contra a hegemonia global que apoia os oprimidos

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Mohammad Marandi é um das vozes políticas mais respeitadas vindas do Irã
Mohammad Marandi é um das vozes políticas mais respeitadas vindas do Irã | Crédito: Reprodução / Facebook

Em meio à enorme polarização política estadunidense, parece haver hoje algo próximo a um consenso no país. De Robert Kagan (padrinho dos Neocons) a Tucker Carlson (proeminente voz do MAGA), passando pelo ex-neoliberal convertido a desenvolvimentista pró Sul Global Jeffrey Sachs e seu amigo, o popular cientista político John Mersheimer, todos eles concordam em algo: o Irã venceu a guerra. Enquanto os comentaristas políticos da Fox News lamentam a derrota do Império expressa no Memorando de Islamabad – que prevê, entre outras coisas, o fim das sanções ao país persa – e Bibi Netanyahu ordena mais bombardeios no Líbano, a fim de explodir tal memorando, Teerã celebra um feito histórico. Essa guerra, tal qual a Batalha de Stalingrado, já mudou o mundo. O Irã não só se tornou a potência dominante na Ásia Ocidental – pois demonstrou sua superioridade militar sobre os vizinhos, sobretudo Israel. Mas pode reivindicar o status de potência global, já que não só impediu o maior aparato militar da história de impor seus interesses à força, como passa a controlar de facto o maior gargalo energético do planeta, o Estreito de Ormuz.

O acordo assinado à distância essa semana pelos presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian ainda está longe de ser implementado. Na verdade, ambos países comcordaram em estipular 60 dias para as negociações, mas não são poucas as dúvidas a respeito de sua viabilidade. Em mais uma entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o intelectual iraniano Mohammad Marandi traduziu o sentimento de desconfiança de boa parte do país em relação ao status do acordo: “Neste momento, o regime israelense está massacrando famílias, crianças e mulheres, todos os dias [no Líbano]. E enquanto isso acontecer e o regime israelense não recuar, não haverá implementação do acordo”. Por isso, as duas delegações não viajaram à Suíça nesta sexta, conforme previsto.

Mas a aposta iraniana na implementação do acordo persiste, pois, como aponta Marandi: “obviamente é uma vitória para o Irã, porque os Estados Unidos afirmam que devolverão os ativos roubados (…). Levantarão as sanções sobre as exportações de petróleo e energia iranianas. Levantarão o cerco ao Estreito de Ormuz. E porão fim ao genocídio no Líbano, entre outras coisas”. Resta saber o que as negociações definirão a respeito da pauta principal dos EUA, ligadas ao programa nuclear iraniano e ao que fazer com os 430kg de urânio enriquecido a 60%, um nível próximo ao necessário para produzir uma bomba nuclear. Pelo acordo, eles serão diluídos domesticamente sob estrita supervisão da Agência Internacional Energia Atômica, em vez de serem enviado a outros países, o que significa mais uma vitória iraniana.

Por fim, Marandi acredita que seu país “intensificará sua cooperação com os países do Sul Global, os países do BRICS e os membros da Organização de Cooperação de Xangai, e seu controle sobre o estreito de Ormuz aumentará sua capacidade de crescer economicamente e de exercer influência regional e global mais do que nunca”. Enquanto seguem as negociações para a ratificação do acordo, o Irã se prepara para um dos maiores eventos de sua história, o funeral do ex-Líder Supremo Ali Khamenei – martirizado nas primeiras horas da guerra – principal arquiteto da capacidade militar que o país construiu nas últimas quatro décadas e que surpreendeu todo o mundo: “Será um funeral gigantesco. Ele era muito popular no Irã e muito querido entre os apoiadores do Eixo da Resistência e da causa palestina. Ele conduziu o Irã a essa vitória (…) Sua insistência em que o Irã enfrentasse o opressor, defendesse os oprimidos e preservasse sua soberania é algo que fez com que o mundo hoje veja o Irã sob uma nova perspectiva”.

Confira a entrevista integral:

Brasil de Fato: O “Memorando de Islamabad” apareceu para o mundo como uma vitória histórica do Irã sobre os EUA e Israel. O que você acha que fez os EUA aceitarem os termos de um memorando tão favorável ao Irã? É o reconhecimento de uma derrota militar e econômica de Washington?

Mohammad Marandi: Os Estados Unidos perderam a guerra. Perderam o conflito militar. Após 39 dias de combates, os iranianos saíram vitoriosos. Não foi apenas que o Irã sobreviveu. O Irã derrotou a coalizão. Os Estados Unidos, o regime israelense, a Jordânia, a Arábia Saudita, o Bahrein, o Kuwait, o Catar e os Emirados Árabes Unidos. E, é claro, o Ocidente como um todo os apoiava, assim como os países da OTAN. Então, os Estados Unidos se envolveram em uma guerra naval, e isso foi uma faca de dois gumes. Como resultado, os Estados Unidos estão destruindo a economia global, e os iranianos resistiram mais do que eles. Portanto, agora os Estados Unidos precisam de um acordo. E o acordo não é ruim. É um bom acordo, mas os Estados Unidos não estão preparados para implementá-lo. E se não o implementarem, o Irã não cumprirá seus compromissos. Neste momento, o regime israelense está massacrando famílias, crianças e mulheres, todos os dias. E enquanto isso acontecer e o regime israelense não recuar, não haverá implementação do acordo.

Brasil de Fato: Israel não assinou o memorando e segue atacando o Líbano, com Netanyahu reivindicando “liberdade de ação”. Israel tem, de fato, poder de veto sobre este acordo? Ao mesmo tempo, ontem Vance fez um discurso duro contra Netanyahu e Trump chegou a dizer, surpreendentemente, que poderia bombardear Israel. Você acha que os EUA farão um esforço para obrigar Israel a cumprir o memorando?

Até agora, não há sinais de que os americanos vão fazer algo para forçar os israelenses a interromper os ataques genocidas contra o povo libanês e os civis. Na verdade, o sogro de um amigo meu, que era pós-doutorando na Universidade de Pequim, foi assassinado esta manhã nos ataques aéreos israelenses. Ele estava em sua casa e, junto com outros civis, ficou preso sob os escombros. Todos morreram. Mas os americanos, hipoteticamente ou teoricamente falando, é claro que podem impedir os israelenses sempre que quiserem. O regime israelense é totalmente dependente dos Estados Unidos. No entanto, os americanos os ajudaram a realizar o holocausto de Gaza e o genocídio em curso no Líbano. E eles gostariam de ver os israelenses continuarem a realizar o massacre e o genocídio. O único problema é que as ações dos EUA, bem como as de Trump e Netanyahu, criaram uma crise econômica global. E, portanto, os interesses de Trump divergem dos interesses do regime israelense. O regime israelense não se importa com a economia global. Ele não se importa se ela entrar em colapso. E Trump, é claro, tem seu destino dependente de que a economia dos EUA não entre em colapso. Portanto, as palavras duras de Vance e de Trump não significam nada para o Irã. No fim das contas, a única coisa que importa para o Irã é que os Estados Unidos cumpram sua parte do acordo. Caso contrário, o Irã não cumprirá a sua parte do acordo.

O Memorando de Entendimento (MOU) de 14 pontos prevê a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio em troca, acima de tudo, de compromissos de não buscar armas nucleares. A mídia ocidental argumenta que o Irã “não concedeu nada concreto” além do Estreito de Ormuz. Do ponto de vista de Teerã, o que o Irã realmente garantiu nesse memorando — e o que permanece em aberto para os próximos 60 dias?

O acordo, o Memorando de Entendimento (MOU), obviamente é uma vitória para o Irã, porque os Estados Unidos afirmam que devolverão os ativos roubados do Irã. Levantarão as sanções sobre as exportações de petróleo e energia iranianas. Levantarão o cerco ao Estreito de Ormuz. E porão fim ao genocídio no Líbano, entre outras coisas. Portanto, os Estados Unidos não ganham muito em troca. A abertura do Estreito de Ormuz não é uma concessão. Ele já estava aberto antes da guerra. Foram os americanos que fizeram com que a situação chegasse ao ponto em que se encontra hoje. E foram os americanos e os israelenses que causaram essa crise global. Eles cometeram genocídio em Gaza e no Líbano e agora estão destruindo a economia global. Mas, pelo que estamos vendo agora — com os israelenses realizando mais ataques genocidas no Líbano e assassinando mulheres e crianças —, é cada vez mais improvável que o acordo, ou o Memorando de Entendimento, chegue a algum lugar.

Os EUA dizem que não haverá “pedágio” em Ormuz, mas o Irã diz que vai cobrar “taxas” pelos serviços – como fazem o Egito em Suez, a Turquia no Bósforo, o Panamá em seu Canal. Afinal, qual será o novo status do Estreito de Ormuz?

Após os 60 dias, se é que chegaremos a esse ponto, o Irã cobrará taxas. O Irã controla o Estreito de Ormuz e cobrará taxas de seguro, de proteção ambiental e de proteção dos próprios navios. Portanto, isso é algo que os iranianos decidiram fazer, e eles controlarão esse comércio. No futuro, não permitirão que navios da Marinha americana entrem no Golfo Pérsico para criar outro ambiente propício à agressão contra o Irã.Portanto, a situação do comércio no Estreito de Ormuz não vai voltar a ser como era antes. O comércio continuará, mas haverá uma taxa para cada navio e não haverá nenhuma oportunidade para os Estados Unidos usarem o Estreito para militarizar o Golfo Pérsico.

O memorando promete o fim das sanções da ONU, mas elas foram reativadas pelo snapback europeu em 2025, e o E4 condiciona a suspensão a ‘passos verificáveis’. Como Teerã enxerga o papel da Europa — fiadora ou obstáculo — na efetivação do levantamento de sanções? Caso as sanções sejam mesmo suspensa, poderíamos assistir a um renascimento econômico do Irã, que conta com uma população altamente educada e possui setores de alta tecnologia, desenvolvidos nos marcos da “economia da resistência”?

Bem, o Ocidente está perdendo seu status globalmente e está em declínio. E sua capacidade de conter o Irã está diminuindo rapidamente. E a vitória do Irã nessa guerra, tanto no campo de batalha durante os 39 dias de conflito quanto durante a guerra de cerco imposta pelos EUA — que está destruindo a economia global e tentava destruir a economia iraniana —, também foi um sucesso. O Irã venceu nesse aspecto também. É por isso que os Estados Unidos buscaram um acordo. E na mesa de negociações, também vimos o Irã sair vitorioso. E isso, creio eu, são todos sinais de que os Estados Unidos e os europeus, especialmente os europeus, não estão mais realmente em uma posição forte para impor sua vontade a outras nações. Eles estão em declínio, enquanto o Sul Global está em ascensão, e acho que a vitória do Irã foi, como Robert Kagan, o padrinho dos neoconservadores, apontou em seu artigo na revista The Atlantic: trata-se da maior catástrofe para os Estados Unidos em toda a sua história. Esse foi um ponto de inflexão na história do mundo, e acredito que, apesar de termos dias difíceis e sombrios pela frente para a região e talvez para o mundo, não há dúvida de que o Irã estará em ascensão, enquanto o Ocidente continuará em declínio. Assim, o Irã intensificará sua cooperação com os países do Sul Global, os países do BRICS e os membros da Organização de Cooperação de Xangai, e seu controle sobre o estreito de Ormuz aumentará sua capacidade de crescer economicamente e de exercer influência regional e global mais do que nunca.

Como deve funcionar o acordo relativo aos 300 bilhões de dólares de investimentos para a reconstrução do Irã e de fortalecimento de sua economia?

Os 300 bilhões de dólares são basicamente uma forma de contornar o regime de sanções, hipoteticamente, porque os Estados Unidos não podem bloquear investimentos. Não se trata de dinheiro que será transferido ou entregue diretamente ao Irã. Mas significa que, se investidores estrangeiros investirem, supondo que haja um acordo, os Estados Unidos não poderão impedir o investimento. Com relação aos ativos iranianos, entendo que o Irã está recebendo esse dinheiro. Mas não tenho confirmação definitiva. Contudo, parece estar acontecendo.

Em abril de 2026, Rússia e China vetaram no Conselho de Segurança uma resolução — proposta por Estados árabes do Golfo e apoiada pelo Ocidente — que tratava o Irã como única fonte de tensão em Ormuz. Que papel a parceria com Moscou e Pequim desempenhou para se chegar a este acordo, e como ela molda a posição negociadora do Irã daqui para frente? Este entendimento com os EUA reorienta o Irã para o Ocidente ou consolida sua ancoragem estratégica no eixo euro-asiático?

Não creio que Moscou ou a China tenham desempenhado um papel significativo nesse processo de acordo. Mas a relação entre o Irã e a Rússia, e entre o Irã e a China, está obviamente evoluindo e se fortalecendo. E por razões óbvias: tanto porque são parceiros naturais, quanto devido ao antagonismo do Ocidente em relação a todos eles. Mas o atual acordo do Irã com os Estados Unidos — ou, para ser mais preciso, o Memorando de Entendimento (MOU) com os Estados Unidos — não afasta o Irã de seus amigos e parceiros próximos na maioria global. Na verdade, não vejo a relação do Irã com o Ocidente melhorando nem um pouco. Os Estados Unidos são simplesmente incapazes de se comportar como um país normal, e os europeus são um bando sem esperança, que está se tornando cada vez mais irrelevante. Portanto, o futuro do Irã não está no Ocidente, mas na Maioria global.

O funeral do ex-Líder Supremo Ali Khamenei está sendo organizado para a primeira semana de julho. Você poderia nos explicar qual a importância política e religiosa desse evento, quantas pessoas são esperadas para a cerimônia e o qual imagem o Irã deve projetar para o mundo com isto?

Será um funeral gigantesco. Ele era muito popular no Irã e muito querido entre os apoiadores do Eixo da Resistência e da causa palestina. Ele conduziu o Irã a essa vitória. Ele criou a capacidade do Irã de derrotar seu inimigo, o agressor, nesta guerra. Ele derrotou, ele liderou a derrota dos regimes israelense e americano durante a guerra de 12 dias no ano passado e, apesar de seu martírio, o que ele havia preparado foi o que levou o Irã à vitória nesta guerra muito mais agressiva e muito mais ampla que foi imposta ao povo iraniano. Seu apoio aos oprimidos em todo o Sul Global — seja na América Latina, em Cuba, na Venezuela, na Nicarágua e em outros lugares, bem como na Palestina e no sul da África — é conhecido por todos. Sua insistência em que o Irã enfrentasse o opressor, defendesse os oprimidos e preservasse sua soberania é algo que fez com que o mundo hoje veja o Irã sob uma nova perspectiva, enxergando além da propaganda ocidental, e que veja o Islã — e, em particular, o Islã xiita — como uma ideologia de libertação e resistência contra a hegemonia global e contra a opressão global, e como uma ideologia que apoia os oprimidos, onde quer que estejam.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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