Peabiru, palavra viva, vinda da língua guarani, instiga a curiosidade desde a primeira vez que se ouve falar. Um caminho com diversos tramos e ramais que partiam do litoral do Atlântico e alcançavam o Pacífico, numa travessia de mar a mar em busca da Terra Sem Males. Uma ligação interoceânica que, comprovadamente, conectava povos há milhares de anos. Entre os principais ramais estavam os que saíam de Florianópolis, em Santa Catarina, e de São Vicente, em São Paulo, cruzavam a Cordilheira dos Andes e chegavam ao Peru.
Um caminho que ganha múltiplas formas ao ser narrado em livros, poesia, música, arte, trilhas, parques de preservação e marcos de pedra. Desta vez, tomou forma de exposição, organizada pelas professoras do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Thaís Sehn, Lislane Cansi, com as alunas Natália Correa, Thais Oliveira e o professor do curso de Jornalismo Carlos André Dominguez.
A exposição foi criada num processo de confluências de saberes. O professor foi convidado a falar do livro dele, “Peabiru o Mítico e Sagrado caminho do Atlântico ao Pacifico”, para os alunos da disciplina de Fundamentos de desenho I de 2025. Os estudantes também foram convidados a assistir o episódio, dirigido por ele, da série “Olhar Brasil – Peabiru Caminhos e Mistérios”, com 26 minutos, esta que é a primeira produção da TV UFPel, em parceria com a EBC e TV Brasil.
A ação conjunta entre os professores foi o primeiro passo que levou inspiração para que os alunos criassem seus desenhos que estão expostos no Museu Doce de Pelotas, até dia 10 de Julho. O espaço fica aberto de terça a sábado, das 13h às 18h, com visitação gratuita.

Os desenhos, o imaginário e o Peabiru
Já na entrada é possível ver uma obra com a palavra “Existo” acompanhada de fortes imagens que fazem refletir sobre a invasão europeia e a representação da resistência do imaginário indígena sobre o caminho. As peças têm diversos traços diferentes, desde pontilhismo, surrealismo, giz pastel, tinta, a criatividade ficou por conta dos estudantes. A mostra traz assim a diversidade cultural, natural e espiritual do Peabiru. São dezenas de trabalhos em exposição, assinados pelos alunos, alguns pela primeira vez a vê-los num museu.
Os desenhos trazem diferentes leituras sobre este mítico e ancestral modo de transitar pelo continente. A aluna Celine Fernandes escolheu uma folha A3, pintada à carvão. “A inspiração foi pensar no caminho e na trilha, que vai de cima para baixo, com a parte mais escura no início da tela e a parte mais clara no fundo buscando perspectiva e contraste”, conta orgulhosa, durante a abertura da exposição.

Peabiru Caminhos e Mistérios na série Olhar Brasil (TV Brasil)
A produção destaca o potencial do Caminho do Peabiru como elemento de conexão entre povos e culturas, propondo uma reflexão sobre alternativas ao turismo predatório. A narrativa resgata a relação de harmonia que os povos originários mantinham com o ambiente, hoje marcado por processos de degradação, e reforça a necessidade de valorização tanto da natureza quanto das culturas indígenas.
Um dos locais em que o episódio foi gravado é a Terra Indígena Morro dos Cavalos, em Santa Catarina, homologada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2024. O território, cujo processo de reconhecimento se arrasta desde a década de 1990, volta a ser alvo de contestação por setores da direita catarinense. Em 2026, a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) apresentou um requerimento de urgência para acelerar a tramitação do PDL 717/2024, proposta originada pelo senador Esperidião Amin (PP-SC), que pretende sustar o Decreto nº 12.290/2024, responsável pela homologação da Terra Indígena Morro dos Cavalos, além de questionar dispositivos do Decreto nº 1.775/1996, que regulamenta os procedimentos de demarcação de terras indígenas. O povo Guarani no Morro do Cavalos segue resistindo.
O documentário é uma coprodução da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) com emissoras da Rede Nacional de Comunicação Pública. O episódio percorre os trechos históricos e o impacto cultural dessa trilha que passava por estados como Santa Catarina (Florianópolis e Barra Velha) e Paraná (Curitiba e Pitanga). A equipe é composta pelos técnicos do laboratório de audiovisual Felipe Campal, Bruno Añaña, o ex-aluno Gabriel Fritsch e a assistente de produção Renata Camargo. A trilha sonora original é de Everton Maciel, Alvaro Pouey, Teco Menezes e Bruno Añaña.
Assista aqui:
O livro que inspirou os trabalhos
“Peabiru – O Mítico Caminho Sagrado do Atlântico ao Pacífico” é resultado de mais de cinco anos de pesquisa desenvolvida pelo jornalista, escritor e professor Carlos Dominguez. A obra foi lançada em 2023, durante a 93ª Feira do Livro de Lisboa, em Portugal, e reúne uma extensa investigação histórica, jornalística e cultural sobre o Caminho do Peabiru, uma antiga rede de trilhas construída e utilizada por diferentes povos originários da América do Sul.
Mesclando reportagem em profundidade, pesquisa científica e narrativa ensaística, o livro percorre milhares de anos da história do continente e as relações espirituais e culturais estabelecidas em torno da rota sagrada que ligava o Atlântico ao Pacífico. A pesquisa envolveu viagens, entrevistas com arqueólogos, historiadores, antropólogos e moradores das regiões atravessadas pelo antigo caminho, bem como trabalho de campo em diversos países sul-americanos.
A obra procura resgatar a memória e a atualidade das culturas originárias, evidenciando o Peabiru como um símbolo de integração continental e de resistência dos povos ameríndios. Ao mesmo tempo, propõe uma reflexão sobre outras formas de relação com a natureza, o território e a vida coletiva, valorizando conhecimentos ancestrais frequentemente invisibilizados pela narrativa histórica tradicional.
O livro pode ser encomendado diretamente com o autor pelo e-mail: [email protected]
