A Jornada de Agroecologia no Paraná chegou à sua 23º edição com quatro dias de atividades formativas, culturais e feira agroecológica em Curitiba. Organizado por mais de 60 coletivos e organizações populares, o evento histórico trouxe à capital paranaense uma grande tenda circular repleta da diversidade produtiva do campo e da cidade, e buscou apresentar ao público urbano um novo modelo de produção agrícola que se coloca como projeto estruturante para a sociedade brasileira, a agroecologia.
No sábado (20), a conferência “Desafios para entender a crise ambiental e construção de um projeto alternativo de sociedade” reuniu João Pedro Stedile, da direção do MST, o teólogo da libertação Leonardo Boff e Camila Girardi Fachin, vice-reitora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), para um debate transversal de síntese das reflexões da Jornada.
A apresentação cultural de abertura do Seminário foi da Orquestra Popular Camponesa, projeto de iniciação musical e prática orquestral que levou ao palco crianças de quatro acampamentos e assentamentos do MST no Paraná. Composta por 40 instrumentistas sem-terra de 9 a 18 anos, a apresentação propôs um “Concerto pela paz”, como destacou o coordenador do projeto, Igor de Nadai. No repertório, estavam músicas como “Ode à Alegria”, de Beethoven, e canções como “Venezuela” e “El Derecho de Vivir en Paz”, do chileno Victor Jara, além de uma apresentação em coro da música Luar do sertão.

“Todas as crianças têm direito à música, ao ensino de música. E isso é possível em comunidades transformadas, em que a reforma agrária é exemplo dessa transformação”, disse o coordenador. Na fala, Nadai explicou que o projeto atende cerca de 280 crianças em todo o estado e que é viabilizado por muitos apoiadores, tendo como principais agentes as próprias comunidades. “São pais, mães, educadores e professores que se envolvem nessa construção cotidiana. É esse compromisso das comunidades que viabiliza a Orquestra Camponesa”, disse.
Convocação à humanização
Após a apresentação, os debatedores subiram ao palco do anfiteatro para diálogo com o amplo público da Jornada. Leonardo Boff abriu o seminário com uma reflexão centrada na ideia da solidariedade como força humanizadora. “Quando nossos ancestrais buscavam a comida, não comiam sozinhos; traziam para o grupo, davam para os pequeninos, para os mais idosos, depois comiam juntos. E esse comer juntos, a comensalidade, permitiu o salto da animalidade à humanidade; foi então que ficamos humanos”, disse.
“A solidariedade é uma das coisas que menos existem no mundo de hoje, porque o capitalismo só conhece a competição sem nenhuma cooperação, sem nenhuma solidariedade”, analisou o teólogo. E complementou: “Vejam o morticídio, o genocídio que ocorre na Faixa de Gaza. Os países europeus que criaram a democracia, os direitos humanos, os primeiros que abraçaram o cristianismo, estão de braços cruzados, nos envergonhando”.
Boff conduziu uma fala sensível, propondo a espiritualidade como uma dimensão inseparável do ser humano. “Assim como temos a vontade, temos a inteligência, temos a sensibilidade, com o mesmo direito de cidadania, temos a espiritualidade, que é o profundo do ser humano, onde ele coloca as grandes questões. Tudo isso constitui a espiritualidade natural dos seres humanos”, afirmou.

João Pedro Stedile analisou a conjuntura político-econômica brasileira e internacional. O coordenador do MST dividiu com o público a ideia de que vivemos uma crise estrutural e profunda, que articula várias facetas ao mesmo tempo, como a crise ambiental, tecnológica, a crise dos valores humanistas e a própria crise do capital.
“Os capitalistas estão acumulando muito dinheiro, cada vez mais concentrado, porém o sistema capitalista não consegue mais organizar a produção e a vida social em benefício das necessidades das pessoas”, disse Stedile. “E aí está a contradição fundamental que nos leva a afirmar que o modo de produção capitalista já não serve para a humanidade, porque ele não resolve mais os nossos problemas”, denunciou o dirigente do MST.

Para ele, a classe trabalhadora foi influenciada pela ideologia da direita, e isso aprofundou a sua crise. Entre os caminhos para uma possível mudança, Stedile apontou a necessidade de admitir a situação. “A classe trabalhadora, nesse tempo histórico, precisa refletir, debater coletivamente para encontrar saídas para a sua crise organizativa, sua crise programática, e retomar as lutas de massa. Para poder garantir direitos e melhorar as condições de vida de toda a população”, refletiu. “O ascenso das massas virá, resta saber quem será responsável por conduzi-lo”, alertou.
Universidades na construção de uma sociedade melhor
A vice-reitora da UFPR, Camila Fachin, refletiu sobre o papel da universidade na construção da agroecologia e da transformação social. “A agroecologia não é apenas uma técnica de organização de produção agrícola; ela é uma proposta de reorganização da relação entre a sociedade e a natureza”, explicou. Ela defendeu que a universidade pública deve colaborar para este projeto alternativo de sociedade, que, segundo ela, “não é uma utopia distante, ele é uma realidade […] que está sendo semeada nos territórios, nas escolas, nas universidades, nos assentamentos, nas comunidades de todo o Brasil”.
Para a professora, trata-se de abrir as portas da universidade para os saberes populares. “A gente tem que defender uma ciência aberta, uma universidade de portas abertas”, defendeu. A UFPR é anfitriã da jornada desde 2017.

A Jornada de Agroecologia seguiu na tarde de sábado com diversas oficinas e seminários, além de apresentação com o grupo de percussão Unidos da Lona Preta, formado por jovens do MST. No período da noite, a programação continuou com a batalha de rima, show do Matuto S.A. (SP) e o rapper brasiliense GOG.
A 23ª Jornada de Agroecologia é realizada pela Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária (ACAP), com o apoio coletivo de muitas instituições, coletivos, movimentos, com destaque para a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Ministério da Saúde.

