Fica 2026

‘O progresso não pode ocorrer às custas da escravidão’, avalia o ator e diretor Antônio Pitanga

Jurado do Festival, o ator e diretor traça um paralelo entre as lutas do Cinema Novo e a atual crise climática

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Antônio Pitanga faz parte do Júri Internacional Washington Novaes do 27º FICA
Antônio Pitanga faz parte do Júri Internacional Washington Novaes do 27º FICA | Crédito: João Palhares/BDF DF

Parte do Júri Internacional Washington Novaes da 27ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), Antônio Pitanga conversou com o Brasil de Fato DF sobre a urgência climática e o agravamento das crises sociais no Brasil. De acordo com ele, o audiovisual segue cumprindo seu papel histórico como uma tribuna que denuncia violências. Histórias que, de acordo com o diretor, se perpetuam desde o Cinema Novo, época em que ele iniciava sua relação com a produção audiovisual. 

“Ainda estamos vendo filmes em que pessoas são tratadas como gado, sendo expulsas de suas terras para abrir espaço para grandes construções ou para garantir a vitória do agronegócio”, disse o ator que traçou um paralelo direto entre as pautas de quase sete décadas atrás e os desafios atuais. Diante do cenário, o diretor do filme Malês foi categórico: embora a cultura atue como o “arauto” que anuncia a urgência do debate, frear o que ele classifica como uma “tragédia acontecendo a cada segundo” vai além das telas e exige respostas estruturais concretas do Estado.

Neste ano, a Mostra Washington Novaes reuniu produções selecionadas por pessoas pesquisadoras, produtoras culturais e setores da universidade vinculados à prática audiovisual. Dentre eles nomes como a professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG) Ceiça Ferreira e Carlos Cipriano, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFG). De acordo com a Comissão de Seleção da Mostra, a curadoria selecionou trabalhos que transitam por diferentes gêneros e linguagens artísticas para debater temas como identidade, memória e deslocamentos, unindo inventividade audiovisual à urgência da dimensão política. As premiações nesta categoria podem chegar até R$ 35 mil para o melhor longa-metragem. 

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato DF: A partir desse lugar, como parte do  Júri Internacional do Fica, queremos entender, num primeiro momento, de todas as produções que já assistiu, o que elas revelam sobre a forma como o cinema está lidando com a urgência ambiental e a crise climática?

Antônio Pitanga: Para mim, é a revelação de um festival que está há 27 anos abordando os temas mais importantes, não só de Goiás e do Brasil, mas do mundo: a questão do meio ambiente, a questão climática e a questão da Terra. O Fica aborda e traz para o primeiro plano essa questão vital, que é a vida e o fim ou a morte do planeta. Através da memória, esse festival escancara as condições do ser humano e relembra a memória, o passado, onde havia vida, a floresta, os animais e o meio ambiente. Também traz essa revelação através dos temas do Fica em 2026, no século XX, o extermínio da humanidade, mostrando que, se não fizermos algo e não nos prepararmos para salvar a vida, o cenário é preocupante.

Eu acho que o Fica não é mais apenas um festival; é o acontecimento mais importante da história do audiovisual sobre o meio ambiente, a questão climática e a valorização da vida. É importante que esse tema não fique restrito ao debate, mas que adentre os lares, a educação e a formação das pessoas enquanto ainda há tempo nesta década, focando na juventude que sinaliza o futuro daqui a 50,70 anos.

O senhor falou sobre a questão da terra e da memória, que são temas muito importantes para os povos e comunidades, sobretudo falando aqui do meu lugar, que é o Cerrado. Pensando nisso, e a partir do tema deste ano é Água e Clima no Brasil das Nascentes, como enxerga o poder do cinema para mediação dessas realidades, especialmente quando falamos de histórias que vem dos territórios, de verdadeiras guardiãs do meio ambiente?

O papel da cultura é ser o grande anunciador, o arauto que anuncia o que ainda está prestes a acontecer. Mas apenas isso não basta. Os cineastas têm a capacidade de sentir e, através do audiovisual, trazer esse tema para discussão, porém a resolução prática é uma questão de Estado, de nação e de governo.

O movimento que acontece hoje entre os jovens cineastas, preocupados exatamente com o extermínio do ser humano, com a água, o meio ambiente e o clima, é a mesma coisa que eu vivia há quase 70 anos, com o Cinema Novo. Nós nos perguntávamos que país era esse e lutávamos através do audiovisual não só para denunciar, mas para mostrar a realidade e debater.

O cinema é essa tribuna que debate, mas não é o responsável por executar as grandes obras, arregaçar as mangas e resolver o problema. Isso é papel do Estado, da nação e do governo. Nós apenas sinalizamos e trazemos o tema para que seja discutido. Eu acho que é uma questão política, é uma questão fundamentalmente política para o Brasil.

A partir da sua trajetória política, e o cruzamento com o cinema, como pensa ser possível traçarmos estratégias coletivas para enfrentar essa ofensiva, sobretudo nas questões que atravessam as mudanças climáticas, como por exemplo, o racismo ambiental? 

O audiovisual está cumprindo o seu grande papel de trazer o tema para discussão. No Cinema Novo, a gente discutia o preconceito, a invisibilidade, o feminicídio e o racismo. Hoje, em 2026, ainda estamos vendo filmes em que pessoas são tratadas como gado, sendo expulsas de suas terras para abrir espaço para grandes construções ou para garantir a vitória do agronegócio.

O progresso não pode ocorrer às custas da escravidão de quem constrói este país.

O cinema está aí, os filmes estão aqui, o Fica está aqui revelando que ainda vivemos momentos de escravidão, de invisibilidade e de violência. Então, o audiovisual e os documentários estão cumprindo o seu papel. O Fica tem uma função tão importante que não pode ficar restrito a Goiás ou Goiânia; é um festival que precisa escancarar esses temas para o Brasil e nos ajudar a entender esse temas.

Eu tenho 87 anos e comecei a fazer cinema na década de 1950, há quase 70 anos. Hoje, me deparo com os mesmos temas que discutíamos nas décadas de 1950 e 1960, quando não tínhamos nem 70 milhões de habitantes no Brasil. Em 2026, somos 216 milhões. A situação piorou; é uma tragédia acontecendo a cada segundo e a cada momento.

Fico pensando aqui que com tantas produções e temas urgentes que atravessam o Festival seja difícil fazer uma seleção do que é mais “importante” como membro do júri. Mas, gostaria de saber o que mais chamou a sua atenção no festival e pedir que o deixasse uma frase final sobre o que o que podemos fazer, por exemplo, para tentar adiar o fim, ou a morte, do planeta como trouxe no início?

Acho que o trabalho do Fica, principalmente neste momento, é de uma importância muito grande. Não é um evento que simplesmente termina a temporada e acaba. Há conselhos, discussões e todo um movimento com várias delegações, incluindo um júri de jovens, um júri de povos originários e de quilombolas, todos discutindo o Brasil. É uma das leituras mais importantes das quais já participei.

Espero que o Fica não apenas continue – porque ele já veio para ficar -, mas que tenha desdobramentos para que alcancemos uma compreensão natural de defesa da vida. O Fica significa “viva a vida”. E dessa maneira vamos entendendo o papel de cada um. Os filmes que tenho visto – sejam de cineastas goianos, mineiros, de todo o Brasil ou de fora do país – compartilham o mesmo compromisso e a mesma preocupação. Portanto, espero participar de outras edições e que possamos crescer a partir desses encontros, que tenham um grande desdobramento nacional.


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Editado por: Flávia Quirino

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