Hortas-Escola

Projeto Frutos da Terra leva alimentação saudável e educação ambiental para territórios do RS

Em Canoas e Esteio, a iniciativa consolida espaços comunitários com estrutura de domo geodésico

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Iniciativa acompanha 25 hortas comunitárias instaladas em escolas, associações de moradores, centros de tradições gaúchas (CTGs), igrejas e outros espaços coletivos
Iniciativa acompanha 25 hortas comunitárias instaladas em escolas, associações de moradores, centros de tradições gaúchas (CTGs), igrejas e outros espaços coletivos | Crédito: Clara Aguiar

Uma estrutura em formato geodésico onde as sementes cultivadas se transformam em alimento saudável, sala de aula e ponto de encontro para a comunidade. Essa é a proposta do Projeto Frutos da Terra, que leva agroecologia e educação ambiental a diferentes territórios do Rio Grande do Sul por meio da implantação e revitalização de hortas comunitárias

Atualmente, a iniciativa acompanha 25 hortas comunitárias instaladas em escolas, associações de moradores, centros de tradições gaúchas (CTGs), igrejas e outros espaços coletivos. A equipe do Brasil de Fato RS foi conhecer o trabalho desenvolvido em duas dessas hortas, localizadas em Canoas e Esteio.

Ao longo de três anos, o projeto prevê a implantação e a revitalização de hortas comunitárias, promovendo ações voltadas à segurança alimentar, à educação ambiental e ao fortalecimento dos territórios. A iniciativa busca transformar esses locais em ambientes de produção de alimentos saudáveis, aprendizagem e participação comunitária, incentivando práticas sustentáveis e o desenvolvimento local.

Horta-escola do IFRS Campus Canoas

O Projeto Frutos da Terra, executado pelo Instituto Integrar-RS em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, inaugurou na última quarta-feira (17) a Horta-Escola do Campus Canoas do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). O espaço foi concebido como um laboratório vivo de agroecologia e aprendizagem, aberto a estudantes da instituição, além de escolas e comunidades da região.

Coordenador do Instituto Integrar, Docimar Querubin | Crédito: Clarissa Londero

O coordenador do Instituto Integrar, Docimar Querubin, explica a trajetória da entidade. Segundo ele, o Instituto Integrar é uma organização sem fins lucrativos vinculada aos trabalhadores metalúrgicos da Central Única dos Trabalhadores (CUT), com atuação desde 1997. Inicialmente voltado à qualificação profissional, o instituto passou a concentrar suas ações em projetos sociais desenvolvidos junto às comunidades. O projeto foi contemplado em edital da Petrobras em 2023.

Além da implantação das hortas, a iniciativa oferece assessoria técnica permanente e promove oficinas sobre sustentabilidade, produção de alimentos, segurança alimentar, direitos humanos, empreendedorismo e agroecologia.

A produção é voltada principalmente ao consumo das comunidades | Crédito: Clarissa Londero

A produção é voltada principalmente ao consumo das comunidades. Segundo Querubim, a intenção é que os alimentos sejam destinados ao próprio território. A equipe técnica é multidisciplinar, formada por biólogos, agrônomos, nutricionistas e assistentes sociais, que acompanham o processo para garantir uma produção sem agrotóxicos e alinhada à agroecologia.

Estrutura reúne ensino, pesquisa e sustentabilidade

A estrutura inaugurada no IFRS foi pensada como uma horta-escola. Instalada em um domo geodésico, reúne canteiros de hortaliças, viveiros de mudas, produção de árvores, compostagem, trilha ecológica e uma sala de aula ao ar livre.

A proposta amplia o uso pedagógico do campus para além da sala de aula tradicional | Crédito: Clarissa Londero

O objetivo é funcionar como um laboratório vivo, onde estudantes do Instituto Federal possam desenvolver atividades de pesquisa e aprendizagem, ao mesmo tempo em que o espaço também recebe escolas da região para ações de educação ambiental. Querubin destaca que a proposta amplia o uso pedagógico do campus para além da sala de aula tradicional.

Bióloga Karin Lutkemeier | Crédito: Clarissa Londero

Para a bióloga Karin Lutkemeier, a iniciativa reforça esse caráter educativo ao explicar que o espaço funciona como uma sala de aula ao ar livre, com ambientes diversos de ensino, como produção de alimentos, viveiros, sementeiras e trilha ecológica. Segundo Lutkemeier, a horta segue princípios agroecológicos que vão desde a compostagem até a produção de biofertilizantes e o uso de sementes sem tratamentos químicos, evitando impactos ao solo, à água e às pessoas.

Ela também destaca o caráter interdisciplinar da iniciativa, que permite articulações com diferentes áreas do conhecimento. “Não será uma horta só para biologia. Podemos trabalhar tecnologia, irrigação, arquitetura, automação, eletrônica e sustentabilidade”, afirma.

Integração com a comunidade

A diretora-geral do Campus Canoas do IFRS, Patrícia Hübler, afirma que o projeto ampliou a visão da instituição ao ser compreendido como um espaço de aprendizagem integrado ao território. Segundo Hübler, a horta-escola não se limita à produção agrícola, mas se consolida como uma sala de aula ao ar livre.

Diretora-geral do Campus Canoas do IFRS, Patrícia Hübler | Crédito: Clarissa Londero

Ela destaca que a proposta busca uma formação mais integral, articulando automação, irrigação, tecnologia, pesquisa e inovação vinculadas à sustentabilidade. Hübler também ressalta que o espaço será aberto à comunidade, recebendo escolas da região e fortalecendo a educação pública gratuita e de qualidade.

Espaço será aberto à comunidade, recebendo escolas da região e fortalecendo a educação pública gratuita e de qualidade | Crédito: Clarissa Londero

Cada horta nasce do diálogo com o território

O engenheiro agrônomo Leandro Benatto explica que cada horta é construída a partir de um processo de escuta e análise do território. Segundo ele, são considerados aspectos como solo, água, insolação e características do espaço, além dos desejos da comunidade envolvida.

Engenheiro agrônomo Leandro Benatto | Crédito: Clarissa Londero

Benatto cita experiências distintas, como uma horta instalada em um terreiro de matriz africana voltada ao cultivo de plantas de uso ritual, e outra, no Jardim da Conquista, adaptada em formato suspenso devido a alagamentos.

Ele destaca ainda a importância da continuidade das ações. Segundo o engenheiro agrônomo, está em articulação a criação do Fórum de Agricultura Urbana e Periurbana de Canoas, com o objetivo de fortalecer políticas públicas que garantam a permanência dessas iniciativas. Para Benatto, o principal desafio não é a implantação das hortas, mas a manutenção do vínculo comunitário após o término dos projetos.

Horta-escola de Esteio 

Em Esteio, o Projeto Frutos da Terra se articula com a Casa da Cultura Hip Hop, espaço comunitário que há nove anos desenvolve atividades culturais, educativas e ambientais e que, há um ano, implementou a horta-escola, funcionando como uma das frentes do projeto e fortalecendo a integração entre agroecologia e cultura urbana.

Técnica ambiental Iara Pacheco e Natália Diogo dos Santos, coordenadora da estufa agroecológica da Casa da Cultura Hip Hop de Esteio | Crédito: Clara Aguiar

O espaço surgiu a partir da cessão de um imóvel pela moradora conhecida como dona Flora, que se sensibilizou com a atuação da associação. Segundo Natália Diogo dos Santos, coordenadora da estufa agroecológica da Casa da Cultura Hip Hop de Esteio, o local foi cedido após o reconhecimento da importância do trabalho desenvolvido no território.

A Casa passou por diversas transformações estruturais e, após as enchentes de 2023 e 2024, teve sua fachada reconstruída com elementos que remetem à memória da tragédia. Segundo Santos, a reconstrução buscou preservar a identidade do hip hop ao mesmo tempo em que incorpora a experiência vivida pela comunidade durante os eventos climáticos extremos.

A produção não tem finalidade comercial e é destinada ao consumo comunitário | Crédito: Clara Aguiar

Dentro desse território, o projeto atua em parceria com o Instituto Integrar, fortalecendo uma horta agroecológica mantida pela comunidade. Santos explica que o trabalho vai além da produção de alimentos, ao promover educação ambiental e reflexão sobre alimentação saudável, especialmente entre crianças e jovens.

Casa da Cultura Hip Hop, espaço comunitário que há nove anos desenvolve atividades culturais, educativas e ambientais e que, há um ano, implementou a horta-escola | Crédito: Clara Aguiar

A produção não tem finalidade comercial e é destinada ao consumo comunitário. Segundo Santos, o objetivo é garantir o acesso a alimentos saudáveis e fortalecer a autonomia alimentar do território. A iniciativa também integra o projeto Hip Hop pelo Clima, que articula cultura urbana e enfrentamento às mudanças climáticas, reafirmando o hip hop como forma de resistência.

Crianças aprendem na prática de onde vêm os alimentos

A técnica ambiental Iara Pacheco atua na mobilização de visitas escolares em Esteio. Segundo ela, as escolas entram em contato com o espaço e o transporte é viabilizado para que as crianças conheçam a horta.

Dentro desse território, o projeto atua em parceria com o Instituto Integrar, fortalecendo uma horta agroecológica mantida pela comunidade | Crédito: Clara Aguiar

Durante as visitas, as crianças colhem e provam alimentos produzidos no local, vivenciando de forma prática o ciclo da terra. Pacheco destaca que muitas delas não sabiam como alimentos como o alface eram cultivados, e se surpreendem ao acompanhar o processo.

Horta Comunitária Dona Flora, em Esteio | Crédito: Clara Aguiar

O objetivo, segundo ela, é aproximar o aprendizado da realidade das famílias e mostrar que qualquer espaço pode se transformar em produção de alimentos. “Tudo que se planta dá”, resume.

Confira a reportagem em vídeo:

Editado por: Marcelo Ferreira

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