Uma estrutura em formato geodésico onde as sementes cultivadas se transformam em alimento saudável, sala de aula e ponto de encontro para a comunidade. Essa é a proposta do Projeto Frutos da Terra, que leva agroecologia e educação ambiental a diferentes territórios do Rio Grande do Sul por meio da implantação e revitalização de hortas comunitárias.
Atualmente, a iniciativa acompanha 25 hortas comunitárias instaladas em escolas, associações de moradores, centros de tradições gaúchas (CTGs), igrejas e outros espaços coletivos. A equipe do Brasil de Fato RS foi conhecer o trabalho desenvolvido em duas dessas hortas, localizadas em Canoas e Esteio.
Ao longo de três anos, o projeto prevê a implantação e a revitalização de hortas comunitárias, promovendo ações voltadas à segurança alimentar, à educação ambiental e ao fortalecimento dos territórios. A iniciativa busca transformar esses locais em ambientes de produção de alimentos saudáveis, aprendizagem e participação comunitária, incentivando práticas sustentáveis e o desenvolvimento local.
Horta-escola do IFRS Campus Canoas
O Projeto Frutos da Terra, executado pelo Instituto Integrar-RS em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, inaugurou na última quarta-feira (17) a Horta-Escola do Campus Canoas do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). O espaço foi concebido como um laboratório vivo de agroecologia e aprendizagem, aberto a estudantes da instituição, além de escolas e comunidades da região.

O coordenador do Instituto Integrar, Docimar Querubin, explica a trajetória da entidade. Segundo ele, o Instituto Integrar é uma organização sem fins lucrativos vinculada aos trabalhadores metalúrgicos da Central Única dos Trabalhadores (CUT), com atuação desde 1997. Inicialmente voltado à qualificação profissional, o instituto passou a concentrar suas ações em projetos sociais desenvolvidos junto às comunidades. O projeto foi contemplado em edital da Petrobras em 2023.
Além da implantação das hortas, a iniciativa oferece assessoria técnica permanente e promove oficinas sobre sustentabilidade, produção de alimentos, segurança alimentar, direitos humanos, empreendedorismo e agroecologia.

A produção é voltada principalmente ao consumo das comunidades. Segundo Querubim, a intenção é que os alimentos sejam destinados ao próprio território. A equipe técnica é multidisciplinar, formada por biólogos, agrônomos, nutricionistas e assistentes sociais, que acompanham o processo para garantir uma produção sem agrotóxicos e alinhada à agroecologia.
Estrutura reúne ensino, pesquisa e sustentabilidade
A estrutura inaugurada no IFRS foi pensada como uma horta-escola. Instalada em um domo geodésico, reúne canteiros de hortaliças, viveiros de mudas, produção de árvores, compostagem, trilha ecológica e uma sala de aula ao ar livre.

O objetivo é funcionar como um laboratório vivo, onde estudantes do Instituto Federal possam desenvolver atividades de pesquisa e aprendizagem, ao mesmo tempo em que o espaço também recebe escolas da região para ações de educação ambiental. Querubin destaca que a proposta amplia o uso pedagógico do campus para além da sala de aula tradicional.

Para a bióloga Karin Lutkemeier, a iniciativa reforça esse caráter educativo ao explicar que o espaço funciona como uma sala de aula ao ar livre, com ambientes diversos de ensino, como produção de alimentos, viveiros, sementeiras e trilha ecológica. Segundo Lutkemeier, a horta segue princípios agroecológicos que vão desde a compostagem até a produção de biofertilizantes e o uso de sementes sem tratamentos químicos, evitando impactos ao solo, à água e às pessoas.
Ela também destaca o caráter interdisciplinar da iniciativa, que permite articulações com diferentes áreas do conhecimento. “Não será uma horta só para biologia. Podemos trabalhar tecnologia, irrigação, arquitetura, automação, eletrônica e sustentabilidade”, afirma.
Integração com a comunidade
A diretora-geral do Campus Canoas do IFRS, Patrícia Hübler, afirma que o projeto ampliou a visão da instituição ao ser compreendido como um espaço de aprendizagem integrado ao território. Segundo Hübler, a horta-escola não se limita à produção agrícola, mas se consolida como uma sala de aula ao ar livre.

Ela destaca que a proposta busca uma formação mais integral, articulando automação, irrigação, tecnologia, pesquisa e inovação vinculadas à sustentabilidade. Hübler também ressalta que o espaço será aberto à comunidade, recebendo escolas da região e fortalecendo a educação pública gratuita e de qualidade.

Cada horta nasce do diálogo com o território
O engenheiro agrônomo Leandro Benatto explica que cada horta é construída a partir de um processo de escuta e análise do território. Segundo ele, são considerados aspectos como solo, água, insolação e características do espaço, além dos desejos da comunidade envolvida.

Benatto cita experiências distintas, como uma horta instalada em um terreiro de matriz africana voltada ao cultivo de plantas de uso ritual, e outra, no Jardim da Conquista, adaptada em formato suspenso devido a alagamentos.
Ele destaca ainda a importância da continuidade das ações. Segundo o engenheiro agrônomo, está em articulação a criação do Fórum de Agricultura Urbana e Periurbana de Canoas, com o objetivo de fortalecer políticas públicas que garantam a permanência dessas iniciativas. Para Benatto, o principal desafio não é a implantação das hortas, mas a manutenção do vínculo comunitário após o término dos projetos.
Horta-escola de Esteio
Em Esteio, o Projeto Frutos da Terra se articula com a Casa da Cultura Hip Hop, espaço comunitário que há nove anos desenvolve atividades culturais, educativas e ambientais e que, há um ano, implementou a horta-escola, funcionando como uma das frentes do projeto e fortalecendo a integração entre agroecologia e cultura urbana.

O espaço surgiu a partir da cessão de um imóvel pela moradora conhecida como dona Flora, que se sensibilizou com a atuação da associação. Segundo Natália Diogo dos Santos, coordenadora da estufa agroecológica da Casa da Cultura Hip Hop de Esteio, o local foi cedido após o reconhecimento da importância do trabalho desenvolvido no território.
A Casa passou por diversas transformações estruturais e, após as enchentes de 2023 e 2024, teve sua fachada reconstruída com elementos que remetem à memória da tragédia. Segundo Santos, a reconstrução buscou preservar a identidade do hip hop ao mesmo tempo em que incorpora a experiência vivida pela comunidade durante os eventos climáticos extremos.

Dentro desse território, o projeto atua em parceria com o Instituto Integrar, fortalecendo uma horta agroecológica mantida pela comunidade. Santos explica que o trabalho vai além da produção de alimentos, ao promover educação ambiental e reflexão sobre alimentação saudável, especialmente entre crianças e jovens.

A produção não tem finalidade comercial e é destinada ao consumo comunitário. Segundo Santos, o objetivo é garantir o acesso a alimentos saudáveis e fortalecer a autonomia alimentar do território. A iniciativa também integra o projeto Hip Hop pelo Clima, que articula cultura urbana e enfrentamento às mudanças climáticas, reafirmando o hip hop como forma de resistência.
Crianças aprendem na prática de onde vêm os alimentos
A técnica ambiental Iara Pacheco atua na mobilização de visitas escolares em Esteio. Segundo ela, as escolas entram em contato com o espaço e o transporte é viabilizado para que as crianças conheçam a horta.

Durante as visitas, as crianças colhem e provam alimentos produzidos no local, vivenciando de forma prática o ciclo da terra. Pacheco destaca que muitas delas não sabiam como alimentos como o alface eram cultivados, e se surpreendem ao acompanhar o processo.

O objetivo, segundo ela, é aproximar o aprendizado da realidade das famílias e mostrar que qualquer espaço pode se transformar em produção de alimentos. “Tudo que se planta dá”, resume.
