CELEBRAÇÃO

MST de Minas Gerais celebra primeira festa da colheita do Café Guaíí no Quilombo Campo Grande

Famílias que recentemente conquistaram a terra colheram mais de 22 mil sacas de café nesta safra

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A produção no território segue em uma lógica agroecológica, levando em conta a quantidade, mas também a qualidade alimentar e das relações humanas envolvidas no cultivo. | Crédito: Flora Villela

O Quilombo Campo Grande, localizado no município de Campo do Meio (MG), recebeu, no último sábado (20), militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e parceiros de todo o estado, para celebrar a I Festa da Colheita do Café Guaíí. Nesta safra, as lavouras, que totalizam cerca de 3,5 milhões de pés do fruto, produziram mais de 22 mil sacas de café. 

“Só estamos aqui hoje porque caminhamos juntos. O primeiro ato de cooperação nessa terra foi a ocupação. Juntos, nesses 28 anos, chegamos até aqui, e é assim que seguiremos avançando. Agora, mais do que nunca, para desenvolvermos esse assentamento e consolidar nossa transição agroecológica, caminharemos também com os importantes parceiros que estão aqui hoje e vão nos ajudar nos próximos desafios”, disse, durante o ato político, Tuira Tule, dirigente nacional do MST.

“É com muita alegria que nós estamos comemorando a primeira de muitas festas da colheita do café que vamos ter ao longo da nossa história. E isso só foi possível a partir da teimosia de cada companheiro e companheira que, ao longo dessa caminhada, tiveram  de construir a reforma agrária a partir dos próprios braços”, complementou Silvio Netto, da coordenação nacional do movimento.

Para o MST, mais do que a produção de alimentos agroecológicos em larga escala, o momento simbolizou o compromisso com a luta pela terra e a esperança de novos dias. Isso porque os moradores do agora assentamento Quilombo Campo Grande passam pelo processo de institucionalização, por intermédio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

“Todas as nossas famílias passaram, nas últimas semanas, por um processo de inscrição, que as seleciona para serem finalmente assentadas. Estamos aqui nesse dia comemorativo, não só da conquista da terra, mas também da conquista de ter feito essa inscrição e todas as nossas famílias conseguirem ser beneficiadas pela reforma agrária”, ressaltou Jailson Lima, membro da direção estadual do MST e morador do Quilombo.

A festa foi também uma celebração junina, com comidas típicas e quadrilha infantil dos estudantes da Escola Popular de Agroecologia Eduardo Galeano. 

A primeira festa da colheita 

Pela manhã, o dia começou com um mutirão que inaugurou a colheita. Em marcha, famílias assentadas, militantes do movimento, parlamentares e parceiros seguiram para a lavoura e fizeram a apanha dos primeiros frutos. Em uma fala simbólica, antes do início da colheita, Roberto Carlos, que é presidente da Cooperativa Camponesa, entidade que organiza a produção do Guaíi, rememorou a história do cultivo e da resistência no território.

“Hoje é muito mais do que uma festa, é também conseguir resgatar um pouco da nossa história e apontar o futuro. Porque a história é a base para nossa caminhada, mas conseguir visualizar o futuro é fundamental para dar seguimento e alcançar os objetivos”, afirmou.

Segundo ele, hoje, a cooperativa ainda tem um número reduzido de cooperados, em relação às 480 famílias do assentamento, em função da documentação. A expectativa é que os 52 sócios que hoje estão na cooperativa tripliquem com a regularização em curso. Apesar disso, o presidente destacou que o Café Guaíí é atualmente vendido em 14 estados do Brasil, já tendo sido também exportado para diversos países.

“Temos a perspectiva de dobrar nossa quantidade de plantas e dobrar também a produção em sacas. Mas é preciso deixar muito clara a importância de mecanizar o nosso sistema de produção. Sem máquina não é possível. Não dá para seguir produzindo como o meu avô trabalhava em 1950″, ressaltou Roberto Carlos.

A produção  no território segue em uma lógica agroecológica, levando em conta a quantidade, mas também a qualidade alimentar e das relações humanas envolvidas no cultivo. O militante do MST reforça que esse desenvolvimento produtivo e social se dá mesmo sem apoio de crédito ou estrutural por parte do poder público.  

“Não entramos na lógica do modelo do agronegócio destruidor da agricultura familiar, destruidor do pequeno. Nós temos a perspectiva de trabalhar com bio insumo, mecanização voltada para a qualificação da produção das nossas famílias e utilizando a nossa ferramenta cooperativa, porque sem cooperação também não é possível avançar”, concluiu Carlos.

Como contraponto, durante o ato político, Netto destacou a absurda quantidade de subsídios recebidos pelo agronegócio produtor de commodities para a exportação. Para ele, esse é um modelo que não só destrói a natureza, mas também falha em promover desenvolvimento e alimentar o povo.

“Eu desafio alguém a nos mostrar um fazendeiro do agronegócio que tenha produzido tamanha quantidade e qualidade de café ou qualquer outra lavoura sem uma montanha de dinheiro público, sem maquinário, crédito ou infraestrutura”, disse o coordenador do MST.

Durante a tarde, um ato político reforçou o momento de conquista, mas destacou os muitos desafios pela frente, como a urgência de derrotar a extrema direita em Minas e no Brasil e ampliar a representação nas casas legislativas de parlamentares comprometidos com o povo. As lacunas estruturais que ainda atrapalham a vivência e a produção no território foram também centrais nas falas.

Estiveram presentes o deputado federal Rogério Correia (PT), o deputado estadual Luizinho (PT) e o vereador de Belo Horizonte Bruno Pedralva (PT). A superintendente estadual do Incra, Neila Batista, e o prefeito de Campo do Meio, Samuel Azevedo Marinho (PSD), também compuseram a mesa. 

“Para além de celebrar a conquista, é preciso fazer compromissos. A demanda central agora é infraestrutura. Além disso, a questão dos créditos para a agricultura familiar, para que vocês possam, cada vez mais, melhorar as condições de vida, de trabalho e de produção, é essencial. 70% do alimento que vai para a mesa do povo brasileiro vem das mãos dos pequenos produtores e dos assentados da reforma agrária”, destacou Correia. 

Ao tratar sobre o processo de cadastramento recém concluído das famílias para formalização da concessão da terra, a superintendente do Incra ressaltou a importância da organicidade do movimento no território. 

“Nós não daríamos conta de fazer o que foi feito aqui nesses 15 dias sem que houvesse atuação muito firme e muito determinada da coordenação  do MST. Foi intenso o trabalho nesse período para chegar nessa fase”, apontou Batista, que também destacou a calorosa acolhida do movimento para com ela, desde o seu primeiro momento como superintendente.

Atrações culturais vinculadas ao MST e convidadas animaram a festa com muita música. O cantador Zé Pinto inaugurou o microfone encantando os presentes com sua viola. O grupo Mina Flor trouxe para o palco as belas vozes de suas integrantes e sua raiz nos ritmos populares. Para encerrar o festejo, o grupo de forró Baião de Dois esquentou a noite fria no sul do estado. 

Ainda há muitos desafios 

Para o MST, a grandeza da vitória não apaga os imensos desafios que ainda estão postos para a consolidação da habitação digna e do modelo produtivo no território. Como explica Jailson Lima, muitas famílias do Quilombo Campo Grande, que produzem mais de 100 variedades alimentícias, ainda não têm acesso à infraestrutura básica, como água, saneamento e energia elétrica.

“Agora, temos que avançar por meio  das políticas públicas: acessar o Pronaf e outros créditos para que aumentemos a produção do próprio café, mas também do milho, do feijão, do amendoim, do milho de pipoca, entre muitos outros”, disse Lima.

A condição das estradas e a mecanização da produção agrícola também aparecem como lacunas que impactam diretamente a escala de produção das famílias que se organizam na Cooperativa Camponesa. 

Recentemente, a região enfrentou condições climáticas adversas, com uma intensa chuva de granizo que afetou a produção, pouco antes do dia da colheita. Hortas e quintais produtivos, além de outras lavouras, foram atingidos. Esses impactos reacendem o debate sobre o colapso climático e a necessidade de implementar um novo modelo produtivo. 

Relembre 

A comemoração vem na esteira da conquista do território pelas famílias. Em 2025, a antiga fazenda Ariadnópolis foi desapropriada, após 27 anos de disputa. A desapropriação veio com um decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que esteve no quilombo reconhecendo o direito das mais de 480 famílias que lá vivem. A decisão foi posteriormente homologada pela Justiça.

Esse conflito é um dos mais emblemáticos do país. Ao longo das quase três décadas, os sem terra resistiram a 11 despejos. Um dos mais violentos deles aconteceu durante a pandemia de covid-19 e destruiu a escola que agora, como símbolo da esperança, recebeu a festança da colheita desses frutos.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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