OPINIÃO

A orientação política dos EUA contra Cuba: “fome, desespero e a derrubada do governo” 

Compreender o processo histórico entre EUA e Cuba é fundamental

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Povo cubano protesta contra o bloqueio econômico | Crédito: Yamil Lage / AFP

Cuba atravessa hoje um dos momentos mais difíceis da sua história recente. Os apagões se tornaram parte da rotina, a escassez de alimentos, as dificuldades para importar combustíveis e a crise econômica atravessam o cotidiano de milhões de cubanos. Para muitos observadores, essa realidade seria a prova do ‘fracasso’ do  modelo econômico socialista. Mas a história raramente é tão simples quanto os slogans que pretendem explicá-la.  

Para compreender esse processo, é preciso recorrer à história. Mais precisamente a abril de 1960, quando foi produzido o documento intitulado The Decline and Fall of Castro (“O Declínio e a Queda de Castro”), o texto foi escrito por Lester D. Mallory, então subsecretário assistente para Assuntos Interamericanos do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Mais do que uma simples análise diplomática, o documento tornou-se um verdadeiro roteiro da política de Washington para a ilha, estabelecendo as bases de uma estratégia que buscava utilizar a pressão econômica como instrumento para provocar mudanças políticas em Cuba e que, em muitos aspectos, continua orientando as relações entre os dois países até os dias atuais.  

No documento, Mallory reconhecia que o governo de Fidel Castro possuía amplo apoio popular e que não existia uma oposição política organizada capaz de derrubá-lo. Diante desse cenário, defendia que a forma mais eficaz de enfraquecer o governo cubano seria provocar dificuldades econômicas capazes de gerar insatisfação social. O trecho mais conhecido do memorando propunha negar dinheiro e suprimentos à ilha para reduzir salários reais, provocar dificuldades materiais e criar condições que levassem à “fome, desespero para causar a derrubada do governo”. 

O documento, posteriormente disponibilizado pelos próprios arquivos oficiais dos Estados Unidos, mostra que o embargo econômico não foi concebido apenas como uma ferramenta diplomática, mas também como um instrumento de pressão destinado a gerar desgaste interno e descontentamento popular em Cuba. 

Mudam os governos, permanece a orientação

Ao longo das décadas seguintes, diferentes governos norte-americanos mantiveram e ampliaram mecanismos de sanções econômicas. Após o colapso da União Soviética, então principal parceira comercial de Cuba, a situação tornou-se ainda mais delicada. Em vez de serem flexibilizadas, diversas restrições foram reforçadas justamente no momento em que a economia cubana perdia sua principal fonte de apoio externo. O resultado foi uma crise profunda durante os anos 1990, conhecida em Cuba como “Período Especial”. 

Foi nesse contexto que o turismo se tornou uma das principais estratégias de sobrevivência econômica da ilha. Entretanto, o setor também passou a ser alvo de ações violentas. Durante a década de 1990, uma série de atentados terroristas atingiu hotéis, bares e restaurantes frequentados por turistas. O caso mais conhecido ocorreu em 1997, quando explosões deixaram dezenas de feridos e provocaram a morte do turista italiano Fabio Di Celmo. 

A dimensão dessas operações foi revelada anos depois pelo caso conhecido como Operação Vespa, uma rede de agentes cubanos infiltrados em grupos anti revolucionários que viviam em Miami durante a década de 1990. Segundo documentos e investigações posteriores, esses agentes monitoravam organizações envolvidas em atentados, sabotagens e planos de ataque contra a ilha. 

A história ganhou repercussão internacional por meio do livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, do jornalista Fernando Morais, e da adaptação cinematográfica Wasp Network (Rede de Espiões), lançada pela Netflix. Tanto o livro quanto o filme retratam a atuação desses agentes e o ambiente em que grupos responsáveis pelos ataques contra Cuba operavam em território norte-americano. 

Luis Posada Carriles, figura histórica do exílio anticastrista e ligado a operações contra Cuba desde a Guerra Fria, reconheceu publicamente seu envolvimento na organização da campanha de atentados e declarou que o objetivo era prejudicar o turismo cubano, uma das principais fontes de entrada de divisas da ilha naquele período. Apesar das evidências apresentadas e de suas próprias declarações sobre os atentados, Posada Carriles jamais foi julgado nos Estados Unidos pelos ataques, tornando-se um dos casos mais controversos da história das relações entre Washington e Havana. 

Outro elemento importante dessa disputa foi a política migratória conhecida como “Pés Secos, Pés Molhados”, vigente entre 1995 e 2017. Pela regra, cubanos que conseguissem chegar ao território norte-americano podiam permanecer nos Estados Unidos e solicitar residência permanente, com facilidade na obtenção de residência legal, acesso a programas de assistência para refugiados e outras formas de apoio governamental que não são oferecidas a migrantes de outros países. A ideia era estimular a emigração da ilha, principalmente profissionais como médicos e professores, funcionando como mais um instrumento de pressão política sobre o governo cubano. 

Médicos cubanos

Ao longo dos últimos anos, os programas de cooperação internacional que levaram milhares de médicos cubanos a regiões pobres da América Latina, África e Ásia também se tornaram alvo de pressões políticas e campanhas diplomáticas. Essas missões, que durante décadas constituíram uma das principais expressões da política internacional cubana, foram fundamentais no combate a epidemias, desastres naturais e na ampliação do acesso à saúde em regiões onde muitas vezes não havia profissionais disponíveis. 

O paradoxo é evidente: um país que construiu parte de sua presença internacional a partir da solidariedade, que enviou médicos, professores e apoio material a diversos povos e que participou das lutas de independência em países africanos, encontra-se hoje entre as nações mais isoladas e privadas de mecanismos de cooperação. O enfraquecimento dessas parcerias, somado ao endurecimento das sanções e à crise econômica venezuelana, aprofundou ainda mais as dificuldades enfrentadas por Cuba nas últimas décadas. 

Mesmo em momentos de tragédia, após furacões, terremotos e outras emergências humanitárias, as restrições econômicas continuaram impondo obstáculos à recuperação da ilha.  

Os ataques não recuaram nem durante a pandemia de covid-19. Na época, o governo cubano denunciou dificuldades para adquirir insumos médicos, equipamentos, medicamentos e materiais necessários ao combate da doença, incluindo seringas para a aplicação das vacinas, em razão das restrições econômicas e financeiras impostas pelos Estados Unidos. A situação foi alvo de críticas de organizações internacionais como a OMS e especialistas em saúde pública, que alertaram para os impactos humanitários das sanções em um contexto de emergência sanitária global. 

Ainda assim, apesar das limitações econômicas e do acesso restrito a recursos, Cuba consegue desenvolver e produzir suas próprias vacinas contra a covid-19, tornando-se um dos poucos países da América Latina a alcançar esse feito.  

A Venezuela, por sua vez, tornou-se uma parceira estratégica fundamental para a sobrevivência econômica cubana por meio de acordos energéticos e comerciais. Entretanto, as sanções impostas a Caracas e as restrições ao comércio de petróleo venezuelano atingiram indiretamente Cuba, tornando o abastecimento energético da ilha cada vez mais vulnerável às decisões tomadas em Washington. 

Capacidade de resistência

Nada disso significa ignorar os problemas internos de Cuba. A economia cubana enfrenta desafios estruturais, dificuldades de produtividade, burocratização e limitações próprias de seu modelo de desenvolvimento. No entanto, compreender a realidade da ilha exige reconhecer que ela não se desenvolveu em condições normais de competição econômica internacional. Durante mais de seis décadas, Cuba esteve submetida a uma política de pressão econômica, diplomática e política sem paralelo no continente. 

Em 2013, um famoso jornalista da Rede Globo afirmou que em Cuba “apenas” três coisas funcionavam: a saúde, a educação e a segurança. A frase, dita de forma crítica ao sistema cubano, acabou reconhecendo justamente áreas que durante décadas foram apresentadas como algumas das principais conquistas da Revolução. 

Hoje, porém, as notícias sobre esses setores são cada vez mais preocupantes. Hospitais enfrentam falta de medicamentos e equipamentos, escolas lidam com dificuldades materiais e a crise econômica afeta profundamente serviços que por muitos anos foram referência para países em desenvolvimento. 

Nesse cenário, o memorando de Mallory parece adquirir um caráter quase profético. O que em 1960 foi concebido como estratégia transformou-se, ao longo das décadas, em uma política persistente de pressão econômica. Os ventos da história são fortes, mas os da história econômica costumam ser ainda mais implacáveis. A soberania de Cuba passou a representar não apenas a luta de um pequeno país para definir seu próprio destino, mas também um símbolo dos limites da autonomia latino-americana diante das grandes potências. 

Em um continente que volta e meia vê governos, economias e projetos políticos serem ameaçados por sanções, bloqueios ou pressões externas, a experiência cubana permanece como um lembrete do que é ser sul americano. 

Dizer que “Cuba fracassou” é como avaliar o resultado de uma corrida ignorando que um dos competidores passou a prova inteira com as pernas amarradas. A crise que atinge a ilha hoje não pode ser compreendida apenas como consequência de suas escolhas internas. Ela também é resultado de uma longa política de estrangulamento econômico que buscou, desde os anos 1960, produzir exatamente o cenário de dificuldades que vemos atualmente. 

Cuba não fracassou. Há décadas ela vem sendo conduzida a uma situação de fracasso por pressões externas. Pode-se concordar ou discordar de seus rumos, criticar suas contradições ou defender suas conquistas, mas é impossível ignorar a capacidade de resistência demonstrada por um país que, há quase 70 anos, convive com uma política concebida para produzir exatamente o contrário. 

Em uma época em que governos, fronteiras e sistemas políticos surgem e desaparecem em poucas décadas, a permanência de Cuba permanece como um dos fenômenos mais marcantes da história contemporânea da América Latina.  

Laura Sabino é historiadora, militante e comunicadora popular. 

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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