Uma delegação oficial do governo de Xangai, na China, especializada em infraestrutura tecnológica, comércio e soberania digital iniciou nesta semana uma visita oficial ao Brasil. Na equipe estão membros do Escritório Municipal de Dados de Xangai, funcionários de estatais e empresários privados de diversos setores.
Yong Lu é vice-presidente do Escritório Municipal de Dados de Xangai, órgão responsável por “gerenciar a infraestrutura de big data, inovar o ecossistema digital e ditar as políticas de dados da cidade”.
O integrante da delegação disse ao Brasil de Fato que a visita pretende prospectar oportunidades de cooperação e negócios conjuntos. “Nós podemos compartilhar muito da nossa experiência com o Brasil para que possamos nos desenvolver juntos”, afirmou.
O especialista apontou que ambos os países devem cooperar para superar brechas de desenvolvimento que facilitem negócios, como a criação de ferramentas digitais independentes.
“No quesito de soberania digital, Brasil e China não têm tanta semelhança porque a China já desenvolveu suas ferramentas, seus próprios provedores”, explicou.
“Então, ao invés de depender do Google e do WhatsApp, nós temos nossas próprias ferramentas. No Brasil é mais complicado. Muitos serviços são providos por empresas estadunidenses. Nesse sentido, acho que se o Brasil tiver interesse em avançar nessa soberania, serviços chineses poderiam prover Brasil de seus serviços.”
Segundo Lu, a China poderia fazer mais do que simplesmente implementar uma ferramenta específica: “as empresas chinesas podem oferecer a tecnologia, como alguns modelos de open source [código aberto], como o Deep Seek para que o Brasil possa desenvolver suas ferramentas”.
Lu ainda destacou que o fato de a China ser hoje o principal parceiro comercial do Brasil e ambos os países terem alcançado uma balança comercial de mais de 170 bilhões de dólares em 2025 só reforça a necessidade de construir soberania digital.
“Nós estamos na era da economia digital. Muitos serviços são baseados nesse tipo de plataforma. É por isso que precisamos pensar não somente em usar mais esses recursos, mas também em ter o controle deles”, disse.
Reunião com empresários
A delegação oficial realizou nesta quarta-feira (24) um encontro com empresários brasileiros e chineses em São Paulo. Na abertura do evento, Jun Shao, diretor do Escritório Municipal de Dados de Shanghai, destacou as semelhanças políticas e econômicas de ambos os países e como os diversos setores da sociedade podem explorar essas semelhanças.
“A China e o Brasil são membros importantes dos Brics, com forte complementaridade na economia digital. Podemos unir esforços para enfrentar desafios comuns na era da inteligência artificial, como o desenvolvimento desigual e a soberania digital.”, disse.
Jun ainda destacou a presença em território brasileiro de empresas chinesas do ramo das comunicações, automobilístico, delivery e videogames, que utilizam “produção digital, modelos para impulsionar a transformação industrial local”.
“Em Xangai, muitas empresas e instituições também manifestaram claro interesse em cooperar com o Brasil em áreas como manufatura inteligente, saúde inteligente e agricultura inteligente, incluindo as diversas instituições que compartilharão suas experiências ainda hoje”, afirmou.
Representando o Ministério das Relações Exteriores, o assessor para IA do Itamaraty, Guilherme Fitzgibbon, também esteve presente no evento e destacou os esforços do governo para construir uma política regulatória sobre Inteligência Artificial.
“No Congresso, estamos construindo a política de IA, com inspiração nas normas aprovadas recentemente pela União Europeia. A UE recentemente declarou que as proteções no Brasil equivalem às da Europa. É industrialmente importante”, disse.
O PL 2.338/2023, chamado de Marco Legal da Inteligência Artificial, foi aprovado pelo Plenário do Senado e está em tramitação na Câmara dos Deputados. O projeto busca implementar diretrizes éticas e seguras para o desenvolvimento e uso da IA, estabelecendo uma classificação baseada em riscos, proteção aos direitos humanos, transparência e salvaguarda de direitos autorais frente a ferramentas generativas.
