COMUNIDADE NEGRA

Lanceiros Negros e Quitandeiras recebem reconhecimento da comunidade gaúcha com novas esculturas em exibição no Palácio Piratini

Resgate histórico dos grupos mostra a força das suas atuações na Revolução Farroupilha e no período da escravidão

No audio source provided.
Novas esculturas Lanceiros Negros e Quitandeiras no Palácio Piratini, no RS
Novas esculturas Lanceiros Negros e Quitandeiras no Palácio Piratini, no RS | Crédito: Alvaro Bonadiman

Tem uma travessa entre as ruas Coronel Bordini e Mata Bacellar, no bairro Auxiliadora, que homenageia os Lanceiros Negros. Bonita, tem um café, um banco gigantesco, cheio de curvas, um pequeno jardim e um grafite. E existem as Quitandeiras, escravas empreendedoras e libertas, que viviam das vendas em seus tabuleiros de doces, quitutes, verduras, cachaça, fumos, carne seca, lenha e até pratos preparados, como angu, bolos e broas. Elas equilibravam os seus tabuleiros na cabeça ou na cintura e cantavam música para atrair a freguesia. Hoje, no Mercado Público de Porto Alegre tem uma quitandeira, mas ela vende produtos religiosos de matriz africana. Solitária.

Agora, os Lanceiros e as Quitandeiras receberam esculturas especiais no Palácio Piratini, um reconhecimento tardio aos valores destas personagens da história gaúcha. As comunidades negras de Porto Alegre e do Estado consideram as homenagens justas aos homens e mulheres que ajudaram a construir o Rio Grande do Sul. Até bem pouco tempo eram figuras anônimas, só os livros de história – e olhe lá! – reconheciam o valor, a bravura e a sua força no contexto memorial. As peças foram concebidas pelo Ateliê Coletivo Vinicius Vieira, escolhido através de edital da Secretaria de Cultura.

As obras no Piratini foram realizadas por um coletivo de seis artistas – Crédito Alvaro Bonadiman

As visitas às esculturas podem ser feitas diariamente. No final de semana (dias 27 e 28), o local estará aberto para mais uma edição de visitas guiadas especiais. O palácio do governo, que completa 105 anos este ano, também estará aberto, em áreas não acessadas durante a semana, como o gabinete do governador, o Memorial da Legalidade e as obras do pintor Aldo Locatelli, além de poderem ver de perto a arquitetura e o acervo presentes nos espaços.

Os valentes Lanceiros Negros

Os Lanceiros Negros são um resgate histórico da Revolução Farroupilha (1835-1845). Eles formavam um exército rebelde farrapo que buscava a alforria que nunca veio. Em uma ação discutível foram dizimados no episódio denominado “Massacre de Porongos”, segundo relembra a museóloga e jornalista Jeanice Ramos. “Eles representavam um grito de esperança e liberdade. Estas duas obras traduzem a negritude do RS. O resgate da pujança negra, braço forte na construção social do Estado.”

A história do Rio Grande do Sul perpassa pela comunidade negra, diz a jornalista. Ocupar um espaço na oficialidade, com reconhecimento, é uma esperança de dias melhores para a nossa comunidade. “Esta necessidade de ser dito e visto neste espaço icônico é um fato representativo para todos nós, negros.”

A trajetória desse grupo de lanceiros é marcada por bravura, mas também por um dos episódios mais trágicos da história do Brasil Império. Os estancieiros gaúchos recrutavam escravizados para a guerra com a promessa de liberdade, enquanto garantiam que a maior parte do plantel continuasse trabalhando nas charqueadas.

As peças foram concebidas pelo Ateliê Coletivo Vinicius Vieira – Crédito Alvaro Bonadiman

Na madrugada de 14 de novembro de 1844, no Cerro dos Porongos (atual Pinheiro Machado), os Lanceiros Negros foram desarmados sob ordens do general farroupilha Davi Canabarro e emboscados pelas tropas imperiais do Barão de Caxias. Mais de 100 combatentes foram mortos. Os sobreviventes que não fugiram foram enviados ao Rio de Janeiro, onde permaneceram escravizados.

O apagamento histórico desse grupo e a traição por parte da elite farroupilha foram amplamente investigados e recontados na historiografia recente, graças a poucos estudiosos que se debruçaram na questão. Em 2024, os Lanceiros Negros foram oficialmente incluídos no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O Sítio de Porongos tem recebido atenção institucional para preservação da memória e tombamento histórico.

Agora, a luta e o apagamento do grupo são amplamente discutidos em materiais educacionais, como os projetos desenvolvidos no sul do país para desconstruir narrativas excludentes da tradição gaúcha.

As primeiras vendedoras ambulantes

As quitandeiras, de certa forma, garantiam o abastecimento das cidades gaúchas, formavam redes de solidariedade e ajudaram a moldar o espaço urbano gaúcho. A atual Praça da Alfândega, no Centro de Porto Alegre, já foi chamada de “Praça da Quitanda” devido à enorme concentração de quitandeiras na área. Elas também atuavam fortemente nos arredores do Mercado Público e da Colônia Africana (perto do atual Parque da Redenção).

Eram figuras conhecidas e admiradas pela população. Atuavam no comércio de alimentos e bebidas e até na área da saúde, vendendo ervas medicinais e plantas com finalidades terapêuticas. O comércio de rua dava a essas mulheres um nível de autonomia e territorialidade negra em uma sociedade escravocrata, tornando-as figuras centrais da resistência e da formação afro-gaúcha.

Conforme o site Vertentes Negras em Verbetes, as quitandeiras eram personagens romantizadas na cena cotidiana do Brasil dos períodos colonial e imperial – séculos 18 e 19. “Transitar por ruas, becos e vielas vendendo alimentos no espaço público era uma prática ressignificada de uma tradição legada às mulheres, em especial nas regiões centrais e da costa oeste do continente africano”, destaca o site.

A atividade de ganhadeiras era natural às negras traficadas, como destaca a pesquisadora brasileira Juliana Bonomo, pois, nas sociedades africanas, as tarefas de subsistência doméstica e circulação de gêneros eram delegadas às mulheres. “Esta função também atravessou o Atlântico nos tumbeiros (nome que se dava aos navios negreiros). A palavra e o conceito “quitanda” – kitânda (com a letra k) vem do dialeto quimbundo de Angola, dialeto este que plantou raízes na cultura brasileira.

Escultura Lanceiros Negros e Quitandeiras – Crédito Alvaro Bonadiman

As esculturas de valorização negra

As obras no Piratini foram realizadas por um coletivo de seis artistas com trajetórias consolidadas nas artes visuais. O grupo é formado por Vinicius Vieira, Adriana Xaplin, Jeanice Dias Ramos, Paulo Corrêa, Rafael Nascimento e Sabrina Stephanou, profissionais com atuações complementares que abrangem escultura, artes visuais, museologia, fotografia, curadoria e produção cultural.

Com ampla experiência em arte pública e obras permanentes de grande porte, o coletivo já realizou mais de 80 trabalhos de visibilidade pública em diferentes cidades brasileiras. A atuação conjunta se caracteriza pelo diálogo entre memória, patrimônio, narrativas afro-brasileiras e abordagens coloniais, articulando rigor técnico, pesquisa histórica e compromisso com a reparação simbólica dos ancestrais.

Estes artistas fazem parte da Associação dos Escultores do Estado do Rio Grande do Sul (AEERGS), uma entidade cultural fundada em 1982, que mantém núcleos ativos em diferentes cidades gaúchas, contando atualmente com quadro de associados, curadores, historiadores, arquitetos, museólogos, ativistas do movimento social, entre outros profissionais da cultura.

Historicamente atua no desenvolvimento de ações em formato de ateliê aberto de arte, realiza exposições e cursos, organiza debates e seminários, além de diversas ações complementares que objetivam defender os artistas, promover a cultura, bem como preservar as obras de arte, a memória e o patrimônio.

Entre as principais realizações da entidade se pode destacar a organização de mais de 100 exposições desde a sua fundação até os dias atuais, além de mais de 40 seminários, bem como vários cursos que ajudaram a formar novos artistas e demais fazedores de cultura ao longo desses 44 anos.

Editado por: Vivian Virissimo

|

Newsletter