O governo brasileiro formalizou a intenção de emitir títulos de dívida soberanos no mercado chinês, também chamados de “Panda Bonds” ou Títulos Pandas. Os juros praticados ficarão abaixo da metade do que o Tesouro Nacional paga atualmente em dólar.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, entregou a carta de intenção ao presidente do Banco Popular da China (BPC), Pan Gongsheng, em cerimônia na sede da instituição em Pequim nesta quinta-feira (25). O Brasil é o primeiro país da América Latina a formalizar esse tipo de emissão.
Títulos panda são títulos de dívida emitidos por entidades estrangeiras no mercado chinês em renminbi (nome oficial da moeda chinesa, contabilizada em yuans). O mercado de títulos da China é o segundo maior do mundo, com volume superior a 200 trilhões de yuans (mais de R$ 150 tri).
Os títulos podem ter prazos de um a dez anos e incluem formatos como títulos simples, de taxa flutuante e títulos verdes ou de sustentabilidade. Os recursos arrecadados podem ser usados na China ou remetidos ao exterior.
O renminbi é a segunda maior moeda de financiamento comercial do mundo, segundo a SWIFT, rede global de mensagens financeiras interbancárias. O dado se refere apenas a transações feitas dentro da própria rede e exclui as realizadas no sistema chinês de pagamentos transfronteiriços em renminbi (o CIPS), que em 2024 movimentou sozinho 175 trilhões de yuans (cerca de R$ 136 tri). Assim, o peso da moeda chinesa no comércio global é ainda maior.
Por que emitir dívida no mercado chinês
A emissão de títulos públicos consiste em uma estratégia para arrecadar fundos e financiar projetos da República. Uma das principais vantagens de realizar esta atividade no mercado chinês é o custo. Nas emissões recentes de títulos panda, os juros ficaram entre 1,70% e 2,05% ao ano.
Para efeitos de comparação, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) pagou 1,70% em juros ao emitir títulos de três anos; o banco privado estadunidense Morgan Stanley, 1,98% em cinco anos; e o britânico Barclays, 1,95% em três anos, segundo a Xinhua Financeira e o Banco da China. Deste modo, a taxa do BAII ficou “significativamente abaixo” da praticada em títulos de prazo equivalente em dólar ou euro, segundo a Xinhua.
No caso da dívida pública brasileira, o Tesouro Nacional emitiu em 2025 títulos em dólar de cinco anos a 5,2% e de trinta anos a 7,5%.
Em um contato entre a iniciativa privada e o mercado chinês, a multinacional brasileira da celulose Suzano já captou recursos em títulos panda com juros de 2,55% a 2,90% ao ano. Como títulos soberanos têm classificação de risco melhor que os de uma empresa privada, o governo pode conseguir taxas ainda mais baixas.
Além do custo menor, emitir em renminbi significa diversificar moedas e fazer com que o sistema financeiro dependa menos do dólar.
Um avanço nas relações sino-brasileiras
Na cerimônia do acordo, discursaram o presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o presidente do Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), Liao Lin, e o vice-presidente do Banco da China (BaC), Liu Chenggang. Os dois bancos devem atuar como subscritores da emissão.
Pan afirmou que a cooperação financeira bilateral, sob a liderança estratégica do presidente Xi Jinping e do presidente Lula, alcançou “uma série de resultados práticos na cooperação em moeda local, interconexão de infraestrutura financeira e cooperação nos mercados financeiros”. O presidente do BPC disse que a China “incentiva mais instituições brasileiras qualificadas a entrarem no mercado financeiro chinês”.
“Apoiamos o Ministério da Fazenda do Brasil na emissão oficial de títulos panda, para que o Brasil se torne o primeiro país latino-americano a emiti-los”, declarou Pan. “Os títulos panda têm potencial para se tornar uma ponte importante da cooperação financeira entre os dois países.”
Durigan contou que conversou com o presidente Lula a caminho da cerimônia. “O presidente Lula ficou muito feliz e disse que ia ligar para o presidente Xi para saudar este momento importante, este passo adiante que estamos dando juntos”, afirmou.
O ministro apresentou indicadores econômicos do atual governo: a menor taxa de inflação da história para um mandato presidencial brasileiro, combinada com a menor taxa de desemprego, algo que classificou como “muito raro na história econômica brasileira”.
Durigan destacou que a renda das famílias atingiu o maior patamar já registrado. Segundo o IBGE, o rendimento médio mensal de todas as fontes chegou a R$ 3.367 em 2025, o rendimento habitual do trabalho alcançou R$ 3.560 e a renda domiciliar per capita atingiu R$ 2.264, todos recordes da série histórica iniciada em 2012.
“Tudo o que fazemos na economia não significaria nada se pessoas reais no Brasil e na China não se beneficiassem desses avanços”, disse o ministro.
Dario Durigan descreveu a emissão como “sinal de confiança” e afirmou que “não há dois países melhores do que Brasil e China que possam mostrar que podem coliderar o mundo e a economia, trabalhando juntos, construindo vidas melhores para seus cidadãos”.
O governo brasileiro planeja emitir até 5 bilhões de yuans (cerca de R$ 4 bi), segundo Durigan, em entrevista à Reuters.
A cerimônia é o passo mais recente de um processo que se acelerou nas últimas semanas. Em 9 de junho, a quarta reunião do Grupo de Trabalho de Cooperação Financeira Estratégica China-Brasil, co-presidida por Pan Gongsheng e pelo presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, firmou consensos sobre a expansão do swap em moeda local, a negociação direta renminbi-real e o piloto de um “Bond Connect” bilateral, segundo o BPC.
Em maio de 2025, durante visita do presidente Lula à China, Pan e Galípolo participaram do seminário “Aprofundar a Abertura Financeira, Criar Juntos um Novo Capítulo da Cooperação China-América Latina”, no qual o presidente do BPC declarou que “a China convida mais países da América Latina a emitir títulos panda”.
Além da carta de intenção, Durigan anunciou o lançamento, em parceria com uma empresa chinesa, de um portal sobre o mercado de capitais brasileiro, que movimenta mais de R$ 50 trilhões, voltado a investidores chineses. O ministro também confirmou a abertura de um escritório da Receita Federal em Pequim e uma parceria de conexão de ETFs com o governo chinês. “É a minha primeira visita à China, e espero que seja a primeira de muitas”, disse.
Estratégia soberana
Em conversa com jornalistas após a cerimônia, Durigan contextualizou a emissão como resultado de trabalho acumulado. “Para emitir esses títulos, seja na Europa, seja o título panda, é necessário um trabalho que dura anos, de maturação, de adaptação do Tesouro Nacional”, afirmou, citando a presença do secretário do Tesouro Nacional, Daniel Cardoso Leal, na delegação.
“Temos uma estratégia nacional e essa estratégia nacional vai ser executada independentemente de forças estrangeiras”, declarou Durigan. “Diferente do que alguns querem no Brasil, quem lidera um país soberano como o Brasil deve executar sua estratégia soberana, independentemente de constrangimentos do exterior.”
