POLÍTICA NA PISTA

‘Juízo Final’: Porto Alegre recebe lançamento de livro sobre a trama golpista e festa do podcast Medo e Delírio

Obra da premiada fotógrafa Gabriela Biló e dos criadores do podcast fenômeno de audiência será lançada neste sábado (27)

No audio source provided.
Cristiano, do podcast ‘Medo e Delírio em Brasília’, e a fotógrafa Gabriela Biló unem a estética sonora caótica e ácida do programa ao ‘instante decisivo’ da imagem no livro ‘Juízo Final’
Cristiano, do podcast ‘Medo e Delírio em Brasília’, e a fotógrafa Gabriela Biló unem a estética sonora caótica e ácida do programa ao ‘instante decisivo’ da imagem no livro ‘Juízo Final’ | Crédito: Guilherme Gandolfi

Porto Alegre será palco de um evento que une o rigor do fotojornalismo à irreverência da crônica política. Neste sábado (27), a “comunidade de malucos” do podcast Medo e Delírio em Brasília tem encontro marcado no Espaço 512 para o lançamento do livro “Juízo Final: Tentativa e fracasso do golpe no Brasil”.

A obra, assinada pela fotojornalista Gabriela Biló em parceria com Cristiano Botafogo e Pedro Daltro, documenta a tentativa de golpe de Estado entre 2022 e 2023 e o seu subsequente julgamento. Lançamento e sessão de autógrafos será às 17h, com entrada franca. A partir das 20h, o clima esquenta com a festa oficial (confira o serviço no final desta matéria).

O evento marca a chegada à capital gaúcha de um projeto que já circulou por Rio, São Paulo e Belo Horizonte, consolidando-se como um “manifesto estético” e uma “colagem simbólica do esforço coletivo para interpretar e retratar o país”.

Biló, que em 2024 conquistou o Prêmio Jabuti e o prestigiado World Press Photo, traz neste novo trabalho o olhar aguçado que a tornou a primeira mulher a atuar como fotógrafa política, pelo Estadão, na capital federal.

A programação no Espaço 512 (Rua João Alfredo, 512 - Cidade Baixa) inicia às 17h com o lançamento do livro e sessão de autógrafos, atividade com entrada franca
A programação no Espaço 512 (Rua João Alfredo, 512 – Cidade Baixa) inicia às 17h com o lançamento do livro e sessão de autógrafos, atividade com entrada franca | Crédito: Guilherme Gandolfi

Entenda a obra: do 8 de janeiro ao ‘Juízo Final’

O livro é o segundo volume de uma parceria que começou com “A Verdade Vos Libertará” (2023). Se o primeiro registro focava na escalada da violência política durante o governo anterior, “Juízo Final” mergulha nos desdobramentos da intentona golpista de 8 de janeiro e no processo de responsabilização jurídica que se seguiu.

Além das fotografias de Biló, a obra conta com a curadoria de áudios, memes e notícias feita pelos apresentadores do podcast, além do projeto gráfico do artista visual Pedro Inoue. O resultado é uma experiência multimídia que desafia o revisionismo histórico e reafirma a importância da memória para a defesa da democracia brasileira

Em entrevista para o Brasil de Fato RS, para aprofundar o debate sobre o lançamento, os autores contam um pouco das percepções desse lançamento, explorando a intersecção entre arte, política e monitoramento estatal:

Brasil de Fato RS — Cristiano, o podcast “Medo e Delírio em Brasília” é reconhecido por uma estética sonora caótica e ácida, que traduz o cenário político recente. Já Gabriela tem o trabalho calcado no “instante decisivo” da imagem. Como foi o processo de transpor a linguagem de “mixtape” do podcast para um fotolivro estático sem perder a urgência e a crítica mordaz que caracterizam o trabalho de vocês?

Cristiano — Esse já é o segundo livro que a gente está fazendo. A Gabriela Biló era ouvinte do “Medo e Delírio”, gostava da linguagem, precisava de alguém para participar na organização, na criação do arco narrativo, alguma coisa assim, do primeiro livro, “A Verdade Vos Libertará”, que foi em 2023. Aí a gente se encontrou, ela já conhecia o trabalho do “Medo e Delírio”, eu conheci o trabalho dela, e a gente acabou, nesse processo, se apaixonando e se casando.

Aí a gente fez “A Verdade Vos Libertará” em 2023, ganhou o Jabuti, e, ano passado, fomos para o segundo livro. Então, na verdade, não é uma transposição da linguagem do podcast para o livro.

No primeiro, ele tinha uma linguagem um pouco mais rasgada, um pouco mais de rua, um pouco mais de lambe de rua, que foi trazida muito pelo Pedro Inou, o designer do livro. A gente entrou na organização, na criação do arco narrativo, na opinião do que entrava, na curadoria geral e nos QR codes. No primeiro livro, teve 73 QR codes. Nesse segundo, a gente decidiu fazer um só, porque era um livro mais sóbrio, mais urgente, talvez, não sei se é essa palavra, exatamente como um resumo do que foi o processo da trama golpista.

Ele é um livro bem mais sério, tem bem mais P&B, é bem menos colorido. O texto é bem mais formal, tem o prefácio do Marcelo Rubens Paiva, tem a organização do Fernando Barros e Silva, a edição. O texto é da Gabriela Biló, em enorme maioria. A versão em áudio dele, que tem no QR code logo no começo do livro, também é bem mais séria. É um livro bem mais denso, mais sério, não tem tanta zoeira. A gente está participando menos através de uma impressão da linguagem que tem no podcast do que como organizadores e participantes de um texto, imagens e texto propriamente dito.

Foi revelado que a chamada “Abin paralela” utilizou recursos do governo para tentar investigar os membros do podcast. De que forma o conhecimento de que vocês eram alvos diretos de monitoramento estatal influenciou a curadoria das imagens e textos de “Juízo Final” em comparação ao primeiro livro, “A Verdade Vos Libertará”? Houve uma mudança na percepção do risco ou na responsabilidade do registro histórico?

Cristiano — Não. Vou te dizer muito sinceramente: a gente teve essa conversa. A primeira vez que apareceu isso, a gente ficou meio assim: caraca, estão nos levando muito a sério, né? E aí a gente ficou ligeiramente preocupado. Mas meio que começamos a entender que era como se fosse uma galera da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que queria “mostrar serviço” para o chefe. A gente interpretou dessa forma. A gente não soube de nada, interpretou assim.

E botou lá, porque obviamente o que apareceu foi um print de uma mensagem, um documento, em um processo da Polícia Federal, dizendo que descobriram quem era um dos caras do “Medo e Delírio”. Isso é uma coisa que o cara deve ter visto em alguma rede social e descobriu quem era eu, quem era o Pedro. Porque, se o cara fizesse cinco minutos de pesquisa, se ele ouvisse o episódio, no começo está dito lá o meu nome e o nome do Pedro. Moleza, não tem problema nenhum de descobrir.

Então isso não mudou em nada. Nunca deixamos de fazer nada ou fizemos mais em relação a isso. Tanto que essa parte só aparece na investigação da Polícia Federal, e a gente nem foi atrás depois. Teve um pessoal que eu acho que buscou alguma espécie de judicialização em relação a isso, e a gente nem foi atrás porque achou que era uma bobeira, era um cara que mandou uma mensagem sem muitas consequências. A gente achou que não tinha mais do que isso, sabe? Acho que é por aí.

O título do livro remete ao julgamento da tentativa de golpe de Estado no Brasil. Para além das sentenças do Poder Judiciário, vocês acreditam que o livro cumpre um papel de “tribunal da memória”? Como o registro de imagens como a de Lula através do vidro trincado — que gerou polêmica com o próprio governo — contribui para essa narrativa de resistência e reconstrução democrática?

Cristiano — Consideramos sim. A gente, obviamente, não se leva tão a sério ao ponto de achar que é um trabalho definitivo ou alguma coisa assim, mas acha que é um bom exemplo de resumo, um pequeno manualzinho artístico, sabe? Tem todas as fotos da Gabriela. Então tem toda a parte artística, e o texto dela também ficou muito bom, muito bem organizado, muito fluido, e explica tudo que foi feito, tintim por tintim.

Também tem muita coisa extra, muita coisa discursiva, de discursos do Bolsonaro, de implantação de ideário dentro do âmbito dos apoiadores dele, que a gente acha que apareceu ao longo de muitos anos. Por exemplo, “a crítica”, entre várias aspas, pois, na verdade, eram ataques, eram tentativas de deslegitimar instituições. O que o Bolsonaro fazia em relação às urnas já vinha de antes: a gente já tem áudios dele desde 2018, criticando urnas. Então parece que ele já vinha se preparando para que isso acontecesse quando, eventualmente, perdesse. Se ele perdesse em 2018, ele já fazia isso desde antes da campanha de 2018.

Então isso tudo, boa parte desse discurso, está lá no áudio do QR code. As contiguidades entre o discurso da galera do 8 de janeiro e o do Bolsonaro também estão lá. É muito parecido, é como se fosse a mesma pessoa que estava lá. Quem estava lá no 8 de janeiro eram bolsonaristas, isso está muito nítido na nossa avaliação. E milhões de outras coisas… Tem áudios de tudo quanto é lugar. Vale muito a pena ler o livro ouvindo o áudio do QR code, é uma experiência bem bacana. Gostei muito disso.

Respondendo à segunda parte dessa pergunta ainda: a gente acha que pode contribuir, sim, porque tem muita gente que ainda acha que não era a intenção dar um golpe, que eram velhinhas com bíblias na mão. Então, quando a pessoa para e olha realmente tudo que foi feito, o Copa 22, o Punhal Verde Amarelo, todo o discurso do Bolsonaro ao longo do tempo, toda essa conceitualização, talvez a pessoa se toque: realmente havia uma intencionalidade golpista. E não só havia uma intencionalidade, um discurso, uma bravata. Era muito mais do que isso, as coisas foram colocadas em prática. Então foi por um triz mesmo, por uma pequena lacuna pela qual, se houvesse mais vontade, mais energia por parte deles, teria acontecido, né?

Um dos comandantes de força colocou as tropas à disposição. Se, por exemplo, os manifestantes, os vândalos golpistas do 8 de janeiro, tivessem mais meios, ou mais violência, ou mais armas, talvez alguma coisa mais séria tivesse acontecido. Tem pequenos detalhes: se, no dia em que eles queriam assassinar o Alexandre de Moraes e o Lula, dependendo do plano — que tem objetivos diferentes —, eles tivessem conseguido, as coisas poderiam ter caminhado para outro lado. No começo de dezembro, se aquele atentado ao aeroporto tivesse dado certo, poderia ter desencadeado alguma coisa.

Foram sempre pequenas coisas que deixaram de acontecer. Acho que talvez até por covardia de alguns deles, que foram criticados publicamente por conta disso dentro do âmbito da extrema direita, foram chamados de covardes porque não deram o golpe, foram omissos. Quando eles falam “o general tal foi omisso”, foi omisso do quê? A não ação que ele fez, a não ação era o golpe, era dar um golpe. Ou seja, quando você mostra isso tudo, é capaz de a pessoa falar: realmente, é, tem muito elemento aqui, não é só uma coisinha ou outra, não era só bravata.

No Rio Grande do Sul, um estado marcado por fortes contrastes políticos e uma base conservadora significativa, a paródia e a crítica artística muitas vezes enfrentam reações judiciais e morais. Como vocês avaliam o papel do humor e da “estética do absurdo”, presente tanto no podcast quanto nas colagens do livro, para furar bolhas informacionais em regiões onde a narrativa golpista ainda possui eco?

Cristiano — A gente gostaria muito de achar que fura a bolha, mas não me parece que seja em níveis relevantes. Acho que a gente fala, infelizmente, para dentro da bolha, com algumas perfurações. Volta e meia chega um relato de alguém falando: “Eu votava no Partido Novo, mas aí comecei a escutar vocês”. Ou outro dia a gente estava em um aniversário, eu e o Pedro, e veio um cara falar: “Pô, eu era superbolsonarista, e aí comecei a ouvir vocês”. E outras pessoas, né? Não estou tomando a autoria da revolução que o cara fez, pelo que ele passou, achando que foi só a gente. Mas algumas pessoas mudam.

Acho o seguinte: a gente tem uma coisa que acho muito bacana, que não foi desenhada para ser assim, mas acabou sendo assim, que é ter um posicionamento bastante progressista e à esquerda. E a gente consegue chegar a certos lugares a que outros veículos explicitamente de esquerda não conseguem. Por exemplo, o pessoal da GloboNews gosta da gente. O Pedro Dória já falou assim: aqui escutamos “Medo e Delírio”. Não sei o que a gente faz, porque temos um discurso, às vezes, bastante radicalizado. E é bom que a gente consiga, como um veículo de esquerda e progressista, entrar nesses ambientes.

Então acho que isso colabora para furar uma certa bolha, pelo menos ali no centro, para a centro-direita, talvez. Mas na extrema direita, obviamente, dificilmente a gente vai entrar, com raríssimas exceções. Até porque, aí vale fazer essa reflexão, está havendo um processo de cristalização ideológica, né? Acho que esse conceito é do Felipe Nunes, da Quaest. E as pessoas meio que já pensam assim, de certa forma, e é muito difícil começar a mudar. Acho que você vê coisas episódicas, mas mudança em massa eu não vejo acontecendo no curto prazo. Não vejo. Pode ser, e tomara que aconteça para o lado de cá, né?

Teve um episódio do Greg News, há muito tempo, em que ele falava do passinho, de fazer assim: talvez você não vá radicalizar, não vá conseguir que uma pessoa tenha uma mudança muito radical na vida dela, na forma de pensar dela, mas pode ser que ela dê um passinho na sua direção. E pelo menos, em vez de a pessoa falar “ah, eu quero um golpe de Estado”, você fala assim: “É, realmente eu só não gosto do governo de esquerda”. Ok, é melhor do que ficar onde ela estava.

Gabriela, você é a primeira mulher na história do Estadão a trabalhar como fotógrafa política na Capital e já sofreu ataques de doxxing e ameaças de morte pelo trabalho. Em um cenário de “guerra de imagens” e desinformação, como o livro “Juízo Final” se posiciona para garantir que a versão dos fatos sobre o 8 de janeiro não seja sequestrada por revisionismos históricos no futuro?

Gabriela — Eu fui a primeira a trabalhar no Estadão. A Folha já tinha tido outras mulheres em Brasília trabalhando com política. O livro trabalha muito com fatos, ele coloca documentos, ele é mais do que uma versão, ele trabalha com provas. A ideia é fazer realmente um livro de memórias, uma bíblia, não só com uma interpretação de narrativas, mas com fatos de que realmente houve uma tentativa de golpe no país.

E, no geral, como está a expectativa para o evento?

Cristiano — A gente está bem animado com o lançamento do livro, esperando bons públicos. Já tivemos bons públicos no Rio, em São Paulo, foi uma galera bem forte. Em Brasília, tivemos um lançamento muito massa também. Em BH, foi um lançamento maravilhoso, dentro de um projeto da Heloisa Starling, da UFMG, com mediação dela. Então fiquei bastante intimidado, mas foi superlegal. Estamos esperando a mesma coisa de Porto Alegre também. Acho que vai ser legal esse ambiente do 512, com a festa depois. Então acho que vai ser legal esse contato com a galera lá, o lançamento e, logo depois, a festa.

Depois a gente vai fazer Florianópolis, já estamos bem adiantados para Curitiba e queremos levar o lançamento do livro, não a festa, mas o lançamento do livro. Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba vão ter festa, mas, no Nordeste, a gente achou que ia ficar muito em cima do outro, muita coisa. E, com o clima de eleição, muita viagem já deixa todo mundo morto. Então a gente achou melhor fazer só o lançamento do livro no Nordeste. É isso. E depois dar uma descansada durante as eleições, porque vai ser tranquilo, né?

Isso tudo porque o “Medo e Delírio” já é um absurdo de cansativo, né? A gente ainda inventa de fazer livro, festa e etc. Por este ano, acho que a gente chegou. Talvez tenha um repeteco da festa de BH, só festa daí. E talvez tenha alguma coisa em Fortaleza, não sabemos ainda, não tem nada certo. Talvez. Ano passado fiz a mesma coisa, falei assim: “Ah, não, este tem que ser um ano mais tranquilo, vamos relaxar”. A gente fez uma porrada de coisa. Está no meio do ano ainda.

E aí talvez tenha uma outra festa em São Paulo em setembro, sei lá, alguma coisa assim, mas vamos ver. É isso, as expectativas são essas para o “Medo e Delírio”. Agora, para o Brasil, a minha frase-síntese é a seguinte: depois que eu cravei que o Alckmin seria o novo presidente do Brasil em 2019, eu não falo mais nada, calo a boca e espero os acontecimentos acontecerem.

Serviço

Lançamento do Livro “Juízo Final” e Festa Medo & Delírio

A programação no Espaço 512 (Rua João Alfredo, 512 – Cidade Baixa) inicia às 17h com o lançamento do livro e sessão de autógrafos, atividade com entrada franca.

A partir das 20h, o clima esquenta com a festa oficial, que exige ingressos antecipados.

A noite contará com a Mixtape Medo e Delírio, transformando a estética sonora do programa em uma experiência de pista de dança, acompanhada pelas atrações fixas do núcleo artístico: o DJ Matias Pinto (Xadrez Verbal) com sua discotecagem de latinidades e a performance de Carlos Bolívia com a Cumbia Artificial.

A edição porto-alegrense terá ainda o jazz latino da Latin Jambu e o set de Bruna Machado fechando a noite.

Ingressos: Venda antecipada pelo site oficial do Espaço 512

Realização: Santa de Casa Produtora

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter