busca por dignidade

Movimento da Velharada Rebelde lança manifesto com sugestões para encarar o ‘mundo dos velhos’

Manifesto dispensa eufemismos traduzidos em falsos sinônimos adocicados para a velhice

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Movimento da Velharada Rebelde tem novas ações programadas para o mês de julho
Movimento da Velharada Rebelde no Parque da Redenção, em Porto Alegre | Crédito: Luis Abreu

O Movimento da Velharada Rebelde tem novas ações programadas para o mês de julho. Já realizou duas. Uma na sede da Agência Livre para a Informação, Cidadania e Educação (Casa Alice) e a outra no Parque da Redenção. Agora, está distribuindo o Manifesto Mutante da Velharada Rebelde. É um claro testemunho de propostas e sugestões para se encarar o mundo dos velhos. Nada de encarar a idade com desencanto, temor, vergonha e depressões. A proposta é enfrentar a vida com realismo, mas sem esquecer a utopia.

A Casa Alice e o Movimento Mulheres Inquietas estão na luta por esse desafio de valorizar este momento importante da vida. A Casa Alice é um espaço multiuso. Ali funcionam um centro cultural, um espaço de convivência e a sede de projetos que defendem o direito à comunicação, à arte e à cidadania na capital gaúcha. Também é sede do jornal Boca de Rua – veículo trimestral feito por gente que busca oportunidades na vida. Fica na Rua Olavo Bilac, 188. Tem 27 anos.

As Mulheres Inquietas são Alice Diesel, Ana Lúcia Pompermayer e Heloisa Palaoro. Elas tricotam histórias e adereços, refletindo e criando a partir dos temas do envelhecimento e do fim da vida. Tudo começou com um encontro em 2019. De uma mesa colorida de estudos e reflexões, nasceu a Tricotagem das Mulheres e a participação em feiras de artesanato. Logo em seguida, vieram os Saraus das Inquietas e o “Enquanto o Tempo Passa”.

Conforme estas duas organizações, existem hoje 292 mil pessoas com mais de 60 anos em Porto Alegre. Isso representa aproximadamente 21% de toda a população da capital gaúcha, tornando-a a capital brasileira com a maior proporção de idosos em relação aos seus habitantes O Rio Grande do Sul possui cerca de 2,19 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Esse contingente representa 20,15% da população total do Estado, que detém a maior proporção de idosos do Brasil.

No Brasil, pessoas com 60 anos somam mais de 32 milhões de cidadãos. Essa parcela da população tem acesso garantido a direitos fundamentais pelo Estatuto da Pessoa Idosa, além de benefícios específicos voltados à saúde, transporte e tributação. Mas nem tudo está bem e às mil maravilhas. Na pandemia, por exemplo, as pessoas com 60 anos ou mais representaram cerca de 76% a 80% do total de mortes por Covid-19 durante o pico da doença, o que equivale a aproximadamente 500 mil a 550 mil óbitos de idosos no país. O Brasil registrou cerca de 716 mil mortes totais pelo vírus.

Confira abaixo o manifesto em sua integralidade:

Manifesto Mutante da Velharada Rebelde

Somos velhas. Somos velhos. Estas palavras não nos assustam. Podem nos chamar assim, sem agressividade ou formas pejorativas. Somos as velhas e os velhos do século 21, integrantes de uma geração que sonhou em mudar o mundo e que revolucionou os costumes. Fomos jovens rebeldes e não abrimos mão de nossa rebeldia. Porque, acreditem ou não, a velhice é um privilégio. Só quem morre cedo deixa de viver esta fase da vida que, como todas as outras, tem as suas vantagens e desvantagens.

Propomos enfrentar a vida com realismo, porém sem esquecer a utopia. Ela será a estrela-guia inatingível, mas apontando a direção segura a ser seguida. Nossa luta é por direitos e por respeito. Queremos transmitir nosso legado, porque cada um e cada uma atravessou momentos históricos importantes, transformando-se em guardiães da memória. E uma sociedade sem memória é uma sociedade doente. Ignorar nosso legado é como queimar livros. Por isso, merecemos um lugar neste mapa de diversidade que é o nosso mundo.

Estamos na contramão dos valores que priorizam a beleza, a juventude, a competitividade e o sucesso, desprezando quem foge deste padrão. Assim, pretendemos promover a redução de danos do silencio e da solidão, duas das principais causas do sofrimento humano, incluindo a desesperança e a depressão. Não aceitamos que nos infantilizem, nos subestimem, nos tirem o direito de decidir sobre nossas vidas e os riscos que podemos correr, pois a vida toda é um risco.

Dispensamos eufemismos traduzidos em falsos sinônimos adocicados para a velhice. Mas entendemos, respeitamos e acolhemos quem ainda se sente desconfortável com estas palavras -velha, velho – tão carregadas de preconceito e pronunciadas quase como uma acusação. Entretanto, repudiamos termos criados por um sistema que nos transforma em novos e meros consumidores.

O Mover é uma insurreição contra o papel de seres inúteis, de fardos, de descartáveis. Merecemos e conquistaremos uma velhice digna com nossa união, nossa palavra e nossa alegria. Porque juntas, a união, a palavra e a alegria são transgressoras, transformadoras e revolucionárias. Para isso, propomos:

Dignidade é fundamental na velhice

•Trabalhar juntas/os para desconstruir o etarismo por meio do Movimento da Velharada Rebelde (Mover), que não por acaso tem esta palavra como sigla.
•Por meio da formação de uma rede articulada com outros movimentos de propostas similares e reuniões aberta periódicas, promover formação ética e política focadas nas questões de saúde física e mental, acessibilidade, justiça econômica, moradia digna, redes de apoio/cuidados públicas, cultura e educação para esta faixa etária entre outros aspectos capazes de garantir uma vida digna, ativa e saudável e respeitada.
•Manter uma luta constante, persistente e coletiva – às diversas instâncias- por política públicas destinadas a esta faixa etária.
•Fazer valer e se incorporar a movimentos para aprimorar o Estatuto do Idoso
•Lutar por programas governamentais de apoio a sistemas de moradias coletiva e acessível a pessoas velhas, possibilitando maior autonomia.
•Formar comunidades pactuais afetivas, inspiradas no espírito comunitário das aldeias, onde existe o princípio básico de uns cuidarem dos outros. As/os integrantes destas comunidades podem ou não viver sob o mesmo teto, formando um círculo comprometido com cada participante, nos bons e nos maus momentos.
•Incorporar-se à luta pela democratização/regularização da comunicação, reivindicando maior acesso às novas tecnologias no sentido de simplificar processos em serviços de primeira necessidade e, assim, promover a inclusão de pessoas velhas, resgatando a necessidade de espaços e atendimentos presenciais e atendimento humano quando necessário.
•Seguir sonhando, ter causas e projetos e continuar participando ativamente da vida em sociedade frequentando espaços culturais, de lazer e de defesa da cidadania
•Manter-se atualizados sobre o que acontece ao nosso redor e no mundo, incluindo política, economia, cultura e outros aspectos da vida em comunidade.
•Nunca calar ao ser discriminada/o ou escarnecida/o. Denunciar e buscar assessoria jurídica quando necessário, assim como reivindicar serviços de atendimento legal para questões relacionadas ao etarismo, como também funcionamento adequado das delegacias de idosos.
•Promover a convivência saudável com familiares, amigas/os e pessoas de todas idades com a mente aberta, mas conscientes das experiência, saberes e conquistas
•Cuidar da saúde exercitando corpo/mente e, para isso, reivindicar espaços com livre acesso para esta faixa etária com opções variadas, sejam relacionadas a capacidade física ou intelectual.
•Exigir o respeito ao nosso corpo e à nossa sexualidade, combatendo estereótipos estéticos, comportamentais e de gênero.
•Ter acesso ao mundo do trabalho – se esta for a preferência ou necessidade da pessoa- sem discriminação de idade e combater as injustiças, a ilegalidade e o desrespeito aos trabalhadores velhos descartados e explorados no mercado.
•Lutar por aposentadorias e pensões dignas, incluindo reajustes do Salário Mínimo

Cuidados e finitude

•Informa-se sobre as políticas públicas/programas capazes de beneficiar e garantir os direitos legais das pessoas velhas ou portadores de doenças físicas e ou mentais,
•Encarar com realismo a finitude, preservando e respeitando o direito de escolha de cada uma e de cada um.
•Aceitar ajuda das pessoas próximas quando necessário, mas sem permitir que ninguém se sinta no direito de dizer o que é melhor para nós.
•Além de sempre trazer entre os pertences informações essenciais – como ser doadora/or de órgãos ou mesmo de corpos – informar os familiares, cuidadores e pessoas próximas sobre propósitos e desejos pessoais.
•Ter como opção o registro de um Testamento Vital ou Procuração para Cuidados de Saúde – devidamente registrados em cartório – não apenas dos bens materiais como do que queremos para nós em caso de não podermos manifestar nossa vontade.
•Desapegar-se e buscar para destinação do nosso legado material ainda em vida.
•Tirar o peso dos ombros. Se algo que foi feito precisa ser reparado e ainda houver tempo para isso, fazer o mais breve possível.
•Manter canais de conexão com os jovens para conscientizá-los e fazer combinações necessárias para nós e para eles, incluindo como devem proceder após a nossa morte com relação a destinação do corpo, o desmonte da casa e a partilha dos bens mais valiosos tanto material quanto sentimentalmente
•No caso de velhos quem assume o cuidado dos pais e/ou de uma pessoa ainda mais velha – principalmente se estas já tiverem comprometimento cognitivo – tentar colocar-se em seu lugar e respeitar a sua personalidade/preferências dentro do possível, sem infantilizá-la ou inverter os papéis. É importante que o cuidador também cuide da própria saúde física/mental, valendo-se de ajuda profissional e/ou redes de apoio, quando economicamente viável.
•Entender a institucionalização como um recurso extremo, embora reconhecendo que, no atual sistema de vida, as famílias têm poucas possibilidades e recursos para manter em casa uma pessoa velha com necessidades especiais. Nesse sentido incorporar-se à luta por locais (asilos, casas de repouso, clínicas, residenciais) qualificados e com mensalidades acessíveis, mediante políticas públicas governamentais que também ampliem o programa de cuidado domiciliar à pessoa idosa.

Mundo além de nós

•Manter uma posição antifascista e contra todas as formas de dominação humana.
•Combater discriminações e preconceitos como racismo, sexismo, legtfobia e capacitismo, entre outros.
•Alinhar-se a causas que defendem formas de vida justa e climáticas e sabedoras de que muitas sementes tardam a germinar.
•Articular formas de transmitir o legado imaterial – saberes, habilidades, conhecimentos, experiências, registros históricos e culturais – para as próximas gerações. Nesse sentido, é importante criar estratégias para ouvir e ser ouvida/o, sem julgamentos prévios, e aprendendo mutuamente.
•Viver até o último dia da vida com a maior qualidade possível, sem abdicar da rebeldia.

Editado por: Vivian Virissimo

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