FORMAÇÃO POLÍTICA

Curso de Realidade Brasileira encerra 3ª turma e consolida processos de organização popular no DF

Participantes afirmaram que o conhecimento construído ao longo das aulas será levado adiante em diferentes comunidades

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Conclusão do ciclo reuniu educandos, educadores e representantes de movimentos populares em um momento de celebração e compromisso com a continuidade da formação.
Conclusão do ciclo reuniu educandos, educadores e representantes de movimentos populares em um momento de celebração e compromisso com a continuidade da formação. | Crédito: CRB

Neste sábado (27), militantes de diferentes movimentos populares do Distrito Federal encerraram a terceira turma do Curso de Realidade e Cultura Brasileira (CRB). Reunidos no Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Distrito Federal (Sindsep-DF), educandos, educadores e lideranças celebraram a conclusão de uma formação construída ao longo de dois meses que contou com debates sobre capitalismo, luta de classes, racismo, patriarcado, organização popular e projeto de país. 

Criado no início dos anos 2000, o CRB é uma iniciativa nacional de formação política organizada por movimentos do campo popular. No Distrito Federal, as atividades retomaram em outubro de 2025, por meio de uma articulação dos movimentos sociais com o apoio do Distrito Drag, dentro das ações do projeto Distrito Criativo. As três turmas, realizadas entre outubro e novembro de 2025, entre janeiro e março de 2026 e entre maio e junho de 2026, simbolizam a retomada das formações após as dificuldades enfrentadas durante a pandemia.  

O CRB reuniu ao longo desse processo militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Levante Popular da Juventude, Movimento Brasil Popular (MBP), Movimento dos Trabalhadores por Direitos (MTD), sindicatos, coletivos e estudantes. 

Educação popular

Militante do Levante Popular da Juventude e integrante da coordenação política pedagógica do curso do curso, Cintia Isla destacou que as três turmas marcam a retomada do Curso de Realidade Brasileira (CRB) no Distrito Federal e reforçam o compromisso dos movimentos populares com a formação política. A expectativa é consolidar a realização de pelo menos uma turma por ano e ampliar o alcance da iniciativa.

“Aqui no DF, a última vez que a gente conseguiu construir uma turma completa tinha sido em 2017. Conseguir retomar essa formação é muito importante porque a ideia é construir coletivamente uma análise sobre o que é a realidade brasileira para, a partir disso, conseguir construir as nossas lutas, formar o nosso povo e qualificar a nossa incidência”, afirmou.

“Nós não faremos nenhuma transformação nesta sociedade se não nos organizarmos, se não soubermos onde queremos chegar. Mas tem uma coisa que é imprescindível: o estudo. O estudo é um instrumento importante. Em outras palavras, a educação popular, como já dizia Paulo Freire, é um instrumento importante. E a educação popular é uma educação política”, afirmou Ruth Venceremos, diretora do Distrito Drag.

A dirigente estadual do MST no Distrito Federal e Entorno, Edineide Rocha, também ressaltou que o CRB representa um espaço fundamental para ampliar a consciência política da militância, especialmente entre trabalhadores invisibilizados pelo Estado.

“Apesar de ser um processo formativo construído a partir da realidade dos movimentos sociais, é mais um espaço de elevação do nível de consciência, principalmente para os sem-terra, que é um público já invisibilizado pelo Estado diante de tantas necessidades, principalmente em relação à formação, tanto acadêmica quanto política”, observou.

Primeira edição da retomada, realizada entre outubro e novembro de 2025. Crédito: CRB

Retomada

Ao longo das três turmas, o CRB formou cerca de 150 pessoas. “Em uma sociedade que cada vez mais reforça o individualismo, a meritocracia, ter um curso como o CRB que provoca a reflexão crítica de que projeto de sociedade queremos e que ao mesmo tempo reforça a necessidade das pessoas atuarem em coletivo, em organizações populares, é extremamente importante para alterar esse contexto político e social e construir outras alternativas”, apontou a editora-chefe do Brasil de Fato DF, Flávia Quirino.

A importância do estudo também foi destacada por Hercília Porto, dirigente do MST DFE, que chamou atenção para o papel da formação política diante da avalanche de informações produzidas pelas redes sociais e pelos grandes meios de comunicação.

Segundo ela, a classe trabalhadora precisa disputar o conhecimento para compreender os próprios direitos e enfrentar a lógica da exploração. “Para nós, que somos proletariado, a única alternativa nesta vida é estudar. É difícil? É. Sentar na cadeira e estudar não é fácil. Mas quando os movimentos sociais se juntam para trazer o que é a realidade brasileira, é nesse sentido de despertar o que queremos para o nosso mundo e para o nosso país”, afirmou.

Porto também criticou a forma como as redes sociais substituem o acesso ao conhecimento. “Não é Instagram, não é TikTok que vai ensinar quais são os nossos direitos. É essa rede de movimentos sociais se juntando e dizendo: bora escutar, bora ocupar os lugares que a gente tem que ocupar”, defendeu.

Juventude e territórios

Se para os organizadores o curso representa uma estratégia de fortalecimento dos movimentos populares, para quem participou das aulas a formação também significou uma mudança na forma de enxergar o Distrito Federal e o próprio país.

Estudante de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Maria Otília Barbosa contou que ingressou no CRB buscando compreender melhor a realidade brasiliense, mas encontrou uma leitura muito mais ampla sobre as desigualdades.

“Quando eu me inscrevi para o CRB foi muito na perspectiva de entender o que era Brasília. E não só Brasília, mas o que é o nosso país de fato. Quando eu passei a participar, entendi que, na verdade, a periferia está passando por dificuldades, estamos vindo para o Plano Piloto para trabalhar e conseguir o sustento com um salário que não dá para viver com o mínimo”, criticou.

Natural de Palmas (TO), ela destacou que a formação mostrou como o estudo e a organização coletiva são fundamentais para enfrentar a desinformação e fortalecer a luta social.

“A juventude é potente, é latente, e juntos a gente vai conseguir chegar em muitos lugares. O capitalismo mostra muito o individual, mas somos comunidade. É estudando, entendendo a nossa história e aprendendo com autores como Lélia Gonzalez, Angela Davis, Abdias Nascimento e Nego Bispo que vamos construir outro caminho”, afirmou, citando alguns dos autores que foram debatidos durante as aulas do curso.

Militante do movimento LGBT+, Bernardo Messias avalia que a formação política é uma resposta ao avanço da desinformação e ao enfraquecimento das relações coletivas. Para ele, iniciativas como o CRB ajudam a reconstruir vínculos comunitários e fortalecem a capacidade das pessoas de compreender e transformar a realidade dos próprios territórios.

“Ter cursos como esse, que fomentam pessoas em diversos territórios e nas suas pluralidades para levar esse conhecimento adiante, quebra essa corrente que está sendo gerada pelas desinformações e movimentações políticas”, afirmou.

Participantes da segunda edição, promovida entre janeiro e março de 2026. Crédito: CRB

Fortalecer a luta popular

Além dos educandos, quem acompanhou o processo de formação também destacou que o curso só faz sentido quando o conhecimento produzido retorna para as comunidades. Monitora do CRB e militante do Levante Popular da Juventude, Driele Dias afirmou que a conclusão da formação representa apenas o início de uma nova caminhada.

“É um ponto de partida. O curso foi construído coletivamente e traz respostas para as nossas indignações, mas também traz vontade de transformar o mundo com tudo o que a gente aprendeu. Porque tudo o que a gente sabe, se a gente não compartilhar, não vale nada”, destacou.

Para a educanda Sueli Nunes Magalhães, a principal lição deixada pelo curso foi a necessidade de fortalecer a atuação entre os movimentos sociais. “A gente sente muita falta de formação na base. Sozinha realmente não dá. Se não tiver movimentos, um grupo, é quase impossível fazer esse trabalho. O CRB mostrou que teoria, prática e atuação precisam caminhar juntas”, pontuou.

Durante a cerimônia de encerramento da turma, o deputado distrital Max Maciel (Psol-DF) provocou os formandos a transformarem o conhecimento adquirido em organização popular nos territórios. Ao lembrar as desigualdades vividas no DF, o parlamentar destacou que a capital do país continua convivendo com índices elevados de insegurança alimentar, violência contra as mulheres e falta de acesso a políticas públicas.

“Imaginem um território onde, enquanto o Brasil reduziu a insegurança alimentar, ele foi o que mais aumentou. Um lugar que continua registrando números altíssimos de violência contra as mulheres, de mães que não conseguem deixar seus filhos nas creches. Esse lugar é a capital do país. Qual é a tarefa de vocês quando voltarem para os seus territórios? Multiplicar esse curso”, afirmou.

Maciel também defendeu que a transformação social começa nas pequenas ações cotidianas. “Às vezes a gente acha que vai fazer a revolução só tomando o poder central. Ela começa pela nossa rua, pela nossa quadra, pelo nosso bairro. A transformação se faz com participação popular, na rua e no dia a dia. Hoje estou vendo aqui futuras lideranças que vão sacudir o Distrito Federal, do campo à cidade”, pontuou.

Samba da Guariba fez parte da programação de encerramento da terceira turma do Curso de Cultura e Realidade Brasileira (CRB). Crédito: CRB

A militante do Movimento Brasil Popular Angela Amaral também convocou os formandos a transformarem a leitura crítica da realidade em ação política concreta. “Não adianta fazer uma leitura tão profunda da realidade se a gente não se comprometer com ela. A luta não espera e precisamos fortalecer as organizações populares”, destacou.

Representando o Movimento dos Trabalhadores por Direitos (MTD), Júlia Machado destacou que a formação política ajuda a compreender as raízes das desigualdades vividas pela população trabalhadora.

“O que a gente quer é exatamente quebrar esse ciclo. É por isso que a gente está aqui aos sábados aprendendo a virar as chaves. O CRB ajuda a gente a entender por que existe racismo, patriarcado, misoginia e esse capitalismo perverso que deixa todo mundo exausto. A formação ajuda a desorganizar esse sistema”, afirmou.

Ela também ressaltou que o conhecimento precisa ser acessível e dialogar com a realidade das pessoas. “A gente precisa fazer com que as pessoas entendam o que a gente faz. Os autores que estudamos durante o curso precisam chegar aos territórios. O nosso povo entende essas questões porque vive tudo isso na pele”, disse.


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Editado por: Clivia Mesquita

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