Este 30 de junho marca o centenário de nascimento da pernambucana Alexina Crespo, uma das maiores personagens históricas da luta pela reforma agrária no país. A revolucionária integrou as batalhas das Ligas Camponesas em Pernambuco desde os anos 1950, com uma atuação que foi da articulação políticas à desapropriação de terras, recepção e atendimento às demandas de camponeses vindos do interior para o Recife, relações internacionais com países do bloco socialista e treinamento de guerrilha para a resistência contra as violentas repressões dos latifundiários.
Uma vida dedicada à luta política, ao lado do marido, o advogado e político Francisco Julião, mas que também precisou encontrar tempo para os trabalhos designados pela estrutura social patriarcal, como os cuidados com a casa e com os quatro filhos. Em meio a tantos trabalhos, Alexina também se permitiu debruçar sobre a arte e a poesia. Todas essas facetas podem ser melhor conhecidas a partir desta quarta-feira (30), na exposição “Vermelho Brasil: 100 anos de Alexina Crespo”, aberta às 20 horas, no campus da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) em Casa Forte, junto ao Museu do Homem do Nordeste.
Também nesta terça-feira (30), no local, às 19h30, acontece o lançamento do livro “Os Poemas de Apolo e outros escritos”, com poesias e prosas inéditas escritas por Alexina entre 1980 e 2010. A obra é publicada pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), conta com apresentação assinada por Cida Pedrosa e orelha por Marcelo Mário de Melo.
A exposição reúne fotografias, documentos e cartas e jornais que passam por sua infância, luta política e o exílio em países como Cuba, onde esteve durante o golpe de 1964, sendo aconselhada pelo próprio Fidel Castro a permanecer no país; posteriormente no Chile, para onde foi após a eleição do socialista Salvador Allende; e Suécia, onde finalizou seu exílio após a instalação da ditadura chilena de Augusto Pinochet. O projeto conta com curadoria de Camila Maria Santos, Elaine Santana do Ó e Raul Calle de Paula — este último, também organizador do livro de poemas e bisneto de Alexina e Julião.

Raul desenvolve um trabalho de anos em prol da memória de sua família e acredita que, ao conseguir sobreviver às violências e às diversas perseguições às quais esteve sujeita, Alexina deixou um “monumental acervo” que permite a descoberta não apenas de sua biografia, mas de diversos processos políticos do país no século passado.
“Alexina experimentou o século 20 de maneira muito contundente e com muito protagonismo. Foi amiga de Fidel, recebida por Mao, fez um périplo por países socialistas, organizou as comunicações internacionais das Ligas, além de uma militância anterior menos conhecida, sendo uma das fundadoras de movimentos femininos em Pernambuco, ao lado de nomes como Naíde Teodosío, Adalgisa Cavalcante, Júlia Santiago e Ida Marinho do Rêgo. O que temos exposto é a história do século 20 pelos olhos de uma pernambucana”, afirma Raul, em conversa com Brasil de Fato.
Apesar de os escritos de Alexina remontarem à década de 1940, a compilação de textos do livro se inicia a partir de 1980, com seu retorno do exílio. A obra é reveladora de todas as vicissitudes políticas que cercaram a revolucionária e sua família. Raul aponta que a exposição possui grande valia ao revelar o lado mais íntimo e cotidiano da bisavó, trazendo o caráter humano de uma guerreira.
“São pequenas coisas, como as roupas que ela vestia, fotografias de família e registros de seu convívio dentro de casa, que revelam uma personalidade rica, que não se curvou diante das piores atrocidades. Acho que temos uma janela para o espírito de Alexina, para além de uma guerrilheira, em que podemos conhecê-la como uma vizinha recifense, uma pessoa menos plana e mais próxima. É também, pessoalmente falando, uma alegria muito grande, como se tivesse matando a saudade”, conclui Raul.
A programação de lançamento se inicia às 18h30, no Cinema da Fundação, com a exibição dos filmes “Brazil: the troubled land” (1964), de Helen Jean Rogers, e “Alexina: Memórias de um Exílio” (2012), de Stella Maris Saldanha e Claúdio Bezerra. Às 19h30, no hall do cinema, é lançado o livro. Já às 20 horas, na Galeria Massangana, a exposição será aberta, permanecendo em cartaz até o dia 29 de julho.
