Decidi ir às ruas e observar de perto a situação que se desenrola nas paróquias de El Junquito, na capital Caracas, e El Junko, no município de Vargas, em La Guaira, cidades afetadas pelos terremotos de junho de 2026 na Venezuela.
Este relato reúne as vozes daqueles que estão na linha de frente do cuidado e da proteção ao povo de El Junquito, abordando a situação de emergência na região por meio de depoimentos diretos, fotografias e a sistematização de declarações que coletei de diversas pessoas, representando a ação do governo nacional, dos membros da sociedade civil, de porta-vozes de conselhos comunais e das vítimas do terremoto.

Testemunhei o trabalho que está sendo feito na cidade. É importante esclarecer que El Junquito tem sua própria dinâmica e seus próprios desafios. A cidade precisa de ajuda, mas a situação não se compara à tragédia anterior de Vargas, quando ao menos 10 mil pessoas morreram em decorrência de fortes deslizamentos em 1999.
Este é um convite para que a ajuda continue, mas de forma responsável, e para que você seja crítico em relação às informações compartilhadas online.
O Estado estima que El Junquito tenha uma população de 63 mil habitantes, dos quais 20 mil residem ou trabalham na área central das duas paróquias, especificamente entre os quilômetros quatro e sete da estrada principal.
A zona mais afetada é o bairro Las Tapias. Os que conhecem a região se lembram da rua onde são vendidas cachapas e carne de porco frita? Pois bem, toda essa rua está agora intransitável. Ela ficava sobre uma ravina que, ao longo dos anos, se tornou cada vez mais instável devido à criação e ao cuidado de porcos, cujos donos demonstravam pouca preocupação com o solo.

Pelo menos 40 comércios diretamente afetados por essa importante região econômica da cidade fecharam as portas. Não estamos procurando culpados. São as diferentes variáveis que explicam por que um fenômeno como dois terremotos afeta algumas áreas mais do que outras.
Até o momento, foram registradas quatro mortes na paróquia de El Junko e outras quatro na de El Junquito. Já são 35 gravemente feridas e transferidas para os hospitais El Algodonal e Pérez Carreño, designados porque os dois Centros de Diagnóstico Integral (CDIs) e o hospital local estão equipados apenas para atender feridos leves e moderados nesta situação. Para os casos graves, as autoridades estão providenciando o transporte para os centros médicos indicados.

Além disso, há aproximadamente 180 pessoas afetadas, a escola Ibero-americana foi completamente destruída, uma rua está intransitável e um bairro foi evacuado.
Quando os esforços de resgate foram realizados na área mais afetada — primeiro por moradores locais e policiais nacionais, e posteriormente pelo trabalho especializado da Defesa Civil — não foram encontradas evidências de pessoas sob os escombros pedindo socorro. A comunidade foi questionada sobre a presença de todos, um rápido censo foi realizado e confirmou-se a presença das pessoas que trabalhavam naquela rua naquele dia.
Será que é irresponsabilidade por parte das autoridades não continuar as buscas sob os escombros? Não. Aquela rua está tão instável que realizar trabalhos profundos com máquinas pesadas só criaria mais instabilidade no solo. Isso colocaria em risco a vida daqueles que trabalham nas buscas, sem saber ao certo se há alguém vivo ou morto.

Portanto, as autoridades decidiram vasculhar a área no dia 26 de junho para que a remoção dos escombros pudesse começar com segurança no dia 27. Repito: a área está tão instável que é impossível adicionar mais peso com martelos hidráulicos.
Consequentemente, as vítimas são, em sua maioria, moradores da área conhecida como La Toma, cujas casas estão localizadas abaixo da rua comercial. Essa área sempre foi considerada de alto risco devido à instabilidade do solo, causada pela erosão proveniente do tratamento de efluentes das granjas de suínos e da ravina que transporta esgoto sem canalização.
A tarefa das autoridades e da comunidade, logo no dia 26 de junho, era convencer os moradores de La Toma de que suas casas não eram mais seguras, especialmente considerando o perigo de remover os escombros com suas casas localizadas diretamente abaixo da rua principal. A maioria estava relutante em sair devido à falta de garantias de receber uma nova casa em breve. Finalmente, às seis da tarde, a última moradora de La Toma partiu: uma senhora idosa que viu sua casa deixar de ser seu lar.

Relatos dos acontecimentos, contados por diversas pessoas envolvidas, explicam que, em 24 de junho, quando o terremoto devastador atingiu a cidade, os bombeiros responderam rapidamente, pois, essencialmente, tudo ocorreu na zona econômica central. No centro de El Junquito, tudo permaneceu intacto. Os donos de restaurantes evacuaram rapidamente todos os funcionários e clientes. A comunidade se reuniu nas ruas para verificar uns aos outros e se recuperar do choque.
Ao ouvirem gritos de socorro vindos dos escombros da padaria e de outros estabelecimentos afetados, a polícia e o Corpo de Bombeiros chegaram rapidamente à rua comercial. Moradores correram para ajudar e, juntos, começaram a resgatar os sobreviventes e a recuperar os mortos.

Embora o terremoto tenha ocorrido às 18h (19h no horário de Brasília), a Defesa Civil chegou à cidade à 1h da manhã para prestar apoio logístico especializado e concluir o resgate dos feridos. A cidade ficou isolada, sem comunicação e eletricidade, por pelo menos 24 horas, até que os serviços de telecomunicações e energia fossem restabelecidos.

Caminhões de remoção de entulhos chegaram no dia 25 e o trabalho de canalização e limpeza da área, realizado por engenheiros e operários da empresa Juntos Todo el Año, está em andamento. Enquanto isso, a Defesa Civil inspeciona as casas da região para avaliar sua habitabilidade. No quilômetro 25, eles ajudaram a evacuar duas famílias cujas casas desabaram após o terremoto.
Doações
Nos dias 25 e 26, doações começaram a chegar de diferentes partes do país para os centros de coleta. Como explicado, no dia 26, a Polícia Nacional Bolivariana (PNB), engenheiros, a Defesa Civil, representantes dos conselhos comunais, moradores e trabalhadores realizaram a tarefa de evacuar a população de La Toma. Os CDIs e o pequeno hospital estão em pleno funcionamento para receber os feridos dos canteiros de obras e das áreas afetadas.
Não existe um centro de operações único e centralizado onde as autoridades se reúnem para coordenar os próximos passos. Tudo tem sido resolvido entre os pontos de coleta na sede da polícia, no quartel dos bombeiros e até mesmo na principal rua comercial. No entanto, a logística para manter a ordem tem sido organizada pelos próprios moradores: todos se conhecem, e é por isso que a organização é mais direta. Há apoio logístico privado e direcionamento de recursos pela prefeitura; para o restante, cada morador se organizou com sua comunidade e seu ponto de coleta, seja dentro ou fora de organizações comunitárias.

Os venezuelanos que desejam ajudar podem ir a um ponto de coleta organizado na área afetada. Ao todo, a cidade possui nove pontos cadastrados até o momento: um localizado nas instalações da Misión Negra Hipólita (no início do quilômetro sete), na União de Transportes Catia – El Junquito; no escritório da Defesa Civil; no quartel dos bombeiros; no Centro de Diagnóstico Integral Codazzi (CDI); na sede da Dos Iglesias; na sede da Universidad Nacional Experimental de la Seguridad (Unes); e no pequeno hospital.
Se alguém quiser ajudar ainda mais e desejar contribuir com logística médica, esforços de limpeza ou participar dos pontos de coleta, é importante perguntar onde é possível estacionar o carro em um local seguro, já que ele pode ser um obstáculo neste momento. O melhor é encontrar um local longe do quilômetro sete da estrada principal, onde é possível estacionar e caminhar.
Desafios e Necessidades
Os moradores de El Junquito enfrentam atualmente dois desafios a médio e longo prazo. Primeiro, a realocação das famílias desalojadas de La Toma. Até o momento, vários moradores do bairro se mudaram para casas de parentes que residem na região. As autoridades têm trabalhado para finalizar e preparar espaços na sede da Unes e avaliado alternativas no Montblanc e no Gran Hotel como abrigos temporários.
No entanto, até o momento da publicação, ainda não havia confirmação de que esses espaços estivessem totalmente preparados ou disponíveis para esse fim. Muitas dessas famílias não têm garantia de receber moradia digna a médio ou longo prazo, especialmente considerando a situação atual. Há um profundo sentimento de medo e desesperança nesse sentido.

Por outro lado, o maior desafio para os trabalhadores de El Junquito é a revitalização da principal rua comercial. Essa via contava com 40 estabelecimentos comerciais formais, cada um empregando pelo menos 20 trabalhadores, sem contar os vendedores ambulantes que montavam suas barracas nas calçadas cobertas.
No dia 26, a cidade recebeu a visita de diversas autoridades do Estado-Maior, incluindo a prefeita Carmen Meléndez, e uma delegação da Superintendência de Instituições do Setor Bancário (Sudeban) chegou naquela mesma noite. Apesar desses esforços, o futuro dos trabalhadores permanece incerto, e muitos terão que buscar outros empregos.

Para fazer este relato, entrevistei o diretor do CDI Codazzi, o Dr. Carlos Requena; a líder comunitária, Sra. Lilian Vera; o vereador do município de Libertador, Igor Luengo; o presidente do Sindicato dos Motoristas Catia-Junquito, José Castro; e a coordenadora do Parque Macarao, Mara Dugarte.
Também aceitaram conversar comigo o Coronel Bolívar, membro do Corpo de Bombeiros de El Junquito, e a líder comunitária e coordenadora da Casa do Poder Popular, Sra. Oropeza. Conversei com um funcionário do Órgão de Direção e Defesa Integral (ODDI), que preferiu não ser identificado, com policiais, trabalhadores, moradores, vítimas, militares, médicos da Universidade Central da Venezuela, doadores, motociclistas, membros da oposição, chavistas, cristãos, ateus e venezuelanos que querem ajudar o povo de El Junquito.
