O estudo “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã” mostra que, em 2025, mais de 4.300 pessoas foram mortas em decorrência de ação policial em nove estados monitorados, sendo que 86% das vítimas eram negras.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Pablo Nunes, coordenador da Rede de Observatórios da Segurança, avalia que a forma de combater o crime é contaminada pelo racismo. “Nos estados em que a gente atua pelo Observatório, a proporção de negros entre as vítimas de letalidade policial é muito maior do que a proporção de negros na população”, destaca. “É o racismo que permite que essa pele seja pele-alvo, como diz o relatório e como diz a música do Emicida.”
Segundo o pesquisador, as políticas de segurança pública e o combate à criminalidade não têm surtido efeitos e, pelo contrário, têm feito vítimas, especialmente entre a população negra e periférica. Ao mesmo tempo, esse modelo de violência estatal vem sendo repetido sem grandes reflexões e propostas de mudanças. “Nacionalmente, a gente simplesmente tem enfadonhamente repetido as mesmas estratégias que são baseadas em operações policiais, vitimização de pessoas que estão, muitas vezes, integradas às quadrilhas de tráfico de drogas, mas também pessoas inocentes, como a gente acaba tendo contato na cobertura midiática”, destaca.
Nunes também fala sobre a narrativa do medo que acaba sustentando essas escolhas políticas. “Uma parcela da população vem sendo mantida em um contexto de medo, de insegurança, com as suas rotinas totalmente dilaceradas por esse medo que vem, obviamente, desses grupos do tráfico, que mantêm, sob um domínio muito violento, parcelas gigantescas da população. E também tem o medo por parte daqueles agentes que deveriam garantir a segurança da população, mas que, infelizmente, têm falhado e, apesar de continuarem falhando, têm repetido as estratégias e, muitas vezes, também dobrado essa escolha na operação policial com violência, com uso de blindados e sem atenção aos territórios, sem a atenção a esses efeitos que se produzem nos territórios na escolha desse combate violento à criminalidade”, aponta.
Pablo Nunes também problematiza a falta de informações quando se fala em monitoramento de letalidade policial e dá o exemplo do Ceará, onde, até pouco tempo, 70% das vítimas de ações policiais não traziam em seus boletins de ocorrência ou registros a informação racial. Os dados são fundamentais para embasar a criação de políticas públicas. “O Brasil se dá muito a esse trabalho de não falar sobre os nossos problemas e escamoteá-los. A questão é que os problemas não vão desaparecer a partir do momento em que a gente afasta ele do quadro”, reflete.
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