Entre avanços no reconhecimento institucional e a permanência do racismo religioso, os povos de terreiro seguem transformando a luta por liberdade de culto em uma defesa mais ampla da memória, da cultura e dos direitos da população negra. É nesse contexto que a psicóloga, escritora e liderança religiosa Ìyá Sandrali Bueno analisa o momento vivido pelas comunidades tradicionais de matriz africana no Rio Grande do Sul.
Autoridade civilizatória da tradição de matriz africana e afrodiaspórica do Batuque do Rio Grande do Sul, da nação Cabinda, Ìyá Sandrali é coordenadora estadual do Movimento Negro Unificado (MNU), conselheira dos Conselhos Estadual e Municipal do Povo de Terreiro e vice-presidenta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.
Para ela, “cada terreiro reconfigura a África em um novo território”, ao preservar saberes ancestrais, fortalecer vínculos comunitários e reconstruir, na diáspora, referências culturais e espirituais africanas. Nesta entrevista ao Brasil de Fato RS, ela também alerta que conquistas como maior presença no espaço público e reconhecimento institucional precisam ser acompanhadas de políticas permanentes. “Reconhecimento simbólico sem proteção material ainda é um reconhecimento incompleto”, afirma.
Abaixo, a entrevista completa:
Brasil de Fato RS: O Rio Grande do Sul é o estado com maior número de pessoas autodeclaradas de religiões de matriz africana e reúne mais de 65 mil terreiros. Em uma fala anterior, a senhora afirmou que “cada terreiro reconfigura a África em um novo território”. Como essa ideia se expressa hoje em cidades como Pelotas, que vêm registrando maior visibilidade dessas religiões no espaço público?
Ìyá Sandrali: Quando afirmo que cada terreiro reconfigura a África em um novo território, estou falando de um processo de reconstrução da vida. As populações africanas foram arrancadas de seus territórios, separadas de famílias, línguas e formas tradicionais de organização. Mas não chegaram ao Brasil vazias de conhecimento. Trouxeram tecnologias espirituais, modos de compreender a natureza, formas comunitárias de cuidado, memórias, valores civilizatórios e saberes transmitidos de geração em geração.
O terreiro reorganiza esses elementos em um novo território. Não é uma reprodução estática ou idealizada do continente africano. É uma construção afrodiaspórica, produzida no encontro entre memória, resistência, ancestralidade e realidade brasileira. Em cada casa, a África é atualizada por meio dos toques, das rezas, da culinária, das folhas, da oralidade, do cuidado com as pessoas e da relação sagrada com a natureza.
Em Pelotas, isso tem um significado ainda mais profundo, porque estamos falando de uma cidade marcada pela riqueza produzida pelo trabalho escravizado e, ao mesmo tempo, pela tentativa histórica de apagar a presença negra. Quando os terreiros aparecem publicamente, realizam celebrações, ocupam as ruas e reivindicam reconhecimento, mostram que a população negra não participou apenas como força de trabalho da construção da cidade. Ela construiu também espiritualidade, cultura, laços comunitários e formas próprias de existir.
A visibilidade atual demonstra que os terreiros não estão à margem da história de Pelotas. Eles são parte constitutiva dessa história. São territórios religiosos, mas também espaços de formação, proteção social, acolhimento, alimentação, cura, educação comunitária, preservação ambiental e transmissão de saberes. Tornar essa presença visível significa devolver à cidade uma parte da memória que foi sistematicamente silenciada.

Pelotas tem protagonizado iniciativas como o assentamento de Bará no Mercado Público e a realização de procissões e celebrações abertas à comunidade. Como a senhora avalia esse processo de ocupação do espaço público e de reconhecimento institucional das religiões de matriz africana?
Avalio esse processo como uma conquista histórica. A presença de Bará no Mercado Público tem um simbolismo muito forte, porque Bará é movimento, comunicação, circulação, abertura de caminhos e dinamismo. O mercado também é espaço de circulação, trabalho, troca e encontro. Há, portanto, uma relação espiritual e simbólica muito profunda entre Bará e esse território.
Quando essa presença é demarcada no Mercado Público, produz-se um deslocamento importante. Aquilo que, durante muito tempo, foi tratado como superstição, segredo ou manifestação que deveria permanecer escondida passa a ser reconhecido como patrimônio cultural, memória coletiva e expressão legítima de religiosidade.
As procissões, caminhadas e celebrações públicas também cumprem esse papel. Elas afirmam que a rua não pertence exclusivamente às tradições religiosas socialmente dominantes. O espaço público, em um Estado democrático e laico, deve acolher todas as manifestações religiosas, desde que os direitos fundamentais sejam respeitados. Os povos de terreiro têm o mesmo direito de tocar os tambores, usar as vestimentas, realizar as celebrações e manifestar publicamente a fé.
Mas o reconhecimento institucional precisa ser construído com cuidado. Não queremos apenas que nossas tradições sejam transformadas em espetáculo turístico, folclore ou atração cultural. Queremos que sacerdotes, sacerdotisas e comunidades sejam sujeitos das decisões sobre a representação das próprias tradições.
Reconhecer Bará no espaço público deve significar também proteger os terreiros, combater o racismo religioso, formar agentes públicos, garantir políticas culturais e assegurar a participação efetiva dos povos de matriz africana na formulação das políticas municipais.

Esses avanços representam uma mudança efetiva na forma como a sociedade e o poder público enxergam os povos de terreiro ou ainda existem limites importantes para essa aceitação?
Esses avanços representam uma mudança, mas ainda não podemos dizer que se trata de uma transformação completa. Existe maior visibilidade, maior reconhecimento cultural e uma abertura institucional que precisa ser valorizada. A adesão de municípios às políticas voltadas aos povos e comunidades tradicionais de terreiro, a criação de marcos públicos e a inclusão das nossas celebrações nos calendários oficiais demonstram que décadas de organização política estão produzindo resultados.
No entanto, há uma diferença muito grande entre tolerar uma manifestação cultural e reconhecer plenamente um povo como sujeito de direitos. Muitas vezes, o poder público aceita a presença dos terreiros em uma festa ou evento, mas não escuta as comunidades quando uma casa religiosa sofre ameaça, quando uma liderança é agredida, quando há problemas de regularização territorial ou quando os povos de terreiro reivindicam recursos públicos.
A verdadeira mudança acontecerá quando os povos de terreiro deixarem de ser procurados apenas em datas comemorativas e passarem a participar permanentemente das decisões sobre saúde, educação, cultura, patrimônio, segurança pública, assistência social, planejamento urbano e meio ambiente.
Também persistem resistências sociais. Algumas pessoas aceitam os símbolos das religiões africanas como elementos culturais, mas rejeitam os praticantes como sujeitos religiosos. Admiram a culinária, a música e a estética africana, mas continuam demonizando os orixás, as entidades, os rituais e as lideranças religiosas.
Portanto, os avanços são importantes, mas não são irreversíveis. Eles precisam ser transformados em políticas de Estado, com orçamento, continuidade, fiscalização e participação social. Reconhecimento simbólico sem proteção material ainda é um reconhecimento incompleto.

Apesar da maior visibilidade, o racismo religioso segue sendo uma realidade no Brasil. Quais são hoje as formas mais recorrentes de discriminação enfrentadas pelos povos de terreiro em Pelotas e na região Sul do estado?
As formas de racismo religioso são diversas e nem sempre aparecem como agressões físicas explícitas. Uma das manifestações mais recorrentes é a demonização das nossas divindades, dos nossos rituais e dos nossos símbolos. Crianças e adolescentes de terreiro continuam sendo constrangidos nas escolas, especialmente quando utilizam fios de conta, roupas brancas, turbantes ou quando precisam cumprir algum preceito religioso.
Também existem conflitos de vizinhança em que qualquer som produzido pelo terreiro é tratado como perturbação, enquanto manifestações sonoras de outras tradições religiosas são naturalizadas. Há denúncias seletivas, ameaças, insultos, tentativas de impedir celebrações e pressões para que as casas abandonem determinados territórios.
Outro problema é a violência institucional. Muitas lideranças ainda encontram dificuldade para registrar ocorrências de racismo religioso. Em alguns casos, os fatos são reduzidos a simples desentendimentos entre vizinhos ou classificados genericamente como intolerância, sem que a dimensão racial seja reconhecida. Também há despreparo de agentes da segurança pública, da saúde, da educação e de outros serviços para lidar com as especificidades das comunidades tradicionais de terreiro.
Na região Sul, existe uma particularidade importante: o mito de que essa seria uma região essencialmente branca. Essa narrativa procura apagar a presença histórica da população negra e faz com que as expressões religiosas africanas sejam tratadas como se fossem estrangeiras ou deslocadas, embora estejam profundamente enraizadas na formação social do Rio Grande do Sul.
Devemos chamar essas violências pelo nome correto: racismo religioso. Não estamos diante apenas de divergências entre crenças. Estamos diante de um sistema que inferioriza tudo aquilo que está relacionado à África, à população negra e às formas negras de produzir conhecimento e espiritualidade.
Quando um terreiro é atacado, frequentemente é uma mulher negra que precisa lidar com a polícia, com a imprensa, com os vizinhos e com as consequências emocionais e financeiras da agressão.
Diante desse cenário, quais estratégias de resistência, organização e afirmação cultural e religiosa têm sido construídas pelas comunidades de terreiro?
A primeira estratégia de resistência é a própria continuidade dos terreiros. Cada vez que uma liderança transmite um fundamento, que uma criança aprende a saudar os mais velhos, que uma comunidade prepara um alimento sagrado ou que um tambor volta a tocar, existe uma vitória contra séculos de perseguição.
Além dessa resistência cotidiana, as comunidades têm fortalecido redes entre terreiros, associações, fóruns, conselhos e organizações do movimento negro. Essa articulação é fundamental para que uma casa atacada não enfrente a violência sozinha. Quando um terreiro é atingido, toda a comunidade precisa responder coletivamente.
Também temos investido na formação jurídica e política das lideranças. É importante conhecer os instrumentos legais, registrar corretamente as ocorrências, preservar provas, procurar as instituições responsáveis e exigir que o racismo religioso seja investigado como violação de direitos humanos.
Outra estratégia é a ocupação dos espaços públicos. Caminhadas, procissões, seminários, feiras, audiências públicas e celebrações abertas ajudam a romper o silêncio e mostram à sociedade que nossas comunidades são vivas, organizadas e produtoras de conhecimento.
A educação também é central. Precisamos dialogar com escolas, universidades, profissionais da saúde, integrantes da segurança pública e gestores. A implementação efetiva do ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira é indispensável para desconstruir preconceitos desde a infância.
É igualmente necessário lutar por políticas materiais: proteção territorial, editais específicos, segurança alimentar, preservação ambiental, acesso à saúde e reconhecimento dos conhecimentos tradicionais. Os terreiros não precisam apenas de homenagens. Precisam de condições concretas para continuar existindo.
Uma das nossas maiores estratégias é contar a nossa própria história. Durante muito tempo, fomos descritos por pessoas externas às comunidades. Hoje, as lideranças e os integrantes dos terreiros estão escrevendo, produzindo pesquisas, ocupando universidades, realizando filmes, criando arquivos e comunicando suas experiências em primeira pessoa.
As mulheres ocupam um papel fundamental nas religiões de matriz africana, muitas vezes como lideranças espirituais, educadoras e guardiãs de saberes ancestrais. Como a senhora avalia a participação das mulheres nos terreiros e quais desafios específicos elas ainda enfrentam?
As mulheres são fundamentais para a existência e a continuidade das religiões de matriz africana. Muitas das nossas casas foram fundadas, sustentadas e protegidas por mulheres negras. São elas que preservam fundamentos, cuidam das pessoas, transmitem saberes, organizam as atividades religiosas e garantem a continuidade material e espiritual das comunidades.
O terreiro foi, historicamente, um dos espaços em que mulheres negras puderam exercer autoridade em uma sociedade que lhes negava reconhecimento. A liderança religiosa de uma mulher negra rompe com a lógica colonial que tenta colocá-la sempre em posições de subordinação. Uma ialorixá, uma mãe de santo, uma iyá ou uma dirigente de terreiro não é apenas uma liderança religiosa. É uma autoridade política, comunitária, ética e intelectual.
Entretanto, essa autoridade não elimina as desigualdades. As mulheres de terreiro enfrentam racismo, sexismo, intolerância religiosa e, muitas vezes, dificuldades econômicas. Muitas acumulam o trabalho religioso, o trabalho doméstico, o cuidado com familiares e o trabalho remunerado. Sustentam comunidades inteiras sem receber o reconhecimento ou o apoio material correspondente.
Elas também estão mais expostas à violência. Quando um terreiro é atacado, frequentemente é uma mulher negra que precisa lidar com a polícia, com a imprensa, com os vizinhos e com as consequências emocionais e financeiras da agressão. Lideranças femininas podem sofrer ameaças, difamações e tentativas de deslegitimação que utilizam, ao mesmo tempo, o racismo, o machismo e o preconceito religioso.
Valorizar as mulheres de terreiro significa respeitar a autoridade dessas lideranças, proteger vidas, reconhecer conhecimentos como produção intelectual e garantir participação nos espaços institucionais. Não basta convidá-las para realizar uma bênção na abertura de um evento. É necessário ouvi-las na construção das políticas, remunerar o trabalho, assegurar condições para a manutenção das comunidades e reconhecer que esses saberes são essenciais para a democracia, para a memória negra e para a preservação da vida.
