Milhares de pessoas ocuparam as ruas de Salvador nesta quinta-feira (02) para celebrar os 203 anos da Independência da Bahia. A data marca a derrota e a expulsão das tropas portuguesas do Brasil, consolidadas em 2 de julho de 1823, e resgata a memória dos símbolos, da bravura e da participação popular nessa luta. Atualmente, instrumentos musicais, bandeiras, cartazes e faixas mostram que o dia, além de celebrar a vitória histórica, tornou-se um momento marcante de reivindicação por direitos.
Quem participou pôde apreciar fanfarras escolares, grupos culturais, batucadas de movimentos populares e famílias inteiras prestigiando o desfile. Esse foi o cenário ao longo do trajeto que sai do bairro da Lapinha em direção à Praça Dois de Julho (mais conhecida como praça do Campo Grande), passando antes pelo Barbalho, Santo Antônio além do Carmo e pelo Pelourinho. Na linha de frente do cortejo, as figuras do caboclo e da cabocla simbolizam a união popular que conquistou a independência.
A chama do fogo simbólico saiu na terça-feira (30) do Recôncavo Baiano, partindo de Cachoeira e de Mata de São João. O fogo passou por Saubara, Santo Amaro, São Francisco do Conde, Candeias e Simões Filho até chegar ao bairro de Pirajá, em Salvador. A chama representa a união dos povos que travaram a luta pela libertação.
Paulo Roberto Campos faz parte da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos há 15 anos. Ele explicou que a instituição representa, desde o seu nascimento, a resistência do povo negro ao longo de seus mais de 300 anos de história. “Essa igreja foi feita pelo povo negro, pois a gente não podia entrar na Igreja do Carmo. Aqui, os próprios pretos a construíram com recursos próprios. Hoje, estamos aqui reverenciando o Dois de Julho, entregando flores para o Caboclo e a Cabocla”, comentou.
Luane Santos, moradora de Paripe e coordenadora de eventos do Instituto Melanina, atua na intersecção entre arte, cultura e educação. “A participação do Instituto Melanina parte do olhar da cultura, do movimento e da transformação social que a gente promove através do hip-hop. Vir aqui fortalece as ações do instituto e as nossas atividades culturais”, ressaltou.
Vanessa Regina Santos, que participa assiduamente do desfile, enxerga a presença na festa como um posicionamento político. “É importante lembrar o que nossos antepassados fizeram para que pudéssemos desfrutar hoje de um processo de independência — principalmente aqui na Bahia, em Salvador e nas cidades do Recôncavo. Devemos relembrar e manter viva a memória de que a participação popular foi crucial para essa conquista”, pontuou.
Independência do Brasil na Bahia
A relevância do Dois de Julho extrapola o cenário estadual. Embora o marco da Independência do Brasil seja o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, a emancipação só se concretizou quase um ano depois, na Bahia, onde o exército português foi de fato derrotado e expulso do território nacional.
De acordo com Verona Reis, o desfile evidencia o protagonismo baiano na emancipação nacional. “Acredito que um ponto interessante é que boa parte do público tem consciência da nossa autonomia e de como a Bahia foi protagonista no processo de independência do Brasil. É sempre um lugar de reafirmação e celebração”, destacou.
A militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Ana Célia de Jesus, da regional Recôncavo, faz questão de comparecer todos os anos. “É uma data muito importante para a nossa Bahia. Temos que nos fazer presentes, ainda mais sendo do MST e da luta pela reforma agrária”, observou.
A tradição também move gerações. Ingrid Costa, sempre está presente nas festas do centro histórico como parte da rotina de sua família. “Todo ano eu venho e gosto muito de prestigiar essas festas do Centro Histórico. Trago minha filha sempre comigo, seja no Bonfim, Sete de Setembro ou Dois de Julho; ela já vai interagindo. Para mim, é uma alegria participar com a minha família e celebrar a independência da Bahia e do Brasil”, afirmou.
Pela primeira vez, Elicássia de Almeida Santos fez o percurso inteiro da Lapinha até a Praça Municipal. Colada ao carro que levava a Cabocla, ela seguia emocionada. “Não sou candomblecista, mas acredito muito nessa energia feminina que a Cabocla nos traz. Nossa cultura é incrível, vasta e nasce de uma trajetória de batalhas. Misturar tudo isso em festa e fé me traz muita alegria”, concluiu.
Esse protagonismo popular ganha rostos e nomes na memória coletiva dos baianos, que reverenciam heróis e heroínas que desafiaram as forças coloniais. A bravura de Maria Quitéria, que se vestiu de soldado para lutar no front, o espírito estratégico de Maria Felipa, liderando marisqueiras e pescadores na queima de embarcações portuguesas em Itaparica, e a resistência de Joana Angélica, mártir no Convento da Lapa, somam-se ao astuto toque de reviravolta do Corneteiro Lopes e à força anônima de milhares de indígenas, negros e sertanejos que transformaram a mobilização comunitária na verdadeira força motriz da nossa emancipação.
A volta da Cabocla
Como toda grande celebração baiana, as comemorações da independência não se encerram no dia Dois de Julho. Dois dias, excepcionalmente devido o jogo do Brasil na copa, após o desfile principal, o ciclo festivo se fecha com a tradicional “Volta da Cabocla”, o cortejo de retorno que faz o caminho inverso, levando os emblemáticos carros do Caboclo e da Cabocla do Campo Grande de volta ao Pavilhão da Lapinha, no dia 04 de julho às 18 horas. Se a ida é marcada pela presença de autoridades e palanques políticos, a volta é conhecida por ser um momento genuinamente dos populares. É quando o Centro Histórico é tomado por uma atmosfera mais intimista e profundamente cultural, onde devotos, turistas e moradores dançam ao som de charangas e da Orquestra do Maestro Reginaldo de Xangô, despedindo-se dos símbolos da nossa soberania até o próximo ano.
