Um episódio de racismo religioso, ocorrido durante as comemorações dos 15 anos do Programa de Proteção aos Defensores e Defensoras de Direitos Humanos de Minas Gerais, provocou indignação entre movimentos e comunidades tradicionais de matriz africana no estado.
O caso aconteceu no dia 30 de junho, em Belo Horizonte, e teve como vítima Beatriz Borges Bastos, conhecida religiosamente como Makota Kandamean, integrante de comunidade tradicional de matriz africana e trabalhadora do próprio programa estadual. Diante do ocorrido, coletivos de matriz africana lançaram, nesta quinta-feira (2), uma nota de repúdio denunciando o caso.
Segundo relato da vítima, ela participava da atividade institucional utilizando vestimentas ligadas a um preceito religioso, incluindo roupas brancas, turbante e outros elementos tradicionais de sua fé. O episódio ocorreu ao final do evento, durante o coffee break, após uma apresentação cultural de maracatu.
De acordo com Kandamean, uma mulher identificada com crachá da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais (Sedese) se aproximou inicialmente perguntando se ela fazia parte do grupo de maracatu que havia se apresentado no evento. Após a resposta negativa, a servidora teria perguntado se ela era baiana e, diante da confirmação, respondido: “Ah, logo se vê, né?”.
Na sequência, segundo a denúncia, a mulher afirmou que “Deus havia tocado seu coração” para “profetizar” para Beatriz. Ainda conforme o relato, a servidora passou a citar versículos bíblicos e a afirmar que a vítima deveria retirar suas vestes religiosas para “melhorar”, “ser uma pessoa melhor”, “se curar” e ter prosperidade na vida.
“Você há de melhorar, tirar essas roupas, tudo isso, tire tudo isso de você que você vai melhorar, que você vai ser uma pessoa melhor, vai se curar, você vai ver como sua vida vai prosperar”, disse a mulher, segundo a vítima.
Beatriz Borges Bastos afirma que tentou sinalizar que professava outra religião, mas que as investidas continuaram. Em seguida, a servidora teria pedido autorização para abraçá-la e “purificá-la” ou “limpá-la”. O abraço foi recusado e outra participante do evento retirou a vítima da situação.
“Eu fiquei em inércia mesmo, por estar sofrendo aquilo por uma secretária da Sedese”, relatou.
Após o ocorrido, a vítima registrou boletim de ocorrência e formalizou denúncias junto à Ouvidoria e à Corregedoria do Estado de Minas Gerais. Movimentos sociais e organizações ligadas aos povos de terreiro também passaram a acompanhar o caso e cobrar providências.
Coletivos religiosos reagem
Em nota pública divulgada na quinta-feira (2), o Coletivo Povos e Comunidades de Tradição Religiosa Ancestral de Matriz Africana (PCTRAMA) classificou o episódio como racismo religioso e destacou a gravidade da violência ter ocorrido justamente em um espaço dedicado à proteção e promoção dos direitos humanos.
“As vestes, símbolos e práticas religiosas dos povos de terreiro não são adornos. São expressões vivas de ancestralidade, identidade, pertencimento e resistência”, afirma o documento.
A nota ressalta ainda que o racismo religioso “não pode ser naturalizado, relativizado ou tratado como mera divergência de opinião”, destacando que ataques a símbolos das religiões de matriz africana representam violações de direitos humanos e atingem séculos de memória e resistência dos povos tradicionais.
As entidades signatárias também manifestaram solidariedade à vítima e exigiram a apuração rigorosa dos fatos, a adoção das medidas administrativas cabíveis, o acolhimento adequado da vítima e a responsabilização dos envolvidos.
“O racismo religioso é violência. O racismo religioso é violação de direitos humanos. O racismo religioso é crime”, conclui a manifestação.
Assinam a nota o Centro Cultural e Religioso Bakise Bantu Kasanje, Centro de Umbanda Nanã e Yemanjá, Centro Cultural Terreiro de Candomblé Manzo Ndanji Kyanda, Nzo Nguzu Kukia, Tenda de Preto Velho Luz de Aruanda, Tenda Cigana Guerreiros de Ogum, Associação dos Povos Tradicionais de Religião de Matrizes Afro Brasileira e Africana de Betim/MG (ASCAFEB).
Outro lado
O Brasil de Fato MG procurou a Sedese para pedir posicionamento acerca das denúncias presentes nesta matéria e aguarda respostas.
