O Estado brasileiro, por meio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), realizou nesta quinta-feira (2) um ato público de pedido de desculpas pelas violações cometidas contra o estudante e militante Paulo de Tarso Celestino da Silva. A cerimônia aconteceu no auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), local onde Paulo se formou, marcou o reconhecimento da responsabilidade do estado pelo seu desaparecimento em 1971.
Paulo de Tarso foi uma das principais lideranças estudantis da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília e militante da Ação Libertadora Nacional (ALN). Ele foi preso e levado para a “Casa da Morte”, em Petrópolis, onde foi torturado e morto pela repressão militar. Durante o evento, autoridades e companheiros de luta destacaram a importância do reconhecimento das violações cometidas durante a ditadura e da preservação da memória.
A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, destacou que a redemocratização não eliminou os traumas e as estruturas autoritárias do país. Para ela, o reconhecimento das atrocidades cometidas é um passo indispensável para a reconciliação nacional.
“Todos sabemos que o fim da ditadura militar não significou o fim dos seus efeitos. As marcas da violência de estado, as ausências jamais reparadas e as estruturas que permitiram graves violações de direitos humanos, infelizmente, não desapareceram com a redemocratização. Esses traumas atravessaram gerações e ainda desafiam o Brasil”, analisou a ministra.
O pedido de desculpas foi estendido à família de Paulo, à comunidade acadêmica e à sociedade brasileira, reconhecendo que centros clandestinos como a Casa da Morte foram a expressão extrema da barbárie do estado. Janine ressaltou que a ausência de respostas sobre o destino de Paulo ainda impede que sua família exerça o direito ao luto.
“O Estado brasileiro pede desculpas pela violência que lhe foi imposta, pelo sofrimento causado por seu desaparecimento, pela longa espera por verdade e justiça e pelas profundas marcas deixadas por uma atuação estatal incompatível com a dignidade humana e com os princípios do Estado Democrático de Direito”, afirmou ao dirigir o pedido de desculpas a João Paulo Tavares Celestino, representante da família de Paulo de Tarso, e a Jarbas Marques, companheiro de militância do ex-líder estudantil.

Resistência
A reitora da UnB, Rozana Reigota, enfatizou o papel da instituição na preservação da memória daqueles que tiveram suas trajetórias interrompidas. Segundo ela, a história de Paulo de Tarso está entranhada nos corredores da universidade e não pode ser tratada como um evento alheio à vida acadêmica.
“Essa história não é externa à Universidade de Brasília. Ela aconteceu aqui, atravessou nossos espaços, interrompeu trajetórias, marcou a vida institucional da UnB. Também aqui, estudantes, docentes, técnicos e técnicas enfrentaram a violência autoritária e defenderam a liberdade de pensamento”, pontuou a reitora.
Reigota destacou que lembrar o legado de Paulo de Tarso, Ieda Maria Delgado e Honestino Guimarães é reafirmar a vocação da universidade pública em defesa da justiça. Para ela, a UnB “tem lado” quando os direitos humanos são violados.
“É dizer que a universidade pública brasileira tem lado quando a democracia está em risco, tem lado quando os direitos humanos são violados, tem lado quando a liberdade de pensamento é atacada. O lado da UnB é o lado da vida democrática”, defendeu.
O chefe da Assessoria Especial de Defesa da Democracia, Memória e Verdade do MDHC, Hamilton Pereira, conhecido como o poeta Pedro Tierra, trouxe um relato sobre sua convivência com Paulo na clandestinidade em 1971. Ele descreveu a fragilidade da vida dos guerrilheiros urbanos e a dureza da repressão que isolava os combatentes da sociedade.
“Paulo de Tarso Celestino de certa forma sintetiza a trajetória de uma geração que não se curvou ao arbítrio. Aquilo que dentro da sociedade brasileira se estranha é que a gente use da poesia para tratar de temas tão duros como é a vida clandestina e a resistência à brutalidade da repressão”, observou.
Durante o ato, o poeta leu o poema Um velho combatente, escrito em 1974 enquanto ele mesmo estava preso, como uma homenagem à resiliência daqueles que sofreram a tortura sem se render. “Nenhum carrasco lhe conheceu a entonação do grito. Hoje curamos-lhe as feridas. Guarda no corpo antigas cicatrizes. Esse homem não se rendeu. Manteve mesmo depois da morte aquele brilho impreciso que antecede amanhã”, declamou.

Companheiro
O depoimento de Jarbas Marques, colega de militância de Paulo desde o movimento secundarista em Goiás, ofereceu uma visão humana e profissional do homenageado. Ele relembrou que, mesmo antes de ser perseguido, Paulo já atuava na defesa de seus companheiros de universidade presos pela ditadura.
“Em 1967 tinham mais ou menos uns 15 alunos da UnB presos em Juiz de Fora e Paulo já tinha entrado na OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e ele foi advogado dos presos da UnB na auditoria de Guerra de Juiz de Fora. Era uma grande figura humana de uma sólida formação cultural e jurídica”, relatou.
Marques, que foi o único aluno da UnB de sua época a não concluir o curso por ter ficado preso por dez anos, ressaltou a rapidez com que Paulo se destacou na vida acadêmica. Ele lembrou que o reconhecimento da morte de Paulo na Casa da Morte só foi possível graças à denúncia de Inês Etienne Romeu, única sobrevivente do local.
“A trajetória de Paulo Celestino era de uma sólida formação jurídica. Basta ver que seis meses depois dele ser bacharelado na UnB, ele já tinha as credenciais para advogar. O que eu posso pedir para esse companheiro de luta e de militância é uma grande salva de palmas”, concluiu.
A ministra Janine Melo reforçou que preservar a memória é uma responsabilidade compartilhada para construir um país mais justo. “Que a trajetória de Paulo de Tarso continue inspirando as novas gerações a defenderem a democracia, a dignidade humana e a justiça social. Porque preservar a memória não é apenas olhar para o passado, é assumir a responsabilidade de construir um futuro em que violações como essas jamais se repitam”, finalizou.
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