O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) oficializou nesta sexta-feira (3), em Rio Bonito do Iguaçu (PR), três novos assentamentos da reforma agrária na região centro-sul do estado. A cerimônia ocorreu na comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio e contou com a presença da ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, do presidente do Incra, César Aldrighi, além de parlamentares e representantes de movimentos populares.

Com 33 mil hectares e cerca de 2 mil famílias assentadas, a formalização representa a maior conquista de áreas para a reforma agrária já registrada no Paraná. O território consolida a região como o maior complexo da reforma agrária da América Latina. Foram oficializados os assentamentos Herdeiros da Terra de 1º de Maio, Dom Tomás Balduíno e Palestina Livre, todos com mais de 10 anos de resistência e luta pela terra.
Atualmente, o complexo formado na antiga área da Giacomet Marodin (hoje Araupel) soma 5.500 famílias distribuídas em 24 comunidades, entre acampamentos e assentamentos, nos municípios de Rio Bonito do Iguaçu, Laranjeiras do Sul, Nova Laranjeiras, Porto Barreiro, Espigão Alto e Quedas do Iguaçu.

A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, celebrou a transformação do território. “É a luta dos trabalhadores rurais sobre o latifúndio. É a vitória da função social da terra, da justiça sobre a grilagem e sobre a monocultura”, declarou.

A ministra também associou a conquista ao atual governo: “É essa a luta que o governo do presidente Lula representa. A luta do povo trabalhador que quer ver o seu direito constitucional sendo concretizado. Reforma agrária tá na nossa constituição. Terra tem que cumprir sua função social e são vocês que estão garantindo que essa função seja cumprida”.


O diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri, também presente à cerimônia, defendeu a reforma agrária como condição para o desenvolvimento. “Nenhum país do mundo se desenvolveu sem a reforma agrária, nenhum. Os países desenvolvidos existem porque a terra foi distribuída”, afirmou. “Terra concentrada é sinal de miséria, é sinal de empobrecimento e de subdesenvolvimento”.
Jonas Furis, militante do MST, destacou em seu discurso a transição para uma nova etapa. “A gente superou a fase da disputa e agora a gente vai para a fase do desenvolvimento. Nós temos que desenvolver os nossos lotes, as nossas comunidades, continuar organizados, porque a peleia até aqui foi o suficiente para tomar a terra da mão do latifúndio e colocar na mão das famílias. Mas agora a gente vai para legalidade, para escrituração, para documentação, e é muito importante manter a organicidade para que isso dê certo”.
Ele também fez um reconhecimento à trajetória de luta na região. “Quero dar uma solicitação ao nosso camarada Jaime Calegari, que representa a história da luta contra Araupel. 30 anos atrás os primeiros tiveram coragem de enfrentar um latifúndio desse tamanho e abrir as porteiras para que hoje nós, mais jovens, pudéssemos estar aqui. É um privilégio enorme participar dessa história”. E concluiu: “A reforma agrária não é só terra, ela é vida digna”.
“Realização de um sonho”

Para os coordenadores e famílias que construíram essa trajetória, a cerimônia desta sexta-feira (3) teve sabor de coroação de uma espera de décadas.
Tarcísio Leopoldo, da Coordenação Nacional do MST no Paraná, destacou o significado da conquista para as famílias. “É a celebração de um sonho para as famílias que serão beneficiárias. São praticamente 11 ou 12 anos de espera, de luta, de acampamento, de enfrentar o latifúndio e a opressão do Estado”.
Segundo ele, o processo consolidou uma profunda transformação do território. “O que antes era monocultivo de pinus e eucalipto hoje é uma grande área de produção de alimentos, de construção de comunidades e de escolas. É uma transformação histórica para a reforma agrária brasileira”.

Tarcísio também destacou que o acordo estabelece um novo modelo para a efetivação da reforma agrária no país. “É um formato histórico que pode abrir caminho para outras conquistas e garante às famílias a segurança jurídica e os direitos de quem construiu esse território ao longo de tantos anos”.

Sandra Padinha Alves, que integra a coordenação da comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, está na luta desde os 17 anos. “Eu nunca imaginava que eu ia chegar onde nós estamos hoje”, contou. “Sozinhos a gente não consegue as coisa, mas junto essa família MST é muita alegria, muitas conquistas que vem e logo logo eu serei assentada definitivamente. Então, tenho muito orgulho do movimento e tô muito muito feliz mesmo”, comemorou.
Sandra lembrou que o acampamento agora avança para a condição de pré-assentamento: “É uma conquista coletiva, onde minha mãe também foi assentada”, afirma.
O acordo que viabilizou a destinação das terras foi construído ao longo de cerca de dois anos de negociações envolvendo Incra, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Ministério da Fazenda, Ministério das Relações Institucionais, Advocacia-Geral da União (AGU), Procuradoria-Geral da União, Ministério Público Federal (MPF), Tribunal Regional Federal da 4ª Região, Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) do Tribunal de Justiça do Paraná e representantes do grupo proprietário da Araupel.
Breve histórico: da grilagem à regularização de 33 mil hectares
A ocupação da região pela empresa Giacomet Marodin (atual Araupel), em 1972, foi marcada pela expulsão violenta de posseiros, com queima de casas e assassinatos, em um esquema que envolvia pistoleiros e o aparato de segurança pública. O território da madeireira somava 83 mil hectares, parte declarados grilados pela Justiça. Em 1996, a primeira grande ocupação do MST, registrada pelo fotógrafo Sebastião Salgado, deu origem aos assentamentos Ireno Alves dos Santos (1997) e Celso Furtado (2003). Em agosto de 2017, o TRF-4 confirmou a nulidade dos títulos da empresa, em ação movida pelo Incra.
Atualmente, a região concentra o maior complexo da reforma agrária da América Latina, com 5,5 mil famílias distribuídas em 24 comunidades. São mais de 20 escolas, o CEAGRO e um campus da UFFS. No Paraná, há 333 assentamentos, cerca de 80 acampamentos e mais de 28 mil famílias assentadas. O contexto dos anos 1990, especialmente entre 1994 e 2002, foi de forte repressão: a CPT registrou 16 assassinatos de sem-terra, 47 ameaças, 324 feridos, 502 presos e 134 despejos violentos, com atuação conjunta da UDR, Polícia Militar, GOE e Judiciário.
Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio
Localizado em Rio Bonito do Iguaçu e Nova Laranjeiras, é o maior acampamento do MST no estado, com 1.253 famílias (cerca de 3 mil pessoas), formado há 11 anos. A educação é atendida por duas escolas itinerantes para 590 estudantes, incluindo formação de docentes. A produção diversificada de grãos, hortaliças e raízes ocorre sem apoio público. A comunidade foi severamente afetada por um tornado em novembro de 2025, com danos a casas, lavouras e escolas. Um mutirão de reflorestamento busca plantar 1 milhão de árvores nativas.
Dom Tomás Balduíno
Em Quedas do Iguaçu, o território reúne 575 famílias desde 2015. A Escola Itinerante Vagner Lopes atende 300 estudantes. A comunidade é pioneira na recuperação da palmeira juçara, com 30 toneladas de sementes lançadas via helicóptero em parceria com a PRF, iniciativa que originou a Jornada da Natureza. Com apoio da UFFS, produz geleias e picolés artesanais de frutas nativas e implanta sistemas agroflorestais (SAFs) para ampliar os pomares.
Palestina Livre
Formada pela junção das comunidades Nova Vitória (2015) e Araucária (2016), em Quedas do Iguaçu e Espigão Alto do Iguaçu, conta com 103 famílias. A produção de agricultura e pecuária é voltada à subsistência e comercialização do excedente, com parte da produção certificada como orgânica.

