O cenário de destruição que se seguiu aos eventos de 24 de junho de 2026 na Venezuela revelou não apenas as cicatrizes profundas na terra e no concreto, mas também uma ferida purulenta na ética do jornalismo hegemônico.
É em meio aos destroços de La Guaira e Caracas que vemos surgir, com toda a sua crueza, a prática do necrojornalismo. Essa modalidade de comunicação, que se alimenta do sofrimento alheio para avançar agendas políticas, transforma jornalistas de grandes corporações em verdadeiros urubus, que sobrevoam os cadáveres e a dor das famílias venezuelanas em busca de uma carniça informativa que possa ser usada contra o governo do país e o processo revolucionário bolivariano.
Enquanto equipes de resgate lutam contra o tempo, a grande mídia prefere focar em já conhecidas narrativas que deslegitimam o Estado, ignorando o contexto histórico e as dificuldades impostas por forças externas.
A geometria da desinformação
A estratégia é clara e perversa. Existe um silenciamento deliberado sobre o cotidiano venezuelano em tempos de normalidade. Essa é uma técnica que visa criar um vazio de conhecimento, pois a ignorância é a base da desinformação.
Ao não falar sobre a vida real, a organização e a cultura do povo, os grandes meios de comunicação garantem que, quando situações como esta ocorrem, o público receba informações sem qualquer contexto, facilitando a aceitação de mentiras e distorções. Esse silêncio é uma forma de violência que impede que o mundo enxergue a realidade venezuelana, transformando o país em um espantalho ideológico conveniente para os interesses do capital internacional.
Essa prática de propaganda busca criar consensos e desumanizar o povo venezuelano, a ponto de ninguém se importar se caíram bombas ou se houve uma tragédia natural. Para entender a magnitude do que ocorreu, é preciso olhar para a ciência, algo que os urubus da notícia frequentemente ignoram em favor do sensacionalismo.
Em outros momentos, assumem o papel de fonte, analisam e elaboram sobre questões técnicas sem qualquer tipo de lastro com o conhecimento científico e ignoram as técnicas mais básicas de apuração.
Cicatrizes de uma terra em movimento
A Venezuela está situada em uma zona de alta complexidade tectônica, exatamente no limite entre as placas do Caribe e da América do Sul. Esse movimento das placas gera tensões constantes que se acumulam ao longo de falhas geológicas ativas, como as de Boconó, San Sebastián e El Pilar.
O evento recente foi tecnicamente avassalador: dois terremotos consecutivos, com magnitudes de 7,2 e 7,5 na escala Richter, atingiram o território em um intervalo menor que um minuto. Em entrevista recente ao Brasil de Fato, a pesquisadora Carolina Rivadeneyra explicou que esses sismos foram superficiais, ocorrendo a apenas 22 e 10 quilômetros de profundidade, sucessivamente, o que potencializou imensamente o impacto destrutivo na superfície.
A história da região é pontuada por essa fúria da natureza. O episódio atual remete ao fatídico terremoto de 1812, que devastou Caracas logo após a declaração de independência. Naquela época, a coroa espanhola tentou usar o desastre como prova de um castigo divino contra os patriotas, ao que Simón Bolívar respondeu com uma frase que hoje provocaria o arrepio dos ambientalistas: “Se a natureza se opõe, lutaremos contra ela e a faremos com que nos obedeça”.
Outros marcos, como os tremores de 1900, 1967 e o de Cariaco em 1997, já mostravam que a ameaça é uma constante geológica, e não uma falha administrativa. O sismo de 7,5 de agora liberou 32 vezes mais energia que o de magnitude 6,5 registrado em 1967, o que ajuda a dimensionar a escala da catástrofe que o país enfrenta.
Os dados oficiais da tragédia são estarrecedores e demandam um tratamento jornalístico sério, longe da exploração mórbida. Uma semana após o duplo terremoto, o governo confirmou mais de 2.645 mortes, além de 12.600 pessoas feridas.
Os números mostram ainda que 12.841 pessoas estão desabrigadas e 189 edifícios sofreram colapso total. É uma crise humanitária de proporções gigantescas, descrita como a maior tragédia da história do território venezuelano.
Matrizes de opinião com cheiro de morte
Apesar da clareza dos fatos, as matrizes de opinião fabricadas pelos grandes meios de comunicação insistem em culpar o governo pela destruição. Uma das mentiras mais difundidas é a de que apenas as casas da Misión Vivienda, programa social que construiu mais de 5 milhões de moradias desde 2010, teriam desabado.
Contudo, a realidade no terreno desmente essa tese. Prédios de luxo em bairros nobres como Altamira e hotéis privados também sofreram danos severos ou colapsaram totalmente. A tentativa de apontar negligência na construção das moradias populares cai por terra diante de um evento sísmico duplo e atípico que abalaria as estruturas mais modernas de qualquer país do mundo.
Nesses últimos dias, já teve jornalista furando o bloqueio de segurança e atrapalhando serviço de busca; outro que mostrava uma única residência destruída como “símbolo” da má qualidade das moradias construídas pelo governo, e um jovem aprendiz do ofício que se manifestou ao vivo incomodado com o cheiro de morte, mesmo odor que a nenhum deles parece ter incomodado o genocídio praticado por Israel e Estados Unidos na Palestina ocupada.
Outras matrizes de opinião têm sido lançadas de maneira coordenada pelas grandes empresas de notícias, sobre a falta de atenção ou negligência das autoridades. No entanto, os números oficiais dizem o contrário. Mais de 6 mil pessoas foram resgatadas com vida dos escombros, em um esforço que envolve 26 mil funcionários venezuelanos, 17 mil voluntários e mais de 4 mil socorristas internacionais de 30 países. E equipes médicas atenderam mais de 17 mil pessoas.
A ausência total de apuração, o silenciamento sobre os comunicados e dados oficiais, o abuso das especulações e a espetacularização da morte têm um único objetivo: intensificar a propaganda anticomunista e pró-imperialista em busca de uma mudança de regime político, às custas do sofrimento e da dor da população venezuelana, que sofre uma das maiores catástrofes naturais de sua história.
O garrote das sanções em meio ao resgate
É impossível analisar a capacidade de resposta da Venezuela sem mencionar o garrote vil do bloqueio econômico. As mil sanções ilegais impostas pelos Estados Unidos e seus aliados reduziram a renda nacional em 99% na última década. Esse cerco criminoso dificulta a importação de maquinários pesados para remover escombros, impede a compra de insumos médicos básicos e congela cerca de US$ 30 bilhões em ativos venezuelanos no exterior.
Em uma análise recente do tema, o historiador indiano Vijay Prashad destaca que esses recursos poderiam ter “fortalecido a preparação para desastres, modernizado a infraestrutura e financiado reservas de emergência”, e sua manutenção acabou restringindo a “capacidade do país de adquirir equipamentos de resgate especializados, maquinário pesado, medicamentos, peças de reposição e materiais de construção”.
O pesquisador destaca ainda que o “endurecimento das sanções impostas pelos EUA em 2017 provocou a emigração e levou a uma profunda fuga de trabalhadores de serviços públicos essenciais”, incluindo “os serviços públicos, que perderam entre 30% e 50% de seu pessoal, incluindo muitos médicos, enfermeiros, engenheiros, professores, juízes e outros profissionais qualificados”.
O necrojornalismo, contudo, prefere tratar as sanções como se fossem detalhes menores, ou até inexistentes, enquanto o povo sofre com a falta de equipamentos de resgate que já deveriam fazer parte da frota nacional, não fosse a perseguição política.
Quando a união popular se torna o maior refúgio
Na foto, um homem vestido com uma camisa da União Comuneira leva uma pá na mão enquanto trabalha na remoção dos escombros de um edifício em La Guaira. Olho bem para a foto daquele senhor que me parece familiar. Chego mais perto e me dou conta de que se tratava do ministro das Comunas da Venezuela, Ángel Prado. Não houve quem não saísse de suas zonas de conforto para ajudar no que fosse preciso. E um ministro, nessa situação, se torna mais um entre os seus.
Onde a mídia corporativa vê apenas caos e falência para justificar intervenções, a realidade mostra um povo que se salva mutuamente. A solidariedade e a auto-organização por meio das comunas têm sido o pilar da resistência venezuelana. Isso sem falar nas brigadas de voluntários e profissionais de países irmãos como Vietnã, Cuba e Brasil, que trabalham lado a lado com as autoridades locais com um só objetivo: salvar e preservar vidas.
No Brasil, a campanha Venezuela pela Vida reforça que a união nacional e internacional é o caminho para a reconstrução. O povo venezuelano, calejado por séculos de lutas e décadas de bloqueios, prova mais uma vez que sua dignidade não pode ser soterrada, nem pelo peso da terra, nem pela podridão das notícias do necrojornalismo.
*Leonardo Fernandes é correspondente do Brasil de Fato na Venezuela. Texto com colaboração do arquiteto venezuelano Ciro Casique.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
