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‘Brincar é cultura do encontro e da humanidade’, diz idealizador de evento sobre infâncias

Proposta reuniu grandes nomes do país para discutir o brincar como linguagem essencial da cultura

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Reunindo oficinas, cortejos, cinema, contação de histórias, experiências artísticas e atividades lúdicas, o dia foi todo voltado à integração entre crianças, educadores e famílias. | Crédito: Harrisan Muss

A cidade de Igarapé, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), sediou, no último dia 27, o encerramento do I Encontro Nacional com as Culturas das Infâncias Brasileiras. Reunindo oficinas, cortejos, cinema, contação de histórias, experiências artísticas e atividades lúdicas, o dia foi todo voltado à integração entre crianças, educadores e famílias. 

Fruto de um mês de programações que, em junho, ocupou diversos territórios em Minas Gerais, o evento possibilitou intercruzar experiências, reflexões e articulações de quem coloca o brincar no centro das discussões sobre cultura, educação, sociedade, nosso presente e nosso futuro.

Ao todo, foram realizadas 12 rodas de conversa, em universidades, escolas, parques e equipamentos culturais de Betim, Belo Horizonte e Igarapé, que contaram com a participação de especialistas no debate das infâncias, como Lydia Hortélio, Adelson Murta, Gil Amâncio, Sônia Maria Augusto e Abilde Maria, e Roquinho. No sábado, a música de Pereira da Viola e do Dito Rodrigues, convidados por Guia Oliveira, encantou os participantes. 

“O encerramento do Encontro foi um dia de muita alegria. Eles entregaram um espetáculo divino, muito especial, que ficou reverberando na gente, de tão bonito que foi esse processo. Brincamos muito com a natureza do parque ecológico em Igarapé. A população chegou com pais, mães, avós e filhos, a família presente para brincar junto, sempre com essa intenção de colocar pessoas de idades diferentes com suas crianças juntas naquele espaço”, relata Roque Antônio Soares Júnior, o Roquinho, brincante, educador popular, pesquisador das infâncias e idealizador do Encontro.

Ele explica que a perspectiva trabalhada nos debates compreende a criança não como um adulto incompleto ou em construção, mas como sujeito autônomo e agente de profundas e necessárias mudanças na forma como a nossa sociedade se organiza e se relaciona com o meio. A proposta, segundo o especialista, enxerga, na infância, a inspiração para a construção de práticas e políticas públicas que ouvem a criança enquanto colaboradora dos processos de construção do mundo que sonhamos.

“A base elementar de construção desse encontro, parte do princípio de que a criança é um ser que está no mundo e não flutuando sobre os conflitos, que está inserida nos conflitos e nos contextos ambientais, sociais e culturais de toda ordem”, destaca Júnior.

E foi partindo dessa percepção que os paineis, debates, formações e demais atividades do encontro propuseram uma escuta dos mais novos através de sua própria expressão: o brincar. 

“Nos inspiramos nas crianças, para construções muito singulares frente às questões que o mundo nos apresenta. Considerando também que o brincar, como um traço da cultura de um povo, é um traço da identidade desse povo”, explica ele. 

A escolha de Minas Gerais para o Encontro reconhece o papel histórico do estado na construção e consolidação de políticas públicas voltadas às culturas das infâncias. 

“É um convite à reconexão com o brincar, com a cultura e com formas mais sensíveis e coletivas de estar no mundo”, aponta a organização do evento. 

Cultura da criança

Natural de Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, Roquinho tem uma trajetória conectada, há mais de 30 anos, com a cultura, educação e mobilização comunitária. Fundador da Carretel Cultural, instituição realizadora do Encontro, que há mais de 15 anos pesquisa e desenvolve metodologias voltadas às culturas da infância, ele destaca o grande desafio da organização política e avanço nas pautas coletivas. 

“As crianças, enquanto brincam, constroem respostas e não ouvi-las é desperdiçar um potencial muito grande. Quando uma criança tem liberdade, aqui ou em qualquer lugar do planeta, ela escolhe brincar. Porque brincar é um processo pedagógico que inaugura, para quem brinca, compreensões profundas a respeito da própria natureza humana, do mundo que cerca essa natureza e, principalmente, dos diálogos essenciais para consolidar o espírito comunitário”, destaca o brincante.

Assim, ao se distanciar de abordagens normativas ou excessivamente escolarizadas, o movimento propõe uma inversão de perspectiva: em vez de ensinar às crianças, é preciso aprender com elas. Como pontua o educador, a brincadeira se torna uma maneira de formar e entender a identidade, através de um corpo livre e em movimento na direção daquilo que lhe importa. 

“Brincar é essencialmente uma cultura do encontro e da humanidade, irmã da alegria, parceira da liberdade. É muito importante para nós, que queremos construir processos revolucionários no conhecimento, dialogar com o que nos ensinam as crianças. Foram elas que elaboraram essa pedagogia, que tem por pressuposto a liberdade, que tem o movimento por meio, a alegria por fim e a natureza por casa”, adiciona ele. 

Sustentabilidade e comunidade 

A perspectiva da sustentabilidade também permeia esse debate. Em um mundo que vive a urgência de repensar as relações ser-humano/natureza e um modelo econômico e energético que se tornou insustentável, Roquinho compreende o afastamento das crianças dos ambientes naturais como um impacto direto em suas formas de experimentar o mundo.

Além disso, o estranhamento perante o meio natural dificulta que o adulto do futuro desenvolva empatia para com outros seres vivos e compreenda a importância da defesa dos bens naturais. E é justamente essa a intimidade que Roquinho percebe, na construção da relação infantil com a natureza e o mundo, uma relação que, para ele, não pode ser desconsiderada.

“Nós queremos amar, mas à distância. Queremos saber, mas sem o calor, sem o cheiro. Precisamos de contato e intimidade, esse corpo precisa saber o planeta das suas dimensões mais profundas, as vidas ínfimas. É preciso que nos embrenhemos, como a criança propõe, para que compreendamos que somos também natureza. E, quando cuidamos dela, cuidamos de nós mesmos. Quando cuidamos de nós mesmos, também cuidamos do mundo”, afirma. 

Parte dessa compreensão que envolveu o Encontro: a implantação do Quintal das Infâncias, um espaço pedagógico naturalizado que passa a integrar permanentemente o cotidiano da escola Núcleo Infantil Anna Medioli, em Betim. A iniciativa faz parte do eixo territorial do Encontro e foi combinada a construção coletiva de um mural, encabeçado pela artista Anna Göbel. 

O projeto do quintal foi desenvolvido por Guilherme Blauth em parceria com a Carretel Cultural, e teve etapas de escuta, diagnóstico do território escolar, desenho do projeto e pré-produção, seguidos pelas intervenções físicas no espaço e pela realização de encontros para brincar e ações formativas dentro da escola. O espaço foi concebido a partir dos princípios dos quintais naturalizados, ou seja, ambientes educativos que valorizam elementos da natureza como parte integrante da aprendizagem, do brincar livre e do desenvolvimento infantil.

“Imaginar o material pedagógico de uma escola brasileira deveria ser pensar na natureza brasileira e no que ela nos oferta: as sementes, folhas, troncos, tudo vivo e orgânico, com textura, com cheiro de Brasil. Entendemos que isso nos ensina muito mais do que qualquer coisa plástica”, chama a atenção,

“Ainda que haja textura e cores, a natureza é muito mais complexa. A proposta é trazer para dentro da escola um quintal brasileiro, onde muitos de nós nos formamos, para que se inspire essa relação da criança com a natureza, umas com as outras, tendo o planeta como chão, e não o cimento”, continua ele.

Além de beneficiar diretamente as crianças atendidas pela instituição, a ação pretende inspirar outras escolas e espaços educativos a repensarem seus ambientes externos, transformando áreas de circulação em territórios de descoberta, pertencimento e experimentação.

Minas Gerais e as infâncias 

Ao longo das últimas décadas, Minas vem se afirmando como uma referência nacional nesse campo de estudo, interpretação e construção de políticas públicas. O estado e, principalmente, Belo Horizonte,  reúnem décadas de experiências que articulam cultura, educação e gestão pública, a partir de abordagens sensíveis e territorializadas. 

Por isso, para os organizadores, além de reforçar a centralidade da pauta, foi possível revisitar a história e afirmá-la como uma reverberação no presente. Isso se deu ao trazer pessoas que podiam contar como foi a evolução das políticas e processos aqui, mas também  pessoas que estão realizando iniciativas que são frutos dessa construção hoje.  

“O que o encontro revelou de maneira maravilhosa é que essa experiência poderosa, política, sensível, delicada e cultural pertenceu e foi elaborada, naquele instante original, pelo povo das periferias de Belo Horizonte. E a responsabilidade continua sendo nossa, do povo de Belo Horizonte e do povo do Brasil, que é quem ainda brinca e conserva seus quintais”, destaca o educador. 

A expectativa é que o evento se repita periodicamente de modo a acordar a sociedade brasileira para a importância que esses quintais têm.

“É central que nós, das grandes cidades, prestemos atenção e aprendamos com essas pessoas para retomarmos experiências que, mesmo em ambiente urbano, confirmam em nós o sentido comunitário”, acredita Roquinho. 

Editado por: Lucas Wilker

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