GAZA

Como a saída do Hamas do poder civil em Gaza altera a gepolítica na região

Movimento dissolve órgão que administra região há quase duas décadas e transfere governança civil para comitê tecnocrata

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Crianças buscam materiais em lixão no campo de refugiados de Bureij, no centro da Faixa de Gaza, em 4 de abril de 2026.
Crianças buscam materiais em lixão no campo de refugiados de Bureij, no centro da Faixa de Gaza, em 4 de abril de 2026. | Crédito: Eyad Baba/AFP

O Hamas anunciou nesta segunda-feira (6) a dissolução do comitê que administra a Faixa de Gaza há quase duas décadas. 

“O Hamas deu um novo passo ao não estar mais no comando da Faixa de Gaza para remover quaisquer pretextos da ocupação (Israel), que continua sua agressão e guerra de extermínio”, disse o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, à AFP. “Esperamos a entrada rápida no NACG [Comitê Nacional para a Administração de Gaza, na sigla em inglês]. O Hamas afirma sua disposição para transferir responsabilidades governamentais ao comitê para garantir seu sucesso”.

O NACG agrega tecnocratas palestinos responsáveis por supervisionar uma eventual administração civil do enclave. O grupo integra as medidas estabelecidas pelo Conselho de Paz, iniciativa lançada em outubro de 2025 pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. 

Movimento alinhado a acordo

Para Uablid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), a decisão de hoje “é uma evolução natural daquilo que foi acordado em 2024 por todas as forças palestinas, em Pequim”. Em conversa com o Brasil de Fato, Rabah pondera que a declaração da época “resolveu pela reconciliação nacional e pela construção de um governo de unidade nacional, que resultaria, primeiro, em um governo de tecnocratas palestinos que não estivessem filiados diretamente a nenhuma das forças”.

A ideia é permitir um governo que encaminhe unidade para Gaza, possibilitando a reconstrução da região, a gestão da entrada de ajuda humanitária e a restauração da habitabilidade do território.

“É uma decisão do tecido social e político palestino, de todas as suas forças, em meados daquele ano de 2024, em Pequim”, explica Rabah.

O movimento do Hamas, porém, não indica uma ruptura com as bases do movimento. A emissora Al Jazeera aponta que, apesar da mudança política significativa, o poder político e militar do Hamas em Gaza se mantém. Na prática, a decisão implica mudança na governança civil cotidiana.

Gabriel Mathias Soares, Global Fellow na Habib University em Karachi, no Paquistão, explica ao Brasil de Fato que, desde 2023, nomes importantes do Hamas, como Yahya Sinwar e Ismail Haniyeh, foram assassinados por Israel. “A situação dos Hamas era de enorme pressão, mas isso até agora não significou a dissolução do grupo, nem esse passo significaria por si só tal”, diz.

“Essa decisão é de enorme consequência, pois, ainda que a Faixa de Gaza esteja destruída e quase sem instituições funcionais fora do auxílio internacional, o que resta de controle sobre o setor civil é parte da força do Hamas, de sua posição, e uma peça fundamental para sua operadora e realização de seus objetivos, além de ser um espaço de manobra para o enfraquecido grupo”, explica.

Desde a entrada em vigor do cessar-fogo, em outubro de 2025, o Hamas vem se mostrando disposto a deixar a administração de Gaza. O movimento estratégico visa conter a guerra promovida por Israel. Por outro lado, o Hamas rejeita aderir ao desarmamento proposto por Tel Aviv.

Para Soares, “a capacidade de se regenerar durante o genocídio perpetrado por dois anos no diminuto território foi um fator muito mais decisivo, pois a população palestina como um todo foi constante alvo de ‘punições coletivas’ e destruições de blocos, bairros e até distritos inteiros (vilas e cidades) na Faixa de Gaza por Israel”.

O futuro

Um ponto de máxima importância se refere ao futuro da Palestina. “O destino e a força de cada uma dessas organizações políticas e de resistência palestina, dentre elas o Hamas, dentre elas o Fatah, a Jihad Islâmica e as demais organizações, dependem muito mais do futuro palestino. E o futuro palestino será zero se ele seguir fraturado”, aponta Rabah.

“Não existe também futuro para a Palestina sem a aplicação da totalidade do direito internacional para a Palestina e das resoluções da ONU. Dentre elas, a do retorno dos refugiados palestinos e seus descendentes, resultantes da grande limpeza étnica de 1947 a 1951, bem como a retirada de todos os colonos ilegalmente instalados na Cisjordânia, e o desbloqueio da Faixa de Gaza, pondera o presidente da FEPAL.

Soares, por sua vez, considera que o conflito dos EUA e de Israel contra o Irã “pressionou ainda mais os aliados, como Turquia e Qatar, que têm relações militares com os EUA, o maior apoiador de Israel, a buscarem uma saída a essa escalada do conflito de Gaza para a região como um todo”.

O movimento anunciado nesta segunda-feira (6), portanto, não significa o desaparecimento do Hamas. Embora se trate “de uma enorme concessão, já que as instituições civis seriam cedidas”, segundo Soares.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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