ARTIGO

África contemporânea: o papel da ciência, da tecnologia e da produção acadêmica

Pecisamos reconhecer que o berço da civilização é um lugar de produção de saber e conhecimento

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Universidade al-Qarawiyyin, localizada em Fez, Marrocos, foi fundada em 859 d.C | Crédito: Reproduçao

A África como berço da humanidade tem uma história que revela o quanto merece esse título. Nesse sentido, faz-se indispensável conhecer a história e a voltar nosso olhar para o contexto atual do continente africano. São 54 países que apesar de apresentar dificuldades socioeconômicas têm avançado em vários aspectos na ciência.

Em 25 de maio, comemoramos o Dia da África. A data foi instituída para marcar a fundação da Organização da Unidade Africana (OUA), criada em 25 de maio de 1963, em Adis Abeba, Etiópia. O objetivo inicial era unir os países africanos e promover a libertação do continente do colonialismo europeu. A data é comemorada no Brasil por brasileiros e africanos residentes no país.

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Fundação da Organização da Unidade Africana (OUA), em Adis Abeba, Etiópia, em 25 de maio de 1963 | Crédito: Reprodução/derekbishton.com

A data carrega um forte simbolismo de união, resistência e emancipação. Aqui está o caminho histórico da sua criação com o primeiro-ministro de Gana, Kwame Nkrumah, organizou o Primeiro Congresso dos Estados Africanos Independentes em 1958. O encontro reuniu nações recém-libertadas para debater estratégias contra o domínio imperialista.

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Kwame Nkrumah durante discurso da independência de Gana, em 1957 | Crédito: MST/Portal Por Dentro da África

E como já mencionado aqui a fundação da OUA, cinco anos depois, em 1963, com a participação de cerca de 30 líderes de nações africanas teve como objetivo consolidar a cooperação entre os recém-independentes países, assinando a carta de criação da Organização da Unidade Africana. Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu oficialmente 25 de maio como o Dia da África (ou Dia da Libertação da África) para ser celebrado internacionalmente.

A comemoração dessa data nos remete ao fato de que muitos brasileiros ainda buscam encontrar a África como um continente idílico e distante. Esse imaginário sobre a África vem de um passado histórico que tende a transformar a nossa relação com o continente africano em uma experiência apenas metafórica e holística. Fugindo assim da realidade atual em que a África pós-colonial passou por profundas transformações históricas, políticas e econômicas o que reflete no cotidiano de suas mais de 50 nações.

Desse modo, defendemos que nosso encontro com o continente africano deve passar de uma simples experiência para um contato real com a atualidade de mais de 1,5 bilhão e meio de pessoas. Essas pessoas têm suas próprias identidades culturais e políticas. O que nos leva ao mote desse texto que é a atualização da ideia de África. Como diria V.Y. Mudimbe em seu livro A Invenção da África, que a África, tal como a conhecemos hoje, não é uma entidade geográfica ou cultural natural. Ela é uma construção ideológica e histórica ocidental, forjada por missionários, exploradores e antropólogos para servir aos interesses do colonialismo.

O conhecimento sobre o continente foi monopolizado pelo Ocidente por meio dos relatos de viajantes, missionários e cientistas europeus que criaram estereótipos (como o de um continente exótico, primitivo ou caótico), definindo a África apenas como o oposto da Europa. Esse processo de apropriação se desenvolveu uma perspectiva historicista que problematiza os conceitos e discursos do que conhecemos como uma África mitificada.

Partindo disso, faz-se necessário construir um contraponto com a África contemporânea e com a produção de conhecimento e o papel da ciência, da tecnologia, e da produção acadêmica dos estudantes na diáspora. É preciso acessar as epistemologias ancestrais como horizonte para a ciência moderna. O reconhecimento que a ciência sempre existiu em África.

Como observado, a influência europeia construiu um imaginário sobre o continente africanos e esse imaginário trata a África como lugar que não produz ciência. É isso que pretendemos contestar. Muitos anos antes de civilizações europeias existirem, africanos já escreviam literatura, realizavam cirurgias, estudavam astronomia, erguiam cidades monumentais e preservavam o conhecimento em bibliotecas gigantescas.

O que nos cabe reconhecer na África contemporânea é atualizar nossa postura e nosso imaginário sobre o continente nos nossos dias. Atualmente, liderado por países como a Nigéria, África do Sul e Egito, o ecossistema tecnológico do continente destaca-se por soluções em pagamentos móveis, inteligência artificial e robótica.

Existe muito mais sendo desenvolvido no continente africano. O fato é que nos apegamos a uma África que não se transformou e cresceu no campo no campo da ciência. Esse apego precisa ser reconsiderado quando nos colocamos para falar da África contemporânea. Precisamos reconhecer que o berço da civilização é, por isso, um lugar de produção de saber e conhecimento.

*Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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