POPULAR E POLÍTICA

Quadrilha junina vive temporada especial ao escolher direito ao descanso e fim da escala 6×1 como tema

Fundada em 2007 em Açailândia, interior do Maranhão, Flor de Mandacaru tem histórico de temáticas sociais

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Quadrilha partiu da rede de balanço para desenvolver temática
Quadrilha partiu da rede de balanço para desenvolver temática | Crédito: Henrique Sales/Comunicação ACFM

No último ciclo junino, a quadrilha Flor de Mandacaru, de Açailândia, interior do Maranhão, viveu uma das temporadas mais históricas de sua trajetória, ganhando destaque nacional ao escolher como tema o direito ao descanso e o fim da escala 6×1.

O coletivo, que historicamente utiliza a arte como ferramenta para a luta social, ganhou as redes e o noticiário nacional com a circulação do espetáculo “Balança, São José: O Fio, o Nó e a Fé”, colocando os tradicionais elementos dos enredos da manifestação cultural em uma reflexão sobre os direitos do trabalhador. 

O tema desse ano surge a partir de um elemento ligado ao imaginário brasileiro do descanso: a rede de balanço. O diretor artístico da quadrilha, Alan Fernando, explica que o enredo se desenvolveu com base em uma pesquisa que parte da força simbólica dessa ferramenta de repouso. “É um objeto que passeia por toda a história do Brasil e da identidade nordestina. No nosso processo de pesquisa, entendemos a rede também como um objeto de disputa enquanto simbologia”, explica o diretor. 

A partir de uma pesquisa artística iniciada em setembro de 2025, foi sendo desenvolvido um enredo que adaptou o direito ao descanso e a luta pelo fim da escala 6×1 para as características próprias da quadrilha, com seus personagens e uma história que gira em torno de um casamento, criando uma história fictícia que se empenha em trazer questões sociais para dentro desse universo. A realidade das pessoas que fazem a quadrilha, em sua maioria trabalhadoras e trabalhadores, dos quais muitos trabalham em regime 6×1, fez o tema ser abraçado com facilidade internamente. 

“Antes de levar o espetáculo para as arenas, precisamos que os brincantes da quadrilha comprem a ideia, esse é o primeiro desafio, de sensibilizar ao tema. Quando trazemos uma temática que dialoga com as camadas populares, as coisas dentro da quadra são facilitadas”, elabora Fernando. Para o diretor, o grito que os integrantes dão durante o espetáculo reverbera em suas vidas pessoais. “No fim do dia, o processo de construção na quadra é um processo de transformação social, de cidadania, em que representamos as histórias de nossas vidas e aprendemos juntos”, complementa o diretor. 

Tema foi abraçado pelos trabalhadores que compõem a quadrilha | Crédito: Henrique Sales/Comunicação ACFM | Crédito: Henrique Sales/Comunicação ACFM

A quadrilha, criada em 2007 sob o nome de Cangaceiros de São Sebastião, rebatizada em 2009 para Flor de Mandacaru, conta com um histórico de pautar lutas políticas em suas criações artísticas, passando por temas como a questão agrária e o direito à terra, o direito à infância e o lazer, dentre outros. Quando chegam os comentários de que a quadrilha “não deveria se misturar com política”, eles rebatem, pontuando que o protesto e a luta estão na gênese da cultura popular e do forró, desde os tempos em que Luiz Gonzaga cantava as agruras sertanejas. 

Neste ciclo junino, foram nove apresentações, a maioria pelo Maranhão, e uma última em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, no Ceará, de onde saiu campeã. A quadrilha conta com alguns títulos regionais e nacionais em sua trajetória, mas viu neste ano suas conquistas saírem do campo da competição e irem para o cenário da visibilidade nacional. “Fomos bem recebidos e saímos ovacionados em diversas cidades, mas também tivemos o ano no qual mais fomos vistos pelo país. Isso engrandece nosso movimento, porque não é apenas a Flor de Mandacaru, mas o movimento junino falando para o Brasil, dando lugar e voz para uma pauta tão necessária”, conclui Fernando. 

Editado por: Rafaella Coury

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