“chocolate”

Agricultores familiares denunciam o chocolate artificial

Gigantes do comércio mundial de chocolate testam em laboratório o chocolate sem cacau

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Afinal, o cacau será banido em definitivo do que conhecemos como chocolate?
Afinal, o cacau será banido em definitivo do que conhecemos como chocolate? | Crédito: Caio Ferrari

As grandes empresas do mercado de chocolate estão pesquisando febrilmente uma modalidade de doce sem cacau. Por ora, o objetivo ainda está no âmbito de laboratório industrial. 

Este alerta está sendo divulgado nas redes, sem confirmação ou credibilidade. Por esse motivo, consultei um produtor da agricultura familiar e dos assentamentos da reforma agrária, sobre a veracidade do que está sendo comentado nas redes. 

Afinal, o cacau será banido em definitivo do que conhecemos como chocolate? Sempre, por óbvio. Considerando que a grande parte do cognominado “chocolate”, hoje, a rigor, é uma massa doce com muito açúcar, flavor (sabor artificial), gordura (manteiga de cacau) e corante escuro, tipo “chocolate”. 

Portanto, o cacau e suas saudáveis amêndoas já estão sendo abandonados faz tempo. Grande parte dos consumidores não se dá conta dessa esperteza dos grandes industriais que produzem e comercializam esse doce tão aprecidado no mundo todo.   

A consulta aos produtores diretos de cacau resultou no comentário que faço a seguir. Eles solicitam que não divulguem  a identidade e a localidade onde produzem. Temem a represália dos grupos econômicos que dominam o mercado mundial do chocolate. Apenas posso dizer que estão no Nordeste e na Amazônia. 

O novo chocolate de laboratório 

Gigantes do setor (como a Mondelez, dona das marcas Cadbury e Toblerone, e a empresa Lindt) estão investindo pesado em startups de biotecnologia. Estudam o cultivo de células de cacau em biorreatores para criar manteiga de cacau artificial. 

As indústrias alegam que fazem esses testes porque as mudanças climáticas e as pragas estão prejudicando as plantações tradicionais de cacau na África. Isso fez o preço da fruta subir muito nos últimos anos. 

O cacau cultivado em laboratório ainda não tem aprovação regulatória de órgãos de saúde de nenhum país para ser comercializado. 

A estimativa mais otimista dos cientistas é que os primeiros produtos cheguem ao mercado apenas a partir de 2027. 

Os cientistas não fabricam “cacau de plástico”. Eles usam a agricultura celular (técnica que cultiva células vivas fora da planta) para multiplicar o cacau-fruta em tanques industriais. 

Crédito: Caio Ferrari 

O processo funciona como uma receita de laboratório em quatro passos básicos:

1) Os cientistas recortam uma pequena parte de uma planta de cacau real, como um pedacinho da semente ou da folha.

2) Colocam esse pedaço em um prato de laboratório com nutrientes. A planta cria uma massa de células chamada “calo” (uma espécie de célula-tronco vegetal que pode se multiplicar sem parar).

3) Essas células são transferidas para o biorreator. Esse aparelho é um grande tanque de aço inox aquecido, cheio de água, açúcar, vitaminas e minerais. Ele imita o ambiente interno da fruta.

4) As células se multiplicam rapidamente ali dentro. Em poucos dias, os cientistas retiram essa massa de células líquida, retiram a água e a transformam em um pó ou pasta que tem o mesmo gosto, cheiro e gorduras do cacau que cresce saudável na Mata Atlântica da Bahia ou na selva amazônica. 

Quem são as empresas de biotecnologia 

As principais startups de biotecnologia que lideram o desenvolvimento de cacau em laboratório são a Celleste Bio, a California Cultured e a Food Brewer. 

São justamente essas empresas que estão recebendo os investimentos milionários das grandes multinacionais do chocolate, bem como pesados aportes do capital financeiro. 

Celleste Bio (Israel): é a empresa mais avançada do setor. Eles receberam um grande aporte da Mondelez International (dona da Cadbury e Toblerone) e criaram em laboratório as primeiras barras experimentais usando manteiga de cacau cultivada em biorreatores. A meta deles é atingir escala comercial nos próximos dois anos. 

California Cultured (USA): conseguiu um feito técnico importante ao criar um sistema de biorreatores modulares de plástico rígido com capacidade de 2 mil litros. Isso barateou muito o custo de produção do cacau celular. Eles têm uma forte parceria de desenvolvimento com a gigante belga de ingredientes alimentares Puratos. 

Food Brewer (Suíça): aposta no cultivo de variedades finas de cacau da América Latina (sobretudo do Brasil) em laboratório, utilizando inteligência artificial para monitorar o crescimento das células. Recebeu investimentos da famosa marca de chocolates suíça Lindt and Sprüngli.  

Chocolate feito de outros vegetais fermentados 

Além das empresas que multiplicam células de cacau real em tanques, existe um segundo grupo de startups criando alternativas feitas com outros vegetais fermentados, e que imitam perfeitamente o sabor do chocolate convencional. 

Voyage Foods (USA): Jamais usa cacau. Fabrica um substituto idêntico usando uma mistura de sementes de uva, proteínas de girassol, óleos vegetais e muito açúcar. Fecharam um contrato gigante de distribuição global com a Cargill – grande multinacional de capital fechado, processadora de alimentos e suprimentos para a agricultura extensiva.

Win-Win/WNWN (Reino Unido): Produz barras de “chocolate” sustentáveis utilizando cevada e alfarroba fermentadas. 

Os testes de sabor com o cacau de laboratório mostram que ele consegue imitar quase perfeitamente o chocolate tradicional, mas o processo para chegar até aí envolve muita ciência e provadores profissionais.

Os cientistas medem o sucesso desses testes comparando a cópia de laboratório com o chocolate comum.

Nos testes da startup Voyage Foods e da Celleste Bio, os provadores profissionais contratados relataram que o sabor, o amargor e as notas de baunilha e frutas são indistinguíveis do chocolate comum em receitas misturadas (como bombons recheados ou a mescla variada dos chamados achocolatados).

O maior desafio atual não é o gosto, mas a textura. A manteiga de cacau natural tem uma propriedade única: ela derrete exatamente à temperatura do corpo humano (36°C). Os primeiros lotes de laboratório às vezes derretiam rápido demais na mão ou demoravam para derreter na boca, deixando uma sensação de gordura espessa no céu da boca. As startups dizem que já corrigiram quase 100% disso ajustando os nutrientes das células.

O que dizem os produtores de cacau do Brasil 

Os produtores brasileiros enxergam a tecnologia do cacau de laboratório com uma mistura de ceticismo, defesa do meio ambiente e confiança na alta qualidade do produto natural. 

A reação deles não é de pânico, mas sim de reafirmação do valor do cacau de verdade, especialmente o cultivado no Sul da Bahia e na Amazônia. 

Na Bahia e na Amazônia, cerca de 60% do cacau é cultivado no sistema “cabruca”, onde os cacaueiros crescem plantados à sombra de árvores nativas da mata original. O cacau gosta de locais úmidos e muita sombra. O cultivo perfeito para a proteção e expansão natural da ameaçada Mata Atlântica e a vasta Amazônia.   

As startups acima mencionadas dizem que o cacau de laboratório é sustentável porque não precisa de terra. Os produtores familiares rebatem dizendo que a lavoura deles é que preserva a floresta em pé. 

Se a indústria parar de comprar o cacau das fazendas, os agricultores perdem o sustento, o que poderia levar ao abandono das terras e, consequentemente, ao desmatamento da Mata Atlântica. 

Os produtores entendem que o cacau celular objetiva resolver o problema das grandes multinacionais que hoje fazem chocolate barato de supermercado (com baixo percentual de cacau e muita gordura e açúcar). 

Em vez de temer a tecnologia, os produtores baianos e amazônidas estão trazendo a tecnologia para dentro das fazendas para aumentar a produção e combater pragas.  

Os produtores da Bahia já usam inteligência artificial, sensores e robôs para monitorar plantações agroflorestais.

O objetivo é criar árvores mais fortes e resistentes (como as pesquisas da Biofábrica da Bahia), provando que o campo pode ser tão eficiente quanto um biorreator, sem perder a conexão com a natureza. 

O chocolate artificial e a ética comercial 

A indústria, já sabemos, enfrenta instabilidades devido ao tema da crise climática e a consequente alta dos preços da matéria-prima, o cacau.  

Mas nos resta uma indagação de natureza ética: a saber, o consumidor eventualmente poderá estar sendo enganado ou confundido com essas variantes do chocolate verdadeiro derivado da amêndoa de cacau. 

Cabe, portanto, um regramento mais rídido do Estado no sentido de informar ao consumidor acerca da condição e natureza do produto que irá consumir.  

No Brasil, a discussão sobre a transparência na rotulagem do chocolate avançou significativamente com a sanção da Lei nº 15.404/2026, que define regras mais rígidas para que um produto possa ser chamado de “chocolate”.

O principal objetivo da lei é justamente coibir práticas que possam induzir o consumidor ao erro, assegurando o direito à informação clara e precisa . A motivação veio de um estudo da Universidade de São Paulo (USP) que mostrou que produtos chamados de “meio amargo” muitas vezes tinham a mesma quantidade de cacau que chocolates ao leite, ou seja, mais açúcar e menos cacau do que o esperado.

As embalagens deverão informar na parte da frente, em uma área de pelo menos 15% da superfície, a frase “Contém X% de cacau”. Isso torna a informação visível e de fácil comparação para o consumidor.

Classificações subjetivas como “amargo” e “meio amargo” serão substituídas pela informação categórica do teor de cacau.

Produtos que não atingirem esses percentuais mínimos não poderão mais ser chamados de “chocolate”. Eles terão que usar denominações como “composto de chocolate” ou “cobertura sabor chocolate”. 

Isso resolve o problema apontado: o termo “sabor” indica claramente que não é chocolate de verdade.

A nova lei brasileira é um passo importante para garantir que o consumidor não seja enganado, estabelecendo uma linha clara entre o que é chocolate e o que é uma vulgar e nociva imitação. 

O próximo grande desafio regulatório será lidar com as inovações tecnológicas, como o chocolate de laboratório, para garantir que o mesmo princípio de transparência seja aplicado.

Os produtores da agricultura familiar e dos assentamentos da reforma agrária estão ao mesmo tempo atentos e vigilantes – produzindo cacau saudável, chocolate autêntico e protegendo a floresta nativa. 

*Cristóvão Feil é sociólogo.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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