PELA CIDADE BAIXA

Circo Híbrido revela encantos de uma arte ampla e versátil

Dança aérea é o carro-chefe de grupo sediado em Porto Alegre que brilha com técnica, criatividade e força

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Dança aérea em tecido é o carro-chefe do Circo Híbrido, grupo aberto à multiplicidade das linguagens artísticas e às práticas de ensino-aprendizagem
Dança aérea em tecido é o carro-chefe do Circo Híbrido, grupo aberto à multiplicidade das linguagens artísticas e às práticas de ensino-aprendizagem | Crédito: Rafael Rosa

O Circo Híbrido sabe que viver da arte é pura resistência. Localizado na rua José do Patrocínio, 280, Cidade Baixa, é mais um dos espaços em Porto Alegre onde se respira realmente o espírito circense – não aquele tipo de circo de lona, daqueles que a gente imagina e que vem de tempos antigos. Esses ainda existem, mas cada vez mais se distanciam, indo para as periferias. Não tem mais animais, hoje proibidos, e os artistas vivem em situação de penúria.

Agora, o conceito é bem diferente. O circo é para qualquer lugar – nas ruas, praças, ginásios, espaços fechados e até no teatro. É uma arte ampla, espetacular, em que até se admitem e se aceitam erros, tamanha a versatilidade e as descobertas que o corpo pode proporcionar em termos de beleza e estética.

Sede do Circo Híbrido fica na rua José do Patrocínio, 280, bairro Cidade Baixa
Sede do Circo Híbrido fica na rua José do Patrocínio, 280, bairro Cidade Baixa | Crédito: Rafael Rosa

Tainá Borges tem 22 anos de circo. Ela e Luís Cocolichio fundaram o Circo Híbrido, arte múltipla que engloba vários conceitos. Ele é o palhaço-artista que faz o circo se divertir. O grupo foi fundado em 2004. Os dois, mais Lara Rocho, doutoranda em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), formam o núcleo principal. O Híbrido atua como um coletivo, com diversos artistas que participam de projetos específicos e circulam pelo espaço-sede.

As aulas são mistas. São 150 alunos, entre crianças, adolescentes, estudantes, universitários, psicólogos, médicos, designers, gente, enfim, que quer movimentar o corpo e não tem nenhum vínculo artístico. E que descobriu no circo uma boa opção.

Espaço de arte e aprendizado
Espaço de arte e aprendizado | Crédito: Rafael Rosa

O Circo Híbrido desperta curiosidade. É uma espécie de espaço de liberdade e de criação. “Só podia ser na Cidade Baixa, um bairro de mil loucuras, invenções e liberdade”, diz Borges. O grupo funcionou inicialmente na rua Comendador Batista, na própria Cidade Baixa, foi crescendo, ampliando atividades e passou para o atual espaço em 2016. Foi agregando salas e hoje tem loja na entrada, com produtos circenses e lembranças do local.

Para as aulas são dois amplos e compridos salões. Borges conta que, em salas anexas, está também uma distribuidora de produtos de circo e dança aérea para todo o país e um escritório de pesquisas sobre o tema. A equipe de trabalho soma seis pessoas, mais sete professores, que lecionam para crianças a partir de quatro anos. Todos têm formação acadêmica.

“Para sobreviver e fazer apresentações na Capital e no interior, trabalhamos com editais públicos. É uma batalha constante, mas estamos bem, diversificando e atuando, cada vez mais, com brilho, categoria e ganhando prêmios”, ressalta.

Tainá Borges é uma das fundadoras do Circo Híbrido
Tainá Borges é uma das fundadoras do Circo Híbrido | Crédito: Rafael Rosa

Dança aérea em tecido é o carro-chefe

Ali, o carro-chefe é a dança aérea em tecido, em que se descobre o corpo no ar, unindo força, criatividade e técnica. Com uma proposta criativa e estética inspirada na contemporaneidade, o Circo Híbrido se configura como grupo aberto à multiplicidade das linguagens artísticas e às práticas de ensino-aprendizagem.

Trabalha com a criação e apresentação de espetáculos e intervenções artísticas, e com cursos, oficinas e uma escola de circo, com aulas permanentes. Tudo em segurança. Aparentemente, pode parecer perigoso, mas a preparação é acompanhada por professores e cuidados técnicos.

Espaço é local de formação em tecido aéreo e outras práticas circenses
Espaço é local de formação em tecido aéreo e outras práticas circenses | Crédito: Rafael Rosa

Uma vez por mês, diz Borges, são realizados no espaço Encontros Gratuitos de Circo, em que o público chega ao local e assiste a um espetáculo. “A nossa arte vive também da presença e do estímulo das pessoas”, afirma. O local pode receber até 70 pessoas.

Há também outras variações em tecido, como a Dança Aérea em Lira e Trapézio, que explora força e fluidez, combinando técnica e expressão artística em movimentos harmônicos no ar. O curso Tecido e Outros Voos explora não apenas o tecido aéreo, mas outros equipamentos circenses, como cordas, lira e trapézio.

As aulas de Flexibilidade ampliam a mobilidade e a amplitude do movimento. O Pilates no Circo trabalha com exercícios realizados no solo e na parede, sem uso de aparelhos, em ambiente colorido e acolhedor. Já Estripulices, Pilates, Dança Aérea & Criação para Adolescentes propõe a experimentação do corpo em processos criativos, estimulando o desenvolvimento físico e artístico, com aulas e exercícios de solo e suspensos.

Turma de curso do Circo Híbrido
Turma de curso do Circo Híbrido | Crédito: Rafael Rosa

Picadeiro do Imaginário é outro curso, especial para crianças de 4 a 10 anos. Neste momento, elas exploram, em atividades circenses, brincadeiras criativas e artes visuais, como desenho e pintura, com uma abordagem divertida.

Para crianças de 5 a 10 anos há também o curso de Estripulices, mistura de pilates, dança aérea, criação e liberdade nos processos criativos do circo. Por fim, há também o Brincando de Circo, em que, a cada aula, as crianças experimentam diferentes modalidades circenses.

Aulas vão de dança em tecido aéreo a movimentos no solo e flexibilidade
Aulas vão de dança em tecido aéreo a movimentos no solo e flexibilidade | Crédito: Rafael Rosa

Dois caminhos para experimentar o circo

Já pensou em fazer circo, mas não sabe por onde começar? Pois o movimento também organiza eventos de laboratório para quem está curioso sobre a vida circense. O responsável é Leonardo Flor, ou Léo do Chapéu, estudante de Artes Cênicas com foco em Circo na Universidad Nacional de San Martín (Unsam), em Buenos Aires. Artista circense desde 2019, possui experiência em malabarismo, monociclo, acrobacia, portagem e perna de pau.

Ele já se apresentou em praças, eventos, convenções, teatros e na televisão, além de integrar o Grupo Tholl durante o ano de 2024. Atuou como professor de circo para crianças em 2023, participou de convenções e formações circenses pelo Brasil e trabalhou no Circo Bar, em Porto Alegre, em 2025.

Dança aérea em tecido, em que se descobre o corpo no ar, unindo força, criatividade e técnica
Dança aérea em tecido, em que se descobre o corpo no ar, unindo força, criatividade e técnica | Crédito: Rafael Rosa

Conforme relata Borges, existe o Circo para Curiosos, oficina voltada para quem deseja experimentar o universo circense pela primeira vez. Durante o encontro, os participantes terão contato com diferentes modalidades, como malabarismo, equilíbrio, acrobacias, jogos e outras práticas que estimulam a criatividade, a coordenação e o trabalho coletivo.

Não é necessário ter experiência prévia, preparo físico ou qualquer habilidade específica. A proposta é criar um ambiente acolhedor para experimentar, brincar, aprender e descobrir novas possibilidades de movimento.

O curso é conduzido por alguém que também começou do zero. Léo do Chapéu iniciou a trajetória circense já na vida adulta, sem histórico esportivo ou experiência prévia na área. Hoje cursa graduação em Circo na Argentina e dedica pesquisa e prática a essa linguagem artística.

Tecidos são ferramenta de expressão artística
Tecidos são ferramenta de expressão artística | Crédito: Rafael Rosa

Um verdadeiro laboratório criativo

“Todo processo criativo começa com perguntas. Algumas fazem sentido. Outras nem tanto. E às vezes são justamente elas que levam aos caminhos mais interessantes”, resumem Borges e os professores do grupo.

O Laboratório Criativo, por exemplo, é um espaço de experimentação para artistas da cena que desejam desenvolver materiais, investigar ideias e ampliar ferramentas de criação. A proposta combina exercícios, jogos e investigações práticas voltadas à construção de cenas, presença e autonomia artística. Artistas de diferentes linguagens são sempre bem-vindos no endereço do Híbrido: circo, teatro, dança, performance ou qualquer outra prática cênica.

Espaço multiartístico na Cidade Baixa
Espaço multiartístico na Cidade Baixa | Crédito: Rafael Rosa

Os participantes são convidados a trazer elementos que façam parte de suas pesquisas, como objetos cotidianos, malabares, aparelhos aéreos, instrumentos musicais, figurinos ou qualquer outro estímulo que desejem explorar durante o encontro.

O diferencial da oficina está no encontro entre prática e pesquisa. Como estudante de Artes Cênicas com foco em Circo na Unsam, Léo do Chapéu reúne experiência de palco, ensino e investigação artística, compartilhando não apenas ferramentas de criação, mas também formas de pensar a cena e desenvolver processos autorais.

Os grandes destaques do Híbrido

Entre os principais trabalhos de criação do Circo Híbrido, Borges destaca o evento “Cabaré Valentin – Teatro Bar Espetáculo” e os espetáculos “Etc”, “O Magnífico Circo Praça”, “Sopráveis”, “Das amarras dela”, “Atravessamentos”, “Cir.co – minidicionário poético das artes circenses” – integrante do projeto Atravessamentos – e “Coisa-sonho – sobre objetos, invenções e mergulhos”.

“Das amarras dela” ganhou o Prêmio Açorianos de Dança 2018 de Melhor Cenografia e participou do Festival Porto Alegre em Cena 2019, concorrendo ao Prêmio Braskem de Melhor Espetáculo. “Atravessamentos” ganhou os Prêmios Açorianos de Circo 2022 de Melhor Direção e Destaque Técnico.

Em março de 2024, o grupo foi reconhecido com o Prêmio Açorianos de Circo Especial do Júri pela trajetória de 20 anos e pela contribuição às artes circenses da cidade de Porto Alegre, bem como pelo impacto na cena regional e nacional, no ensino das artes circenses, na formação de público, na criação e na difusão de espetáculos artísticos.

Circo Híbrido já recebeu diversos prêmios por seu trabalho artístico
Circo Híbrido já recebeu diversos prêmios por seu trabalho artístico | Crédito: Rafael Rosa

Os prêmios não param aí: recebeu também o Prêmio Quero-Quero de Artes Cênicas 2024, do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio Grande do Sul (Sated/RS), na categoria Destaque Espetáculo de Circo, com “Cir.co – minidicionário poético das artes circenses”. O mesmo espetáculo recebeu os Prêmios Açorianos de Circo 2024 de Melhor Espetáculo, Cenografia, Trilha Sonora, Iluminação e Melhor Performer de Acrobacia.

Luís Cocolichio, sócio e palhaço, ganhou o Prêmio Açorianos de Circo 2025 de Destaque Artista Circense com o espetáculo “Coisa-sonho – sobre objetos, invenções e mergulhos”.

Espetáculos que movimentam o espaço

Dentro da programação artística do espaço, há o “NoAr – Noites de Dança Aérea”, uma noite de apresentações aéreas com artistas locais e convidados. Além deste projeto, destacam-se eventos como o Cabarezito, espaço de apresentações de circo e variedades com o grupo e artistas convidados; os Seminários Híbridos – Noite de Estudos, mesa redonda com convidados para refletir e pensar sobre práticas do grupo; e o Encontro Livre Circo, aberto para treino e trocas livres entre artistas, praticantes e curiosos.

História do Circo Híbrido está nas paredes do local
História do Circo Híbrido está nas paredes do local | Crédito: Rafael Rosa

O Híbrido é eclético e participa, sempre, de várias iniciativas de circo. Participou, por exemplo, de festivais e eventos como Festival Movida Circo, Festival Internacional de Teatro de Rua, Convenção de Malabarismo e Circo de Florianópolis, Encontro Internacional de Palhaços SouRiso, Festival de Circo de Porto Alegre, 2º e 5º Festival Santa Maria Sesc Circo, em 2016 e 2019, Festival Porto Alegre em Cena, em 2019, 2022 e 2024, Mostra de Artes Cênicas do Teatro Glênio Peres, Teatro a Mil – Sesc/RS, em 2017 e 2023, Virada Sustentável 2023, Festival Lajeado Sesc Circo 2024, Circula Sesc – Artistas Gaúchos pelo Brasil 2024 e 19º Palco Giratório Sesc Porto Alegre.

Em 2010, participou da organização e produção da 12ª Convenção Brasileira de Malabarismo e Circo, que aconteceu em São Leopoldo (RS), e contou com o Prêmio Funarte Festivais de Artes Cênicas 2010, entre outros apoios.

“Levamos o circo para todos os lados, todos os cantos. Afinal, o circo é o local certo para se descobrir o corpo, um lugar onde se compartilha aprendizados para a vida”, conclui Borges.

Editado por: Marcelo Ferreira

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