SUCATEAMENTO

Trabalhadores denunciam ‘remoção compulsória’ e adoecimento após privatização da Copasa em MG

Audiência na ALMG cobra suspensão das transferências e aponta pressão para forçar demissões

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Copasa
Cerca de 3 mil dos aproximadamente 9 mil empregados da companhia estariam sendo pressionados a aceitar transferências para municípios distantes | Crédito: Divulgação/Sindágua

“A transferência de unidade, sem diálogo, provoca impactos muito sérios na vida do trabalhador e sua família. Não podemos permitir que essa categoria seja desrespeitada”. A declaração do deputado estadual Betão (PT), feita após audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), resume o clima de apreensão vivido por milhares de trabalhadores da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), que denunciam estar sendo submetidos a remoções compulsórias após a privatização da empresa.

Mesmo com a garantia de estabilidade por 18 meses conquistada pela categoria durante o processo de privatização, cerca de 3 mil dos aproximadamente 9 mil empregados da companhia estariam sendo pressionados a aceitar transferências para municípios distantes, em alguns casos a até 900 quilômetros da residência, sob o risco de terem que pedir demissão diante da impossibilidade de reorganizar a própria vida.

As denúncias foram apresentadas na última sexta-feira (3), durante audiência pública da Comissão do Trabalho, da Previdência e da Assistência Social da ALMG, realizada a pedido do deputado Betão. Sindicalistas, representantes do Ministério do Trabalho e especialistas relataram o agravamento das condições de trabalho e o aumento do adoecimento mental entre os funcionários.

Pressão, deslocamentos e impactos na vida dos trabalhadores

O diretor financeiro do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Estado de Minas Gerais (Sindágua), Wanderci Gomes, afirmou na audiência que empregados com quase quatro décadas de atuação em um mesmo município estão recebendo, por e-mail, determinações para se apresentarem em outras unidades da empresa.

Segundo ele, quando a nova lotação fica a até 75 quilômetros da cidade de origem, a Copasa não oferece qualquer ajuda de custo. Para deslocamentos entre 75 e 150 quilômetros, o auxílio é de R$ 1.621. Acima dessa distância, a indenização chega, no máximo, ao equivalente a um salário do trabalhador.

Na avaliação do dirigente sindical, os valores são insuficientes para custear mudanças, aluguel, transporte e demais despesas necessárias para a reorganização da vida familiar. Sem apoio psicológico e sem diálogo prévio, muitos trabalhadores acabam se vendo diante de duas alternativas: aceitar a transferência ou pedir desligamento da empresa.

Sindágua denuncia adoecimento e cita três suicídios

Durante a audiência, Wanderci Gomes chamou atenção para o impacto da medida sobre a saúde mental da categoria. Segundo ele, o sindicato tem registro de três casos de suicídio que podem estar relacionados ao agravamento das condições de trabalho após a privatização.

A denúncia também foi reforçada pela coordenadora do Fórum Sindical e Popular de Saúde e Segurança do Trabalhador, Marta de Freitas. “Nunca vi tanta maldade. De todos os processos de privatização que eu vivenciei, o da Copasa é inédito”, afirmou.

Ela criticou a empresa por, segundo sua avaliação, desconsiderar as exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR 1), que estabelece diretrizes para o gerenciamento de riscos ocupacionais, incluindo fatores psicossociais relacionados ao ambiente de trabalho.

De acordo com Freitas, a Copasa não apresentou um programa de gerenciamento dos riscos psicossociais, apesar das mudanças impostas aos trabalhadores.

O superintendente regional do Ministério do Trabalho em Minas Gerais, Carlos Alberto Calazans, afirmou que o órgão acompanhará as denúncias apresentadas na audiência. “Assim que eu tiver a data da reunião que vamos realizar para discutir todos os problemas oriundos da privatização da Copasa, entrarei em contato”, garantiu.

Comissão pede suspensão imediata das transferências

Como encaminhamento da audiência, o deputado Betão anunciou que solicitará a suspensão e a reversão das transferências, até que todos os casos sejam analisados.

O parlamentar pretende questionar a direção da Copasa sobre os critérios utilizados para determinar os deslocamentos, se houve consulta aos trabalhadores e aos representantes sindicais e se as medidas adotadas respeitam a NR 1.

Nas redes sociais, Betão afirmou que a remoção compulsória de cerca de 3 mil trabalhadores criou “um ambiente de trabalho insalubre, insatisfatório e de adoecimento mental”. Segundo ele, há indícios de que a estratégia esteja sendo utilizada para pressionar pedidos de demissão, apesar da estabilidade conquistada pela categoria durante o processo de privatização.

“A direção da empresa está pressionando a demissão de quase 30% de seus funcionários e funcionárias por conta desta medida”, escreveu o deputado.

Para o parlamentar, a empresa deve interromper imediatamente o processo de remoção e apresentar justificativas técnicas para cada transferência realizada. “Não podemos permitir que essa categoria, que se dedicou fielmente ao fornecimento de água potável e saneamento básico, seja desrespeitada”, concluiu.

Outro lado

A reportagem entrou em contato com a Copasa para esclarecer as denúncias apresentadas. Em nota, a empresa informou que as readequações e movimentações de pessoal fazem parte de um plano de reestruturação organizacional e modernização administrativa que vem sendo planejado e executado de forma gradual desde 2024, baseado em estudos técnicos de otimização operacional e que, portanto, tais medidas não possuem qualquer relação com a recente mudança na estrutura societária da companhia. 

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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