A ausência de uma regulamentação específica para a instalação de data centers de inteligência artificial (IA) em Minas Gerais tem despertado preocupação entre parlamentares, pesquisadores, movimentos sociais e especialistas em meio ambiente. Em audiência pública realizada na última quinta-feira (2), na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o consenso foi de que a falta de regras claras tem transformado o estado em um destino atrativo para grandes empresas de tecnologia, sem que haja garantias de transparência ou avaliação adequada dos impactos socioambientais desses empreendimentos.
O debate foi solicitado pela deputada estadual Bella Gonçalves (PT), após o anúncio da instalação de um centro de processamento de dados (CPD), conhecido como data center, da multinacional RT-One, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. O empreendimento prevê investimento de R$ 6 bilhões e é apresentado pela empresa como o maior parque tecnológico e data center de inteligência artificial da América Latina.
“A IA é importante, mas é urgente debater as consequências socioambientais desses empreendimentos”, defendeu Bella Gonçalves, durante audiência pública. Apesar da relevância do projeto, nem a empresa nem a Prefeitura de Uberlândia enviaram representantes para a audiência.
Para a deputada petista, o avanço acelerado dessas estruturas exige uma resposta do poder público. Segundo a parlamentar, ferramentas como ChatGPT, TikTok e outras plataformas digitais dependem de grandes centros de processamento de dados, que demandam enorme quantidade de água e energia elétrica para funcionar. “Isso tudo precisa de uma legislação bem consistente que nos proteja”, afirmou.
Falta de transparência gera questionamentos
A vereadora de Uberlândia Amanda Gondim (PSB) criticou a condução do projeto pelo Executivo municipal e denunciou falta de transparência durante o processo de implantação do empreendimento.
Segundo ela, ao solicitar informações à prefeitura, foi informada de que só teria acesso aos documentos caso assinasse um termo de confidencialidade imposto pela empresa responsável. “Estamos falando de algo muito robusto. Não é uma discussão contra o desenvolvimento econômico e tecnológico, mas sobre a necessidade de maior transparência e de uma regulação”, afirmou, durante a audiência.
De acordo com a parlamentar, os questionamentos sobre o projeto motivaram a abertura de um inquérito civil público no Ministério Público Federal (MPF). Ela relatou que a documentação apresenta informações divergentes sobre os impactos previstos.
Enquanto o município teria informado consumo diário de aproximadamente 239 mil litros de água, documentos atribuídos à empresa apontariam uma demanda que pode chegar a 1,7 milhão de litros por dia, além de aproximadamente 400 megawatts de energia elétrica.
Nas redes sociais, Gondim chamou atenção para a dimensão do consumo. “Essa estimativa equivale ao sexto maior bairro consumidor de água de Uberlândia. É muita água”, afirmou.
Ela também alertou que o empreendimento deverá ser instalado próximo a uma região periférica da cidade. “A gente está perto de um bairro que já é carente de equipamentos públicos e que agora vai receber esse empreendimento, sofrendo consequências como perturbação sonora, além das questões ambientais”.
Na avaliação da vereadora, existe o risco de que a chegada desses empreendimentos reproduza em Minas Gerais um modelo semelhante ao da mineração: grandes incentivos para atrair empresas multinacionais, poucos empregos permanentes e elevados impactos sobre os territórios.
Segundo a vereadora, os postos de trabalho prometidos concentram-se principalmente na fase de construção da estrutura, enquanto a operação cotidiana dos centros de dados demanda equipes reduzidas.
Especialistas alertam para impactos globais
Durante a audiência, a presidente do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin), Cynthia Picolo, afirmou que empresas têm migrado seus empreendimentos para países onde ainda não existem regras específicas para o setor. “Em cidades como Nova Iorque já há restrições, e esses centros migram para o sul global sem regulamentação, porque a frouxidão regulatória é um atrativo”, afirmou.
Ela também contestou a narrativa de que os data centers seriam empreendimentos ambientalmente limpos apenas por utilizarem energia renovável.
Segundo estudo elaborado pelo Lapin, entre 2020 e 2025, o Google registrou aumento de aproximadamente 73% nas emissões de gases de efeito estufa e de 177% no consumo de água. Já a Microsoft apresentou crescimento de 167% no consumo de energia no mesmo período.
Água disponível preocupa especialistas
A disponibilidade hídrica foi apontada como uma das principais preocupações envolvendo o projeto em Uberlândia. O diretor-geral do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), Marcelo da Fonseca, informou que até o momento não existe pedido de outorga de uso da água para esse empreendimento nem para outros data centers semelhantes em Minas Gerais.
Apesar de a região contar com importantes mananciais, ele alertou que a demanda já é elevada. “Próximas a Uberlândia, já há áreas de conflito por indisponibilidade hídrica para outorga”, afirmou. A preocupação foi reforçada por Sylvio Luiz Andreozzi, presidente do Conselho da Bacia Hidrográfica do Rio Araguari, que defendeu estudos aprofundados antes da implantação de projetos desse porte.
Já Wallace Alves, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do Meio Ambiente no Estado de Minas Gerais (Sindsema), questionou o argumento de geração de empregos utilizado pelas empresas para justificar os investimentos.
Para Esther Guimarães, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), a ausência de regulamentação exige cautela. Ela defendeu uma moratória para novos empreendimentos até que existam regras específicas para o setor.
CPDs da América do Norte consumiram quase 1 trilhão de litros de água em 2025
Enquanto Minas Gerais discute a necessidade de regulamentar a instalação de data centers, o debate sobre os impactos ambientais dessas estruturas já ganhou força em países onde as grandes empresas de tecnologia concentram suas operações. Nos Estados Unidos, sede de big techs como Google, Meta, Microsoft e Amazon, o consumo de água tornou-se um dos principais pontos de atenção de pesquisadores e órgãos reguladores.
Segundo levantamento da consultoria Mordor Intelligence, apenas os data centers da América do Norte consumiram quase 1 trilhão de litros de água em 2025, volume próximo à demanda anual da cidade de Nova York. O dado reforça as preocupações apresentadas durante a audiência na ALMG, especialmente sobre a pressão que empreendimentos desse porte podem exercer sobre os recursos hídricos.
Os próprios relatórios de sustentabilidade das empresas mostram uma tendência de crescimento no consumo de água. A Meta informou que, entre 2020 e 2024, o uso hídrico de suas instalações próprias aumentou 51%, chegando a 5.637 megalitros, quantidade suficiente para abastecer mais de 13 mil residências durante um ano. Já o Google divulga dados de unidades próprias e alugadas, enquanto Amazon e Microsoft apresentam apenas números consolidados, sem detalhar o consumo por instalação.
Para especialistas, a falta de transparência dificulta a avaliação dos riscos ambientais e da capacidade dessas empresas de mitigar impactos, como o consumo intensivo de água e a reposição dos recursos utilizados. O cenário internacional reforça os alertas feitos por pesquisadores e parlamentares na ALMG de que a expansão dos data centers precisa ser acompanhada por regras claras, monitoramento ambiental e participação da sociedade nas decisões.
Estado propõe discutir regulamentação
Representando o Governo de Minas, o secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Lyssandro Norton Siqueira, classificou o tema como novo e estratégico e sugeriu a criação de um grupo de trabalho para discutir uma regulamentação específica para os data centers.
A proposta foi acolhida pela deputada Bella Gonçalves, que também defendeu a inclusão desses empreendimentos na lista de atividades sujeitas ao licenciamento ambiental.
Segundo o secretário, o debate em Minas acompanha uma discussão internacional sobre o tema. Ele citou o lançamento recente de um pacto global voltado aos data centers urbanos, que propõe diretrizes como uso de energia de baixo carbono, reúso de água, planejamento urbano, participação das comunidades afetadas e geração de empregos qualificados.
Ao final da audiência, Gonçalves reforçou que o avanço acelerado dos projetos exige um debate público antes que a ausência de regulamentação produza impactos irreversíveis sobre os territórios. “Barulho, falta d’água e alto consumo de energia elétrica para quase não gerar emprego. Não estamos falando de um único projeto. Há vários empreendimentos querendo se instalar em Minas Gerais com essa mesma finalidade”, alertou a parlamentar na audiência.
O outro lado
A reportagem procurou a Prefeitura de Uberlândia para solicitar um posicionamento sobre as informações e os questionamentos apresentados nesta matéria. Até o fechamento desta edição, não houve retorno. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações e esclarecimentos.
