Na semana do Dia Nacional do Funk, celebrado no domingo (12), o cantor e compositor MC Bob Rum conversou com a Rádio Brasil de Fato, defendeu o reconhecimento do gênero como uma das principais expressões culturais populares do Brasil e cobrou investimento público na cultura periférica.
Autor de “Rap do Silva”, clássico dos anos 1990, o artista afirma que o funk abriu caminhos para jovens das comunidades e ajudou a transformar a forma como as periferias narraram a própria história.
“É uma alegria muito grande saber que esse movimento — assim como o samba, tão discriminado lá atrás — fez uma diferença enorme na vida de milhares e milhares de jovens das periferias, inclusive na minha”, afirmou MC Bob Rum.
Nome artístico de Moyses Osmar da Silva, MC Bob Rum marcou a história do funk carioca com uma música que atravessou gerações ao apresentar o funkeiro como trabalhador, pai de família, morador da periferia e frequentador dos bailes.
A canção ganhou força em um período em que o ritmo era alvo de forte preconceito e frequentemente associado à violência. O retrato construído em “Rap do Silva” vinha da convivência do artista com amigos de infância que frequentavam os bailes nos anos 1980 e 1990.
“Eu conheço meus amigos de infância, ninguém era envolvido com nada de errado, ninguém era bandido. Os caras eram trabalhadores, pais de família, simplesmente gostavam de um gênero musical que estava nascendo ali, que era algo novo”, relembrou.
Funk como necessidade
Um dos versos mais conhecidos da canção diz que “o funk não é modismo, é uma necessidade”. Quase três décadas depois, Bob Rum afirma que a frase ainda resume o papel do gênero nas periferias.
“O funk tem várias vertentes, assim como o samba, que tem o samba-enredo, o samba raiz, o partido-alto, o pagode, que é uma coisa mais romântica. E tudo não deixa de ser samba, apesar dessa ramificação. O funk é a mesma coisa”, comparou.
Para o artista, parte do preconceito contra o gênero nasce da tentativa de reduzir toda a produção do funk a uma única vertente.
“Tem o funk raiz, que é aquele lá de trás; tem o funk melody, que é mais romântico; tem o funk ostentação; e tem o funk mais coreográfico, que a galera gosta de dançar e rebolar. E eu acho que está tudo bem, porque o funk é tipo um self-service”, disse.
Ele também critica generalizações feitas a partir de determinadas letras ou estilos. “O maior problema é as pessoas dizerem: ‘Ah, eu não gosto desse tipo de funk que fala palavrão’. Beleza, mas pegar isso e achar que todo funk fala palavrão não é a verdade”, afirmou. “Assim como todo funk não fala de amor, assim como todo funk não fala só de dança. Tem o funk mais consciente, que fala das dificuldades e das mazelas das favelas”, completou.

Rap do Silva
“Rap do Silva” foi lançado originalmente em 1995 na coletânea Rap Brasil Vol. 2 e, posteriormente, consolidado em todo o país no álbum Está Escrito, lançado em 1996.
Bob Rum afirma que não tinha dimensão de que a música se tornaria uma das mais lembradas da história do funk. Antes de se ver como cantor, ele diz que se entendia principalmente como compositor, influenciado por artistas como Renato Russo e Cazuza.
“Eu não tinha em nenhum momento a pretensão de ser um cantor, de ser um artista, de subir no palco e fazer acontecer. Eu queria que as minhas músicas ficassem conhecidas no Brasil inteiro”, afirmou.
Na letra, Silva acorda cedo, joga futebol, beija os filhos, promete voltar para almoçar, pega trem lotado e se prepara para ir ao baile. Ao fim, é morto sem explicação. Para o cantor, o personagem segue atual porque sintetiza uma realidade ainda presente nas periferias brasileiras.
“Infelizmente, atravessou gerações, porque ainda hoje ela é muito atual. Nada mudou. O Silva, hoje em dia, é aquele cara que sai para trabalhar e perde a sua vida por causa de um celular ou por causa de um automóvel”, disse.
A permanência da música no imaginário popular está ligada à identificação do público com a figura do trabalhador comum. “Toda vez que acontece uma situação triste, uma tragédia, as pessoas associam logo: ‘Poxa, o cara era tão bom, o cara era um pai de família e estava passando na hora errada, no momento errado’”, avaliou.
Música popular brasileira
Bob Rum relaciona o surgimento do funk à falta de acesso da juventude periférica a opções de lazer e convivência. Antes do funk cantado em português, os bailes já reuniam jovens em torno da dança e da música negra.
“Era onde os jovens de periferia se reuniam para dançar. Não era o funk cantado em português, como nós conhecemos depois, mas já juntava a tribo da periferia, que se encontrava para dançar algo diferente que não fosse o samba”, explicou.
Esses espaços foram criados como forma de manifestação cultural própria diante da exclusão.
“O povo de periferia não tinha acesso aos grandes centros culturais por questões financeiras, por ‘N’ situações. Então, esse baile juntou a tribo: ‘Já que a gente não tem condições nem acesso a outros centros culturais, vamos criar a nossa forma de manifestar a nossa cultura’”, afirmou.
Ao falar sobre o lugar de “Rap do Silva” na história do gênero, Bob Rum faz uma comparação com “Rap da Felicidade”, de Cidinho e Doca.
“As pessoas que analisam, os pesquisadores mesmo, costumam dizer — e essa é a minha concepção — que o ‘Rap da Felicidade’ é o hino, o rap da comunidade, da favela. E o ‘Rap do Silva’ é o hino do indivíduo que mora na favela”, afirmou.
Para ele, essas obras devem ser reconhecidas como parte da música popular brasileira. “O ‘Rap do Silva’ e o ‘Rap da Felicidade’, entre outros, são a Música Popular Brasileira que veio do povo”, defendeu.
Cultura contra violência
Os ataques institucionais ao funk, como projetos de lei, repressão aos bailes e tentativas de censura, aparecem para Bob Rum como parte de uma disputa mais ampla em torno da cultura periférica.
Criado em comunidade, ele diz que o gênero abriu caminhos que antes pareciam distantes. Formado em Administração de Empresas, o artista cita a própria trajetória como exemplo do impacto que a cultura pode ter na vida de jovens das periferias.
“Aproveitei a oportunidade que o funk me deu para realizar tantos outros sonhos, e um deles era justamente ter a minha formação acadêmica. Se eu fosse um trabalhador normal, não teria condições de arcar com uma graduação”, disse.
Na avaliação do cantor, investir em cultura nas periferias também é uma forma concreta de enfrentar a violência.
“Se eu tivesse um pedido para fazer aos governantes, seria que investissem mais na cultura periférica, porque quanto mais cultura, menos violência. Isso é fato, é verdade, não é clichê não. Eu sou prova viva disso”, afirmou.
Direitos autorais
Além do preconceito e da criminalização, Bob Rum aponta a apropriação indevida de direitos autorais como um dos principais problemas enfrentados por artistas do funk.
Ao comentar a forma como “Rap do Silva” aparece em plataformas digitais, o cantor afirmou que a música foi produzida pelo DJ Ratinho e lançada pela Furacão 2000, com o empresário Rômulo Costa. “O DJ Marlboro não tem nada, zero, a ver com o ‘Rap do Silva’”, afirmou.
Bob Rum diz que a presença do nome de Marlboro em versões disponíveis nas plataformas está ligada a uma autorização para remix, mas afirma que isso não daria direito sobre a obra original.
“O principal problema do funk hoje é, justamente, a apropriação indevida dos direitos autorais do artista”, afirmou.

Orgulho da comunidade
Bob Rum também fala sobre identidade e pertencimento. Para o artista, a convivência nas comunidades foi uma das bases para o fortalecimento do funk.
“A comunidade é muito boa por causa disso, ela é eclética. Lá você encontra negão, loirinho, branquinho, anão. E é tudo amigo, tudo se divide, tanto nas tristezas quanto nas alegrias. Foi por isso que o funk deu muito certo”, avaliou.
O gênero também ajudou moradores de regiões periféricas a se orgulharem de seus territórios.
“Aqui no Rio, na década de 1990, o ponto-chave e o início para os jovens fazerem música era justamente o orgulho de onde moravam: ‘Moro em São Gonçalo’, ‘Gosto de Niterói’, ‘Eu sou o Marcinho de Bangu’, ‘Sou o Bob Rum de Santa Cruz’”, relembrou.
Esse movimento ajudou a transformar a forma como os próprios moradores olhavam para suas comunidades.
“Isso começou a trazer para os moradores dessas localidades um orgulho que até então não existia, porque viam como um lugar afastado de onde não saía nada de bom. O funk serviu para isso, para ser uma bandeira de autoestima para os moradores das comunidades”, afirmou.
Nova geração
Bob Rum vê com otimismo a nova geração do funk, que ocupa hoje plataformas digitais, festivais, publicidade e espaços internacionais. Para ele, a tecnologia ampliou o acesso de artistas que antes dependiam de programas de TV, gravadoras e grandes estruturas de divulgação.
“Essa galera que está chegando agora está levando o funk com a ajuda, obviamente, da modernidade, da tecnologia e das plataformas digitais, alcançando um espaço que nós não tínhamos”, afirmou. “Tem muitos talentos espalhados que estão aproveitando a oportunidade da tecnologia e mostrando o seu trabalho, desde o que tem menos seguidores até o que tem mais. Isso torna muito mais democrático o que cada jovem tem para falar, usando o funk enquanto manifestação cultural popular”, avaliou.
O cantor rejeita uma nostalgia com funk antigo que deprecia o novo.
“Não adianta aquela coisa de ‘ah, no meu tempo era melhor, agora é pior’. Não. Você tem que entender qual é o maior fundamento da música funk: dar oportunidade a quem estava esquecido”, disse.
Cadeia de trabalho
O Brasil ainda precisa entender, segundo Bob Rum, que o funk não se resume ao artista no palco. Para ele, o gênero movimenta uma estrutura econômica que vai da produção dos bailes ao trabalho informal no entorno dos eventos.
“Por trás de um artista no palco, esse movimento mexe com uma gama muito grande de pessoas. Não é só quem está cantando. São os produtores, o pessoal que carrega a caixa de som, os caras que têm o equipamento, os garçons que saem de casa para trabalhar num clube para levar o sustento para a família, até aquele cara mais humilde que pede para vender uma balinha lá dentro para levar um dinheirinho, a tia que bota um milho cozido. É toda uma estrutura em volta do funk, não é só a música”, afirmou.
O cantor defende que o poder público crie espaços adequados para os bailes, em vez de apenas reprimir manifestações culturais nas periferias.
“Vamos criar um local para esses jovens curtirem o som que eles gostam sem atrapalhar a vida daquele que não gosta, tornando isso um padrão como temos em tantos outros estilos musicais. É dar apoio para poder fazer bem-feito, adequadamente e dentro da legalidade”, defendeu.
Para Bob Rum, o funk precisa de reconhecimento, investimento e profissionalização.
“O funk não é só modismo, é necessidade. O funk gera emprego, o funk tira o jovem de um pensamento errado. E mesmo que não seja para cantar ou escrever, o cara vê uma oportunidade porque gosta de fotografia e vira um fotógrafo, vira um filmmaker, vira um gestor de redes sociais”, disse.
“Daí surge a necessidade de um apadrinhamento verdadeiro das autoridades, dando condições de profissionalizar o funk”, completou.
