Em 1999, eu visitei a Caatinga baiana. Lá, eu escutei coisas. Caminhando pela cidade de Pilar, ouvi música: era um… vanerão? Como assim? Não estou em Vacaria! Aproximei-me, mas era um ritmo local. Caminhei mais e escutei um xote. Um xote-carreirinha? Tem gaúcho na área? Não, era um xote pé de serra. Passei os dias naquele teletransporte sonoro entre a Caatinga e o Pampa. Eu nunca tinha notado as semelhanças melódicas. Até que, mais tarde, Caetano Veloso disse: “O Rio Grande do Sul é a Bahia…”. Pensei: é isso. Depois vi que não era bem disso que ele falava. Caetano criticava a dissolução da diversidade regional pela padronização da música popular. Mas o mote já havia me conduzido a outra conclusão.
Lembrei que não estava solitário nessa viagem; recordei-me dos versos de Jerônimo Jardim, em “Eu vim do Sul”, que queria misturar o xote gaúcho com o xote do sertão, que trazia “o fandango, que é primo do arrasta-pé / a sanfona do forró é acordeona no baião“. Esses versos se encaixavam exatamente no que havia observado. Mas, naquele momento, eu não havia me atentado para o principal, aquilo que o refrão repetia. Anos depois, trabalhando na Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF), soube que havia uma ligação importante entre Pedro Raymundo e Luiz Gonzaga. Alguém diria: “Mas o que isso tem a ver com a tua viagem à Bahia? Gonzaga não é baiano”, mas veja que Pedro Raymundo também não era rio-grandense. A cultura gaúcha, assim como a sertaneja, tem o seu próprio território — aquele que não se vê nos mapas.
Na FIGTF, trabalhávamos com o acervo do Museu do Disco Regional que, além dos discos, tinha um rico material hemerográfico de apoio. Li, na Revista Brasileira de Folclore, que eles, Gonzaga e Raymundo, se encontraram no Rio de Janeiro. Na época, com “Adeus, Mariana”, Raymundo estava fazendo grande sucesso. Pedro Raymundo chegou ao Rio com a pilcha completa: chapéu grande, bombachas, pala, botas e lenço no pescoço. Luiz Gonzaga, que tinha uma sagacidade bem acima da média, percebeu que aquele aparente absurdo, que parecia uma fantasia, tratava-se, na verdade, de outra coisa: a expressão de um artista que não tinha vergonha da sua gente, da sua cultura, do seu habitus. Para Pedro Raymundo, a vestimenta era obrigatória: ele cantava no Pampa para o Pampa. Gonzaga, mesmo não sendo retirante, era um retirante; estava fora do seu habitat. Entretanto, no Rio e em São Paulo, a nação nordestina se fazia presente.
O Rei do Baião notou a aceitação que o gaúcho tinha, mesmo fora do Rio Grande do Sul. Em uma entrevista para O Pasquim, disse: “Quando mandei buscar meu chapéu de couro no sertão, eu já estava vendo Pedro Raimundo na Rádio Nacional abafando”. Lua, percebendo-se um entre os seus, começou a “sentir-se nu”. “Ele é gaúcho, eu vou ser cangaceiro. Eu queria cantar o Nordeste, já estava cheio daquela gravatinha”. Primeiro, vestiu-se de cangaceiro; demorou um pouco, mas acabou vendo que não era exatamente aquilo que expressava o seu povo. A composição definitiva da sua imagem ocorreu quando um primo seu foi assassinado; ele exercia o ofício de boiadeiro. O primo também se chamava Raimundo: “Numa tarde bem tristonha, / Gado muge sem parar / Lamentando seu vaqueiro / Que não vem mais aboiar“, de “A Morte do Vaqueiro”. Gonzaga entendeu que eles, os vaqueiros do Nordeste, eram os fortes do sertão. Gonzagão colocou a couraça dos sertanejos: chapéu de couro, perneiras e gibão.
Mas, segundo o próprio Gonzaga, não foi só no conceito de vestimentas e de identidade regional que Pedro Raymundo o influenciou. Ele apreciava ver “aquele gaúcho alegre, tocando, dançando, improvisando, fazendo versos e conversando, contando prosa…”. Todas essas coisas são comuns a dois povos que, equidistantes do centro, se irmanam como se houvesse um portal mágico a ligá-los.
Em entrevista, Santanna, O Cantador, deu talvez o relato mais elucidador sobre essa unidade musical. Santanna contou que quis saber de Gonzaga qual era a sua influência musical mais importante. Ficou pasmo com a resposta: “Já ouviu falar num gaúcho chamado Pedro Raymundo? Foi esse cara aí que me influenciou”. E demonstrou o que dizia, lembrando que, em seus primeiros trabalhos, dá para notá-lo “cantando e imitando a voz, e eu tocando e imitando ele, a sanfona dele”. Nesse período, ele já havia se transformado no senhor supremo da cultura nordestina. Santanna conclui: “Então a gente tem as duas nações brasileiras, que é a nação gaúcha e a nação nordestina, né? As duas têm essa simbiose”.
Não! Não são as únicas; há as nações indígenas, por exemplo, e há uma cultura pantaneira forte. Mas veja os quesitos para nação: “Identidade Cultural”, confere; “história compartilhada”, confere; “sentimento de pertencimento”, confere!
Pensando bem, não há surrealismo nessa história. Eu, mesmo sem ser etnomusicólogo, percebi de ouvido, em Pilar, essa célula comum das músicas sertanejas e gaúchas. Esse parentesco que Santanna chama de simbiose. A sanfona e a gaita, o pala e o gibão, a zabumba e o bumbo leguero, o fandango e o fuá… Talvez a vida menos mutável do interior tenha reservado um tempo histórico mais comum aos povos do campo — das coxilhas e dos sertões —, sei lá, só sei que “Lá no meu rádio só se ouvia Gonzagão / Mas o vizinho tocava Pedro Raymundo”.
*Giovanni Mesquita é historiador e museólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
