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O Pantanal e o agronegócio: um ecocídio

Se a sociedade não reagir em outubro, de modo a substituir a Bancada do Boi pela do Bio, será em breve tarde demais

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Brigadistas da comunidade quilombola Kalunga, em Goiás, chegam ao Pantanal como reforço na equipe do Prevfogo/Ibama e enfrentam vegetação densa em seu primeiro dia de combate na região.
Brigadistas da comunidade quilombola Kalunga, em Goiás, chegam ao Pantanal como reforço na equipe do Prevfogo/Ibama e enfrentam vegetação densa em seu primeiro dia de combate na região. Corumbá (MS), 30/06/2024. | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Pantanal, “o reino das águas”, Patrimônio Nacional (Constituição de 1988) e Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera (ONU, 2000), é tradicionalmente considerado a maior planície alagada do mundo. Esse bioma transfronteiriço se estende por três países: Bolívia (53.320 km2), Paraguai (8.520 km2) e Brasil (151.134 km², segundo o IBGE 2017).

Com cerca de 65% desse bioma em território brasileiro no Mato Grosso do Sul e o restante no estado do Mato Grosso, apenas 5,2% do Pantanal brasileiro está protegido em Unidades de Conservação, embora possua uma densidade sem par de biodiversidade descrita: 124 espécies de mamíferos, sendo duas endêmicas, 325 espécies de peixes, 41 espécies de anfíbios, 113 espécies de répteis, 463 espécies de aves e cerca de 3.500 espécies de plantas, muitas com enorme potencial medicinal.

Essa riqueza singular de vida está ameaçada, pois o Pantanal é um dos principais teatros do ecocídio perpetrado pelo agronegócio em nosso país desde a ditadura militar. Entre agosto de 2000 e julho de 2025, o agronegócio foi o principal vetor da supressão de 16.470 km2 da vegetação nativa pantaneira, como mostra a Tabela 1.

Fonte: Inpe, TerraBrasilis, Prodes, Desmatamento.

Como se vê, mais de 10% da cobertura vegetal nativa do Pantanal brasileiro foi completamente suprimida apenas no primeiro quarto do século XXI.

Extensão do território devastado por incêndios criminosos no Pantanal 

Isso posto, muito maior ainda que a área da supressão dessa cobertura foi a da destruição do Pantanal pelo fogo, sobretudo para a expansão da pecuária. Apenas entre janeiro e agosto de 2020, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou um total de 10.153 focos de incêndio no Pantanal, um número superior à soma dos focos de incêndios dos seis anos anteriores, de 2014 a 2019 (10.048). A perícia apurou que o objetivo dos incêndios em ao menos duas áreas pantaneiras foi “a criação de área de pasto para gado”.

Além disso, a Polícia Federal reuniu provas suficientes para indiciar quatro fazendeiros em cujas propriedades o fogo iniciara simultaneamente no dia 20 de junho de 2020. De resto, “segundo testemunhas, dias antes de mandar seus funcionários colocar fogo nas propriedades, os fazendeiros providenciaram a retirada de todo o gado”. Os incêndios de 2020 atingiram cerca de um terço de toda a extensão do Pantanal. Eis a estimativa da área queimada no Pantanal apenas nesse ano:

“Os resultados mostraram uma precisão geral de 95,9% e uma estimativa de 44.998 km² queimados na porção brasileira do Pantanal, resultando em grave destruição do ecossistema e perda de biodiversidade nesse bioma. A área queimada estimada neste trabalho foi superior aos resultados estimados pelos MCD64A1 (35.837 km²), Fire_cci (36.017 km²), GABAM (14.307 km²) e MapBiomas Fogo (23.372 km²), que apresentaram precisões inferiores”.

Quanto aos ecossistemas atingidos nesse ano, “cerca de 31% dos incêndios ocorreram em áreas cobertas por florestas, 32% em pastagens e 28% em áreas úmidas, totalizando 91% de todas as deteções de incêndios”. A mortandade animal causada por esse crime hediondo foi imensa, pois os incêndios de 2020 mataram ao menos 17 milhões de animais. A cada km², foram calcinados em média mais de 217 vertebrados, em um dos maiores crimes de ecocídio em toda a história do Brasil.

Em setembro de 2020, durante uma reunião de Bolsonaro com seus ministros, a pergunta de uma menina sobre os incêndios no Pantanal provocou uma gargalhada geral, tal como dá testemunho um vídeo vazado. Esses incêndios de 2020 foram, em grande parte, o resultado do desmonte das políticas ambientais por Bolsonaro, conforme denúncia da Associação Nacional dos Servidores de Meio Ambiente (Ascema Nacional), através do relatório “Cronologia de um Desastre Anunciado”, que reúne evidências a respeito.

Os incêndios pantaneiros continuaram nos anos sucessivos. Segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA/UFRJ), em 2021 o Pantanal teve 1.945.150 hectares, pouco mais de 19 mil km², consumidos pelas chamas. Em 2022, sempre segundo o LASA, a área queimada foi de quase 3,2 mil km², mas em 2023, ela saltou para quase 9,5 mil km², levando o governo do Mato Grosso a decretar emergência ambiental.

Entre 1985 e 2023, os incêndios queimaram 89 mil km² do Pantanal. Desse total, 72 mil km² sofreram pelo menos dois incêndios nesse período. E, no primeiro semestre de 2024, a área queimada nesse bioma atingiu mais 468.547 hectares, ou quase 4,7 mil km², em um total de 93 mil km² ou 62% da área do Pantanal no Brasil. Após uma queda espetacular da área queimada em 2025, o Pantanal deve sofrer outro surto de incêndios em 2026 com o advento do El Niño.

O Pantanal está secando

    Eis o diagnóstico de Eduardo Rosa, do MapBiomas (coleção 9, 2024):

    “O Pantanal já experimentou períodos secos prolongados, como nas décadas de 1960 a 1970, mas atualmente outra realidade, de uso agropecuário intensivo e de substituição de vegetação natural por áreas de pastagem e agricultura, principalmente no planalto da Bacia do Alto Paraguai, altera a dinâmica da água na bacia hidrográfica.”

    Essa advertência foi referendada por um estudo recente, repercutido no Jornal da Unesp, com o título: “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos”. Os dois mapas da Figura 1 mostram a redução da superfície de água do outrora “reino das águas”.

    Mapas mostrando a superfície das águas superficiais no Pantanal em 1985 e em 2023. Fonte: Carolina Fioratti, “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp”, Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

    Em setembro de 2024, Marina Silva alertou: “O diagnóstico é de que poderemos perder o Pantanal até o final do século”. A avaliação de Carlos Nobre é ainda pior: mantido o ritmo atual de sua destruição e de sua desidratação, o Pantanal pode desaparecer até 2070, posto que já perdeu 30% de sua área. O diagnóstico de Sérvio Justino, primeiro autor do trabalho acima citado, reitera o de Carlos Nobre: “Uma área que antes seria alagável, hoje é uma área de pastagem. (…) Se continuarmos nesse ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui a 40 ou 50 anos”.

    Substituir a Bancada do Boi pela Bancada do Bio

    A destruição dos nossos biomas é o projeto do agronegócio para o Brasil. Em 17 de junho de 2026, fazendeiros obstruíram a consulta pública para a criação do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra, em Mato Grosso do Sul. Ocuparam o Auditório da Prefeitura de Bodoquena, gritando “fora” aos funcionários do ICMBio, de modo a travar qualquer possibilidade de avanço na proteção do que resta do Pantanal. Se a sociedade brasileira não reagir em outubro, de modo a substituir a Bancada do Boi pela Bancada do Bio, será muito em breve tarde demais. Não haverá quase nada a conservar de um dos mais preciosos e insubstituíveis tesouros do patrimônio natural do Brasil.

    *Luiz Marques é historiador e pesquisador, cofundador do curso de pós-graduação em História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-curador-chefe do Museu de Arte de São Paulo.

    **Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

    Editado por: Gia Matheus Almeida

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