O presidente chinês, Xi Jinping, defendeu nesta sexta-feira (17) uma “ampla cooperação internacional” para que os países do Sul Global fortaleçam suas capacidades em inteligência artificial, para “fechar a brecha digital e a de IA”, promover o desenvolvimento sustentável e “evitar causar nova injustiça histórica”. O discurso abriu a Conferência Mundial de Inteligência Artificial deste ano, e a Reunião de Alto Nível sobre Governança Global da IA, em Xangai.
A conferência, realizada anualmente desde 2018, reuniu neste ano o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev; os primeiros-ministros do Camboja, Hun Manet, e da Tailândia, Anutin Charnvirakul; e o secretário-geral da ONU, António Guterres. A abertura também marcou a assinatura do acordo de criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, proposta pela China na edição do ano passado.
Capacitação, centros regionais e alertas de desastres
Xi anunciou que, “para apoiar ainda mais o desenvolvimento global da IA e promover a capacitação global em IA”, nos próximos cinco anos, a China vai oferecer 5 mil vagas em programas de formação e seminários sobre IA a países em desenvolvimento. Ele também anunciou que o país vai construir centros internacionais de cooperação em aplicações de IA com a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático), a Liga Árabe, a União Africana, a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), a OCX (Organização de Cooperação de Xangai) e o Brics.
A terceira medida é a extensão a 30 países do MAZU, sistema de alertas antecipados de desastres baseado em inteligência artificial. A sigla em inglês significa Alerta Universal para Múltiplos Riscos sem Lacunas, mas o nome, em mandarim, é também o da deusa dos mares que protege pescadores e marinheiros. Versões da ferramenta foram doadas ao Djibuti e à Mongólia durante a conferência do ano passado.
“A China acredita que todos os países devem adotar uma abordagem centrada no povo e desenvolver a IA para o positivo e para o bem. Devemos assegurar que a IA seja um motor importante da prosperidade compartilhada e da segurança comum. Devemos unir esforços para construir um sistema justo e equitativo para a governança global da IA”, disse Xi sobre a abordagem chinesa sobre a IA.
Desafios diante do aumento da desigualdade
O presidente chinês disse que é preciso “unir forças para construir um sistema justo e razoável de governança global da IA”, e questionou “Como podemos tornar realidade uma IA para todos quando a desigualdade continua aumentando?”.
Em função disso, Xi apresentou quatro observações. A primeira é o aproveitamento de “oportunidades históricas raramente vistas para incentivar o código aberto, a abertura, a colaboração e o compartilhamento”.
Em segundo lugar, o mandatário chinês defendeu a necessidade de “fortalecer nossa consciência sobre os riscos e garantir que a IA seja segura e controlável”. A IA deve ser “uma ferramenta confiável para a humanidade”, com leis, monitoramento tecnológico e sistemas de alerta e resposta que a mantenham “sempre sob controle humano”. No mesmo ponto, Xi condenou a generalização do conceito de segurança nacional no campo da IA e à sobreposição da “segurança de um país à dos demais”.
Essa é uma crítica que a China faz de forma frequente aos Estados Unidos. Em outubro do ano passado, em meio à guerra comercial entre os dois países, o Ministério do Comércio da China afirmou em comunicado que, “por um longo tempo, os Estados Unidos têm estendido excessivamente o conceito de segurança nacional, abusando do controle de exportação, tomando ações discriminatórias contra a China e impondo medidas de jurisdição extraterritorial unilateral em vários produtos, incluindo equipamentos e chips de semicondutores”.
A terceira observação defende que o desenvolvimento da IA não corroa a diversidade das civilizações e que os valores da tecnologia sejam moldados “com os valores comuns da humanidade”. A quarta pede a prática do “verdadeiro multilateralismo”, com reconhecimento do papel da ONU e a construção, o quanto antes, de um quadro de governança global baseado em consenso.
Xi lembrou que 2026 marca o início do 15º Plano Quinquenal e afirmou que as indústrias centrais da economia inteligente do país já valem ao menos 1 trilhão de yuans (cerca de R$ 780 bilhões).
A Conferência de IA na China
Na edição de 2025 da conferência, o primeiro-ministro Li Qiang propôs a criação da organização mundial de cooperação fundada nesta sexta-feira (17). No mesmo discurso, o premiê defendeu a superação de “gargalos” como “a falta de chips de computação de ponta” e as restrições à troca entre empresas e talentos, em referência às mesmas barreiras criticadas agora por Xi.
Li Qiang também criticou o individualismo tecnológico ao defender a construção coletiva do conhecimento sobre IA. “As inovações individuais são como faíscas dispersas, que podem facilmente se apagar, enquanto a sabedoria coletiva pode inflamar umas às outras e incendiar a pradaria”, disse o premiê, em alusão ao provérbio chinês reinterpretado por Mao Zedong em 1930 na carta “Uma faísca pode incendiar toda a pradaria”.
