No último domingo (2), o assentamento Che Guevara, em Moreno, Região Metropolitana do Recife, reuniu mais de 500 pessoas em um encontro de povos de terreiro, estabelecendo conexões entre a ancestralidade espiritual afro-indígena e a luta política pela terra, alimentação saudável e futuro sustentável do planeta. O evento foi organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), contando com lideranças políticas e religiosas de terreiros espalhados pelo Agreste, Zona da Mata e Região Metropolitana.
As lideranças do evento também estiveram, em seus diálogos, empenhadas no fortalecimento da candidatura da deputada estadual Rosa Amorim (PT), cria do MST, à Câmara Federal. “Nós estamos em um assentamento e, nos terreiros, também fazemos assentamento (moradas materiais construídas em bacias para os orixás). Vamos todos fazer essa demarcação, esse aqui é um assentamento da reforma agrária, um espaço conquistado pelo povo. Viva os terreiros de Pernambuco e viva o povo de axé”, declarou Rosa Amorim.
Entre as diversas lideranças religiosas presentes nas mesas realizadas, estiveram nomes como João Monteiro, historiador e articulador cultural das religiões de matriz afro-indígena em Pernambuco, e Vera Baroni, coordenadora da Rede de Mulheres de Terreiro em Pernambuco. De Minas Gerais, veio a Makota Célia Gonçalves, coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira, que diz ter saído do evento com esperanças renovadas para um futuro em que a realidade dos povos de terreiro encontre um debate e uma defesa mais ampla dentro da política institucional, algo fundamental diante dos avanços da extrema-direita pautada pelo racismo religioso.
“O mais importante desse encontro é ver que o povo preto e de axé está fazendo essa disputa política. Saio muito gratificada em ver mais de 500 pessoas dispostas a conversar, buscar informações e se posicionar, entendendo que, na política, é a vida delas que está em jogo”, diz a Makota Célia Gonçalves.
Ela vê, no trabalho político dos sem-terra, uma inspiração para esses embates. “O MST sempre foi o maior sinônimo que temos de movimento social e popular, então é um grande avanço ver a organização fazer essa disputa também no parlamento brasileiro, algo que me deixa esperançada e renovada”, complementa. Como símbolo dessas sementes plantadas, foram distribuídas 800 mudas de jurema branca, preta e baobás, plantas ligadas à espiritualidade africana e indígena.
Dentre as lideranças culturais locais, também esteve presente o Mestre Biu, presidente do Maracatu Nação Sol Brilhante e idealizador da Sambada do Mestre Biu, além de integrar o terreiro Mãe Odete de Oxóssi, no Recife. Ele avalia que o campo do assentamento foi um local mais que ideal para a realização do encontro, em que os pés se encontravam com uma terra de luta e onde puderam nascer articulações culturais, religiosas e políticas. “É um grupo ainda muito pequeno que temos atuando contra as bancadas que atacam os povos de terreiro, aquilombados e indígenas na política. Então, precisamos levantar mais pessoas que se comprometam ou que vivam essa bandeira, sobretudo à nível federal”, afirma o Mestre Biu.
Também participaram lideranças políticas, como os candidatos a deputado estadual João Paulo (PT), Eugênia Lima (PT), Jô Cavalcanti (Psol) e representantes do mandato de Dani Portela (PT). Quem também esteve presente foi João Pedro Stédile, dirigente nacional e um dos fundadores do MST.
Stédile esteve em Pernambuco neste último fim de semana, onde ministrou uma aula sobre a questão agrária e participou de um ato político no encerramento da terceira edição da Feira da Reforma Agrária, no Recife. Em Moreno, o dirigente histórico fez questão de destacar que aquele solo onde se davam as atividades era fruto de luta. “Com a força do povo, nós recuperamos essas terras das usinas, hoje é um território livre. E aqui quem manda é a classe trabalhadora”, declarou Stédile na ocasião do encontro.
