FESTIVAL DO CORETO

Juventude consome e produz cultura em um dos maiores festivais de hip hop do Triângulo Mineiro

Iniciativa consolidou Uberlândia como uma referência no circuito das batalhas de rima

No audio source provided.
1234
Batalha do Coreto | Crédito: Miriam Fidelis

No dia 18 de julho, o bairro Luizote de Freitas, em Uberlândia, recebeu a segunda edição do Festival do Coreto, hoje considerado um dos maiores festivais de hip hop do Triângulo Mineiro. Com entrada gratuita e realizado em praça pública, o evento reuniu batalhas de rima entre MCs locais e nomes de destaque da cena nacional, apresentações musicais, slam, oficinas, atividades para crianças e uma ação solidária  de arrecadação de alimentos.

O festival é resultado de uma construção iniciada em 2017, com o nascimento da Batalha do Coreto. Ao transformar o centro da cidade em um espaço permanente de cultura, encontro e convivência para a juventude, a iniciativa ajudou a impulsionar uma nova geração de artistas e consolidou Uberlândia como uma referência no circuito das batalhas de rima do interior do país.

Agora realizado no Luizote de Freitas, um dos bairros mais populosos de Uberlândia, o festival leva essa construção para a periferia e reafirma a potência da juventude como parte central da cena cultural uberlandense. Mais do que um público, a juventude periférica ocupa o espaço de quem cria, produz, organiza e movimenta a cultura. A realização de um evento desse porte em uma praça pública mostra que existe uma juventude que deseja ocupar a cidade, produzir arte e construir espaços de convivência e expressão a partir dos próprios territórios.

A entrada gratuita também amplia o acesso ao evento e reforça seu caráter de coletivo. O público é convidado a contribuir voluntariamente com alimentos não perecíveis, que são destinados a famílias em situação de vulnerabilidade. Na primeira edição, a iniciativa arrecadou mais de uma tonelada de alimentos.

Idealizado e organizado por Rafaela Rodrigues, conhecida como RJay, o festival reuniu 16 batalhas até a definição do grande campeão e recebeu cerca de 6 mil pessoas em sua segunda edição. O grande vencedor da noite foi Big Mike (SP).

A experiência do Festival do Coreto evidencia algo que ainda é frequentemente ignorado pelas políticas culturais: a juventude da periferia não está apenas esperando para consumir cultura. Por isso, fortalecer iniciativas como o Festival do Coreto significa também reconhecer a juventude como protagonista da produção cultural e defender políticas públicas permanentes que garantam condições para que essa potência continue existindo.

Para compreender esse cenário, o Brasil de Fato MG entrevistou Rafaela Rodrigues. Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato MG – Quando você começou a organizar a Batalha do Coreto, que cena do hip hop existia em Uberlândia? O que estava faltando para a juventude que rimava na cidade? 

R JAY –  Quando eu comecei a organizar o Coreto, existia uma cena efervescente em Uberlândia. Tínhamos outras batalhas, como a da Z.O., a Rima na Praça e a da Bicota, e muitos jovens, MCs e artistas animados para fazer música e rimas de improviso. Naquela época, havia menos eventos do que hoje, então faltavam espaços, ações e lideranças para organizar atividades, mas, mesmo com poucos recursos, éramos muito ativos e fazíamos tudo com qualidade.

Porém, em outubro de 2016, o Bruno Silva, criador e organizador da Batalha da Z.O., faleceu. Esse acontecimento abalou profundamente a cena, que praticamente paralisou. Eu mesmo tinha dado uma pausa por causa dos estudos, todos ainda estavam muito impactados, com poucas atividades acontecendo. Faltou, naquele momento, mais pessoas para impulsionar o movimento. Algumas tentativas surgiram, mas foram insuficientes.

Foi então que pensei: “Preciso voltar. Tem que acontecer alguma coisa aqui.” Como já tinha experiência em organizar outras batalhas, decidi criar a Batalha do Coreto. E, a partir daí, o negócio só cresceu. Felizmente, o movimento foi só para cima.

R-jay no palco, organizadora e apresentadora do Festival do Coreto / Foto: Amanda de Castro

Você costuma dizer que existe um antes e um depois da Batalha do Coreto. Quais transformações você consegue enxergar olhando para esses oito anos? 

Existe um antes e um depois da Batalha do Coreto. Os MCs mais novos falam disso com vontade de ter vivido aquela época ou de participar de um coreto hoje. Eles acham incrível, querem essa chance e conhecem as lendas e as histórias.  

O Coreto foi fundamental para o crescimento e fortalecimento da cena, expansão da cultura, aumento de público e formação de novos MCs. Surgiu uma quantidade enorme de artistas e gente nova. Antes, a gente mal fechava uma chave com oito, no máximo dez MCs, mas com o Coreto teve dia que chegou a 32 MCs, e a galera chegava às cinco da tarde na praça para segurar vaga, com a plateia sempre enorme. O Coreto também exponenciou outras batalhas na cidade, organizadores se inspiraram na gente e novas batalhas surgiram, a cultura ganhou reconhecimento, as pessoas passaram a saber o que é batalha de rima, a respeitar mais, a gostar mais, e fomos reconhecidos pela Secretaria de Cultura.

Antes do festival, já vinha gente de Goiás, São Paulo e do Triângulo. Depois, o nome do Coreto estourou para fora de Uberlândia e de Minas, foi para o Brasil inteiro. MCs convidados para a segunda edição já conheciam o festival e tinham assistido os vídeos. Nomes importantes da cena passaram a nos seguir, parabenizar e pegar referências. 

O reflexo apareceu nas outras batalhas da cidade: todas tiveram aumento de público e de MCs. A Batalha da Central recentemente organizou uma batalha de trio e deu 26 MCs. As fotos no Glória mostram o crescimento que aconteceu. 

O Coreto marcou um antes e um depois em vários sentidos: na cena, no público, na arte, nos novos talentos. E também na resistência da própria cultura na cidade. A gente fala: somos uma cultura, uma prática artística e legítima. Estamos aqui, vamos continuar e fazer acontecer. Isso é hip-hop.

Durante muito tempo vocês sustentaram esse projeto praticamente sozinhos. Quando um edital público passa a investir na iniciativa, o que muda? 

Muda absolutamente tudo. A gente pode valorizar o nosso próprio trabalho, valorizar a arte local, ter recurso para investir naquilo que a gente realmente precisa e merece. Porque a gente saiu de um movimento que sempre fez resistência ali na praça, sem caixa de som, sem microfone, e mesmo assim lotava a praça, e foi para um festival reconhecido no Brasil inteiro, com estrutura, qualidade, valorização dos artistas e trazendo ícones nacionais das rimas.

A política pública, o fomento e o incentivo à cultura são mais que necessários, são primordiais. A gente passa a ter acesso a um recurso que nunca teve, a ponto de não saber nem precificar o próprio trabalho. Quanto você cobra para ser mestre de cerimônia? Não sabia. Porque a gente fez isso tanto tempo na raça e de graça, por puro amor e resistência, que não sabia colocar preço no que a gente sempre soube que tinha muito valor. Mas o preço a gente nem sabia que existia essa possibilidade.

Com o recurso, a gente pode investir em equipamento, estrutura, logística, cachê para os artistas, valorizar a arte local e movimentar a economia criativa de Uberlândia e região. A gente se remunera, se profissionaliza como classe artística e aumenta o alcance dentro e fora da cidade. É um recurso que pega algo com potencial gigantesco e faz florescer, criar frutos e se fortalecer ainda mais. E não só no Coreto, reverbera na cena como um todo.

É como eu disse no documentário “Entre Linhas”: não falta cultura, falta fomento à cultura. Você não leva cultura a lugar nenhum, o lugar já tem cultura. Uberlândia tem sua cultura, nós somos a cultura de batalha de rimas da cidade. Nunca faltou batalha, faltou incentivo, fomento, espaço, política pública, respeito e valorização. Mesmo assim, a gente resistiu, continua resistindo, e olha onde estamos chegando. Que tenhamos cada vez mais políticas públicas culturais investidas em nós.

Se daqui a dez anos alguém contar a história do hip hop em Uberlândia, qual papel você espera que a Batalha do Coreto tenha ocupado? 

Eu espero que o Coreto ocupe um papel de muita importância para a cena, não só enquanto batalha, mas como um movimento cultural que, para além das rimas, contribui significativamente para o fortalecimento e crescimento do hip hop da cidade. Algo que inspire gerações de MCs, que ajude a tornar nossa prática cultural cada vez mais legítima, reconhecida e respeitada pelos setores públicos e pela sociedade em Uberlândia. Que tenha contribuído para os artistas serem valorizados e que tenha inspirado e ajudado a formar mais batalhas, mais MCs, mais público na cidade inteira.

Mas o Coreto vai além disso. Ele ocupa um papel muito importante na vida dos MCs, enquanto batalha, competição e, principalmente, enquanto pessoa. A gente sempre ouve que ‘o hip-hop salvou minha vida’. E eu já ouvi várias vezes: “o Coreto salvou minha vida”, “o Coreto é muito importante pra mim”. Depois do festival, um moleque me trombou na Batalha da Central, me pediu um autógrafo, agradeceu muito e falou: “Pô, Jay, esse Coreto salvou minha vida, esse festival salvou minha vida, você não tem noção”. Ele falou que estava em casa, com depressão, sem saber o que fazer da vida, e lá no festival estava ele, alucinado de alegria, e posteriormente na Batalha da Central e Glória, acompanhando a cena.

É muito louco como a batalha de rima e os eventos transcendem as nossas próprias intenções. A gente fala “vou organizar uma batalha” e, sem saber, tá salvando vidas, tirando as pessoas da tristeza de casa pra ser feliz fazendo rap, se sentindo em casa, se sentindo vivo. Eu já ouvi isso outras vezes e espero que o Coreto continue ocupando esse papel central na vida dos MCs e do público, em uma escala maior, e que a gente possa continuar fazendo acontecer. E quando eu falo “a gente”, são todos que fazem isso ser possível, porque é a força coletiva que faz o Coreto acontecer e ser o que é.  Pode ser boy, favelado, branco ou preto, é do Coreto.

Editado por: Lucas Wilker

|

Newsletter