Moradores de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas, Serro e Dom Joaquim participaram de um protesto, nesta terça-feira (18), que paralisou de forma pacífica a rodovia MG-010 e impediu o funcionamento da mina. A mobilização ocorre após o acionamento das sirenes da mineradora na última quinta-feira (13), episódio que, segundo as comunidades, provocou medo, pânico e insegurança entre as famílias que vivem abaixo da barragem de rejeitos.
Como resultado da pressão, as comunidades conquistaram uma reunião com a Anglo American durante a tarde de hoje. Também participam da reunião a Polícia Militar e o Ministério Público de Minas Gerais.
“Ou tem uma movimentação na barragem que eles não querem admitir, ou a Anglo American está disparando sirenes para espalhar o medo, para que as comunidades saiam dos seus locais e que eles consigam ampliar e altear barragens, para que dessa forma eles possam ampliar a extração mineral”, afirmou a deputada estadual licenciada Bella Gonçalves (PT) em publicação nas redes sociais. A declaração foi feita durante uma manifestação realizada nesta terça-feira (18) por comunidades atingidas pelo Complexo Minas-Rio, da mineradora Anglo American, na região do Médio Espinhaço, em Minas Gerais.
De acordo com os atingidos, este foi o quarto acionamento das sirenes a provocar apreensão nos territórios. As comunidades denunciam ainda que, após o episódio mais recente, a Anglo American não teria prestado atendimento às famílias. Segundo os moradores, representantes da empresa passaram posteriormente pelas comunidades questionando se o acionamento das sirenes teria realmente ocorrido.
A manifestação é apresentada pelos organizadores como uma reação não apenas ao episódio mais recente, mas a um histórico de violações que, segundo eles, se estende por mais de 15 anos. O protesto também critica a atuação dos órgãos públicos de fiscalização e controle e cobra medidas diante dos impactos provocados pela atividade minerária.
“Essa é a maior extração mineral de Minas Gerais e uma das maiores do Brasil. A gente está falando de um lucro líquido de 17 milhões de reais por dia. É dinheiro suficiente para reassentar todo mundo que precisa ser reassentado”, afirmou Bella Gonçalves.
Medo e pressão sobre as comunidades
Em uma manifestação divulgada pelas redes sociais, Valderes Quintino Silva Brandão, integrante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), afirmou que os acionamentos sucessivos das sirenes têm provocado ansiedade e pressão psicológica sobre os moradores.
“Estamos aqui hoje, no dia 18 de agosto de 2026, manifestando a revolta que a comunidade de São José do Jacém está vivendo devido aos acionamentos contínuos da sirene da barragem da Anglo American. Essa situação tem feito com que as comunidades sofram com ansiedade e com a pressão psicológica de terem que deixar o seu território”, declarou.
Segundo Brandão, a mobilização ocorreu no trevo de acesso a Dom Joaquim e teve como objetivo dialogar com a população sobre os impactos provocados pela mineração na região. “São José do Jacém resiste e vive na luta! Viva a luta quilombola, viva a luta de São José do Jacém e região!”, afirmou.
As comunidades dizem que permanecerão mobilizadas até que a empresa dialogue diretamente com os moradores. “A nossa pauta é pela dignidade e pelo respeito às comunidades atingidas pela mineração da Anglo American na região”, acrescentou o integrante do MAM.
Auditoria independente e explicações sobre as sirenes
Entre as principais reivindicações está a realização imediata de uma auditoria técnica externa e independente sobre a integridade da barragem de rejeitos, o sistema de monitoramento estrutural e a modelagem da chamada mancha hipotética de inundação.
Os atingidos reivindicam que a instituição responsável pela auditoria seja escolhida e validada pelas próprias comunidades e que a metodologia utilizada também tenha participação popular. A medida, segundo o manifesto, busca garantir uma avaliação independente sobre as condições de segurança da estrutura.
As comunidades também exigem explicações públicas sobre os constantes acionamentos das sirenes na Zona de Autossalvamento (ZAS). Além dos esclarecimentos, pedem a aplicação de sanções administrativas e o pagamento de indenizações individuais às famílias expostas aos efeitos dos acionamentos registrados em fevereiro e agosto de 2026.
Outra reivindicação é a instalação permanente de um ponto da Defesa Civil e de um posto de atendimento médico de emergência nas comunidades situadas na ZAS, com ambulância, equipamentos de emergência e equipe psicossocial disponível 24 horas.
O abastecimento de água também aparece entre as prioridades. Os moradores cobram fornecimento contínuo de água potável em quantidade e qualidade adequadas para as comunidades que, segundo o manifesto, sofrem impactos relacionados à atividade minerária, como escassez hídrica, rebaixamento do lençol freático e alterações nos cursos d’água.
Comunidades querem participação em decisões sobre o território
O documento apresentado durante a mobilização também exige a paralisação dos processos de licenciamento ambiental, autorizações de expansão ou renovações de licenças do Complexo Minas-Rio enquanto não for concluído o processo de Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) das comunidades tradicionais e quilombolas atingidas.
A reivindicação tem como referência a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). As comunidades defendem ainda que a realização da consulta não seja utilizada para interromper as negociações relacionadas ao Plano de Reassentamento.
Outro ponto do manifesto é a garantia de que a Anglo American e terceiros contratados pela empresa não ingressem nos territórios tradicionais e quilombolas sem autorização prévia e expressa das coletividades atingidas.
Reassentamento é uma das principais reivindicações
A aceleração do reassentamento coletivo também está entre as prioridades. As comunidades pedem o início imediato das obras de construção das moradias e a redução do cronograma previsto para a entrega das chaves às famílias.
O manifesto reivindica ainda que as famílias cadastradas no Plano de Reassentamento possam escolher entre as modalidades rural e urbana, com indenização complementar para aquelas que optarem pelo reassentamento urbano em razão da ruptura de seus modos de vida tradicionais.
Os atingidos também defendem que o direito ao reassentamento seja estendido às comunidades que tiveram seus modos de vida inviabilizados ou gravemente afetados pela mineração, mesmo que elas não estejam necessariamente inseridas nos mesmos procedimentos atualmente previstos.
A comunidade de Gondó também é citada especificamente no documento. Os moradores reivindicam que seus direitos sejam equiparados aos parâmetros do Plano de Reassentamento da ZAS, incluindo o acesso aos valores indenizatórios e ao Programa de Desenvolvimento Social.
O manifesto cobra ainda auditoria independente dos reassentamentos já executados ou em andamento pela mineradora, além da regularização fundiária dos imóveis escolhidos pelas famílias e do pagamento, pela empresa, dos custos adicionais apontados em laudos de habitabilidade.
Saúde mental e preservação cultural
Os impactos psicológicos provocados pelo medo de um eventual rompimento da barragem também são destacados pelas comunidades. Os moradores reivindicam atendimento psicossocial independente e continuado, com equipes multidisciplinares sem vínculos com a Anglo American.
A proposta prevê acompanhamento para pessoas afetadas pelos acionamentos das sirenes, pelo processo de realocação e pelas pressões decorrentes das negociações com a mineradora.
O documento também pede que a empresa arque com medicamentos, terapias e insumos médicos não contemplados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quando o adoecimento estiver relacionado aos impactos do empreendimento ou ao processo de negociação.
Além disso, as comunidades tradicionais e quilombolas reivindicam um plano específico para preservação do patrimônio cultural e imaterial, contemplando os territórios de origem e as áreas de destino das famílias reassentadas. A proposta inclui a preservação de identidades, manifestações religiosas e memórias coletivas.
Fiscalização e revisão de condicionantes
Os atingidos também cobram maior participação das comunidades na fiscalização das medidas relacionadas ao empreendimento. Uma das reivindicações é garantir representação igualitária das 17 comunidades atingidas pelo Minas-Rio no Comitê de Monitoramento das atividades da Assessoria Técnica Independente (ATI).
O manifesto pede ainda que os recursos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) sejam destinados a ações de infraestrutura, saúde, abastecimento hídrico e desenvolvimento sustentável em benefício das comunidades atingidas.
Outro ponto é a revisão, pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam/MG), das condicionantes 42, 47 e 50 do processo de licenciamento ambiental da Anglo American, com participação das assessorias técnicas independentes e dos atingidos.
As comunidades também reivindicam a participação formal do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), da Fundação Cultural Palmares e do Ministério Público Federal (MPF) nas mesas de negociação, audiências e etapas dos processos de licenciamento e reassentamento.
Água e segurança na MG-010
O manifesto pede, ainda, testes de potabilidade e contaminação realizados pela Anglo American e análises regulares da qualidade e vazão dos cursos d’água pelo governo de Minas Gerais. Os atingidos defendem que os exames sejam feitos por laboratórios credenciados e escolhidos pelas comunidades, com divulgação dos resultados.
Na própria rodovia onde ocorreu a manifestação, os moradores também pedem a atuação do Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER/MG) e da Anglo American para implementar medidas de segurança viária nos trechos da MG-010 que atravessam os territórios atingidos.
Ao apresentar a pauta, as comunidades afirmam que a paralisação representa uma forma de resistência diante de ameaças à integridade física, cultural e territorial dos moradores.
“Não aceitaremos mais o silenciamento, a coerção e a convivência forçada com o pavor constante de um rompimento de barragem”, afirma o manifesto.
Os atingidos cobram agora um posicionamento formal e urgente da Anglo American e dos órgãos públicos envolvidos. No documento, comunidades, MAM e Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais (N’Golo) afirmam que não aceitarão respostas consideradas evasivas ou protelatórias e defendem o atendimento integral das reivindicações apresentadas.
O outro lado
Em nota, a Anglo American informou que participou, nesta terça-feira (18), de uma reunião com a Promotoria de Justiça de Conceição do Mato Dentro e representantes das comunidades da região. Segundo a mineradora, como encaminhamento do encontro, representantes da empresa, das comunidades e do Ministério Público voltarão a se reunir nos próximos dias para dar continuidade ao diálogo sobre as questões apresentadas e definir os encaminhamentos necessários.
