Movimentos sociais, organizações populares, entidades de direitos humanos, pastorais e representantes de diferentes igrejas se reuniram nesta terça-feira (18), na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, para o lançamento do 32º Grito dos Excluídos e das Excluídas no estado. A mobilização ocorrerá em 7 de setembro nas cidades de Porto Alegre, Lajeado e Santa Cruz do Sul. Neste ano, o lema é “Vida em primeiro lugar, na defesa da terra, da paz e da moradia. Erguemos nossa voz: Mulheres vivas e soberania”.
Durante a atividade, foi apresentado e distribuído o manifesto “Por um Rio Grande Decente”, elaborado em maio. Participaram representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), Cáritas, União Nacional por Moradia Popular, Conselho Estadual de Direitos Humanos do Rio Grande do Sul (CEDH-RS), Grito dos Excluídos Nacional e Continental, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), movimento sindical e Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre outras organizações.
Em Porto Alegre, a proposta neste ano é levar a mobilização para diferentes territórios da cidade. Roseli Pereira Dias, da Cáritas Brasileira Regional Rio Grande do Sul e integrante da organização do Grito, explica que a mudança resulta de uma reflexão sobre a trajetória da mobilização. “Por muitos anos, nós ficamos desfilando atrás das botas dos cavalos depois da manifestação do 7 de Setembro, oficial da parada. Mas aí a gente parou. A gente fez uma reflexão entre os organizadores do Grito que nós tínhamos que mergulhar o Grito nas periferias.”
Segundo Dias, a estratégia passou a ser descentralizar as atividades. “A gente começou a fazer o Grito em Canoas, em São Leopoldo, em bairros periféricos aqui de Porto Alegre, no Navegantes, em Farrapos.”
Neste ano, a caminhada em Porto Alegre partirá da praça da Alfândega e passará por diferentes pontos da região central. “Vamos fazer uma caminhada pela Siqueira Campos, passar pela ocupação Maria da Conceição. Depois a gente vai seguir pela Júlio de Castilhos, também esses pontos onde tem vários moradores de rua. A gente segue pela Farrapos e vai até o 20 de Novembro.” O encerramento será na igreja da Pompéia, junto à Pastoral dos Migrantes.
Representando o Grito dos Excluídos Continental, Luis Bassegio destacou que o Rio Grande do Sul terá três grandes mobilizações: Porto Alegre, Santa Cruz do Sul e Lajeado. “Nós vamos ter aqui no Rio Grande três grandes Gritos: Porto Alegre, Santa Cruz do Sul e Lajeado. Porto Alegre e Santa Cruz de manhã.”
Bassegio também destacou a participação de Santa Cruz do Sul no desfile oficial de 7 de Setembro, articulada pelo bispo Dom Itacir Brassiani. “A gente se alegra com isso e a gente está vendo que estamos começando assim, vamos subindo devagarzinho, os movimentos, a própria Igreja está querendo retomar aquele fôlego. Então, o Grito vai ser esse momento muito forte.”
Em Lajeado, a mobilização está prevista para as 15h.
Um grito para quem é excluído
Para Dom Itacir Brassiani, bispo de Santa Cruz do Sul e representante da CNBB, o Grito dos Excluídos nasceu há mais de três décadas para ampliar o significado do 7 de Setembro. “O Grito dos Excluídos nasceu há 32 anos, como um desejo de unir ao grito de independência e soberania de Dom Pedro o grito daqueles que hoje ainda estão sob alguma forma de dominação, seja econômica, seja cultural, seja política. Então, para dar voz àqueles que não tinham voz há 30 e poucos anos.”
Neste ano, as principais bandeiras são a defesa da terra, da paz e da moradia, além do combate à violência contra as mulheres e da soberania.
Ao Brasil de Fato RS, Dom Itacir afirmou que as mulheres carregam no corpo e na vida as consequências de uma violência que vem sendo agravada. “As mulheres são aquelas que trazem no corpo e na alma as feridas de uma violência que não é nova, mas que vem sendo turbinada e potencializada ultimamente.”
O bispo também chamou atenção para a reprodução da violência de gênero na cultura gaúcha. “Se a gente olha a cultura gaúcha, as canções, as tradições, tem uma violência de gênero terrível. Tem canções aí que deveriam ser riscadas do cancioneiro gaúcho e que propagam a violência masculina sobre as mulheres.”
A defesa da soberania também aparece entre as prioridades do Grito. Para Dom Itacir, a soberania pertence ao povo. “A doutrina da Igreja sempre defendeu a soberania dos povos. E o detentor da soberania é o povo, que eventualmente transfere a defesa da soberania às instituições, mas é o povo de um país que é detentor da soberania.”
Segundo Dom Itacir, o tema ganha importância diante do atual cenário político. “Nesse período do Brasil a gente vive uma situação muito esquisita, de gente que está renunciando à soberania, líderes políticos que estão renunciando à soberania e apostando na submissão.”

Moradia como direito
A moradia é outra das principais bandeiras. Para a coordenadora estadual do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), Ceniriani Vargas da Silva (Ni), o tema ganhou ainda mais importância no Rio Grande do Sul após as enchentes e diante da emergência climática. “Estamos no Rio Grande do Sul, que sofreu e continua sofrendo as consequências de uma grande enchente e de uma emergência climática, que infelizmente também é uma realidade, onde esse tema acaba se tornando cada vez mais presente.”
De acordo com Ni, a habitação está diretamente ligada ao acesso a outros direitos. “Quando a gente fala em habitação, a gente fala daquele lugar que é a porta de entrada de todos os direitos. Sem a moradia, não tem saúde, não tem educação, não tem trabalho, todos os outros direitos acabam vinculados a esse direito tão fundamental.”
Ni também destacou a atuação da Igreja na pauta habitacional e lembrou a mobilização contra despejos durante a pandemia. “Mais de 30 mil famílias foram despejadas e a gente se organizou enquanto Campanha Nacional Despejo Zero. E a CNBB teve um importante papel de incidência junto ao Conselho Nacional de Justiça, que a gente conseguiu uma resolução a partir da qual conseguimos suspender despejos.”
Para Dom Itacir, a pauta exige políticas públicas permanentes. “A luta por políticas públicas de moradia popular, de financiamento a cooperativas, de financiamento à autoconstrução é uma pauta relevante, necessária e atual nesse momento.”
Terra e emergência climática
Renan da Silva, do Instituto Cultural Real da Glória e da Cooperativa Habitacional Unidos da Glória, relacionou a concentração fundiária à história da Lei de Terras de 1850. “Desde lá a gente está sendo penalizado, o nosso povo foi jogado na rua, sem terra, sem trabalho, sem nada. E construímos esse país, essa nação, e hoje a gente está sentindo o reflexo disso.”
Para Silva, a luta por moradia precisa estar associada ao acesso à terra. “Se não tiver o poder da terra, nós não conseguiríamos nada, porque da terra sai o alimento, da terra vem a água, da terra vem o solo. Então a gente precisa da terra.”
Integrante do MAB, Alexania Rossato destacou a realidade dos atingidos por barragens, enchentes e pela crise climática. “É para nós que somos excluídos, os atingidos, seja por barragens, seja por enchentes, seja por crise climática, que são muito excluídos. E nós encontramos nessa iniciativa da Igreja Católica, dos movimentos populares, do movimento sindical, que é o Grito dos Excluídos, uma fortaleza.”
Para Rossato, o lema reúne temas que precisam estar no centro do debate público. “Quando a gente vê o lema do Grito dos Excluídos trazendo o tema da terra, o tema da moradia, o tema da paz, tão necessário nesse momento num mundo tão conflituoso, tão em guerra, o tema da vida das mulheres, […] todos esses temas são muito necessários que a gente discuta.”
Rossato também relacionou o manifesto “Por um Rio Grande Decente” ao slogan utilizado pelo governo estadual. “Quando se propõe uma discussão por um Rio Grande decente, num trocadilho interessante que a gente vê da propaganda do governo do estado, do Rio Grande diferente, nós fazemos a discussão do que é a dignidade humana. A gente faz a discussão do que é direitos humanos.”
Democracia e direitos humanos
A defesa da democracia também apareceu entre as principais bandeiras. Secretário de Administração e Finanças da CUT/RS, Antônio Güntzel afirmou que, sem democracia, não é possível avançar nas demais pautas sociais. “A gente precisa fazer a defesa da democracia, uma vez que sem a democracia a gente não consegue avançar em nenhuma outra questão.”
Para Güntzel, a defesa da democracia está ligada à garantia de direitos básicos. “Não existe um Rio Grande decente enquanto tiver gente morando debaixo da rua, debaixo da ponte. Não existe um Estado decente se aquele cidadão não tem direito a água. Não tem como dizer que nosso Rio Grande é decente enquanto faltar comida.”
Güntzel também abordou a violência contra as mulheres. “Não existe Estado decente enquanto estiver esse absurdo que a gente está vivendo com os feminicídios. As mulheres têm o direito de fazer o que querem, de estarem com quem querem, e a nós, os homens, cabe respeitar.”
Presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH-RS), Júlio Alt afirmou que a entidade pretende se somar à mobilização. “Dizer a vocês que somamos aqui os nossos esforços com todas e todos para um país mais digno, por terra, teto e trabalho, por um Rio Grande decente.”
Segundo Alt, o Grito deve recolocar os direitos sociais no centro do debate. “Faz parte do nosso papel, da nossa missão, talvez de vida, discutir isso e colocar em cena esses direitos sociais tão combatidos, às vezes coibidos, mas direitos sociais que são muito fortes e que convivem com o que a gente pensa de uma boa sociedade, uma sociedade que defende a vida.”
O Movimento Fé e Política também se soma à mobilização. Representante da organização, Selvino Heck destacou a realização do 13º Encontro Nacional do movimento, no final de abril, em São Bernardo do Campo, com o tema “Fortalecer a democracia, o esperançar e o bem viver”.
“Nós estamos juntos. Nós fundamos o Movimento Fé e Política em 1989 e, de lá para cá, sempre estivemos em todos os Gritos, na luta por dignidade dos trabalhadores e das trabalhadoras, na luta pela democracia, tão ameaçada hoje, não só muitas vezes no Brasil, mas também no mundo, da soberania popular e da garantia dos direitos humanos”, afirmou Heck.
‘Pátria é onde se vive’
Dom Humberto Eugênio Maiztegui Gonçalves, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), afirmou que o Grito amplia o significado do 7 de Setembro ao colocar no centro a vida das pessoas. “O Grito dos Excluídos e das Excluídas é um grito extremamente necessário. Foi uma grande descoberta, contrapor ou, digamos assim, ampliar a ideia da independência do 7 de Setembro para trazer o que é pátria.”
Para Dom Humberto, a ideia de pátria está relacionada às condições concretas de vida. “Pátria é onde se vive, onde se come pão. […] A pátria não é onde se nasce apenas, é onde se vive. Agora, se não se vive, não há pátria.”
Dom Humberto também destacou a violência contra as mulheres. “A grande questão do hino é as mulheres vivas. Porque a questão do feminicídio é tão horrível e tão presente que mexeu com a sociedade como um todo.”
Para o bispo, o enfrentamento precisa atingir as raízes da violência. “O problema é que a gente não quer que mexa só em cima, tem que mexer na raiz. De onde que vem? Vem do patriarcado, vem do machismo, da exclusão das mulheres.”
Ao final do lançamento, Dom Itacir reforçou que a mobilização do 7 de Setembro pretende apresentar as reivindicações dos movimentos populares, e não reproduzir o caráter militar do desfile. “Não é por independência, é por soberania, é por vida plena e abundante para todos. No 7 de Setembro, muitos vão marchar como se fosse um evento militar. Nós vamos caminhar.”
Segundo Dom Itacir, o papel das organizações é amplificar a voz das populações que vivem situações de exclusão. “Nós não nos preparamos para a guerra, nós nos preparamos para lutas, as lutas que nascem nas aspirações do nosso povo.”
Dom Itacir defendeu a divulgação do manifesto “Por um Rio Grande Decente” nos diferentes espaços de atuação das entidades. “Não importa o nosso grito enquanto organizações, importa que através de nós o grito deles, de todos, delas, chegue às praças e chegue às telas, chegue aos microfones. Não para que o movimento cresça, para que o grito seja ouvido, para que mais e mais pessoas possam expressar as suas esperanças, mas também as suas feridas.”
