OPINIÃO

Aquecimento global e Margem Equatorial: quantas pessoas queremos matar? 

Postergar transição energética aumenta o custo humano

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Precisamos reconhecer que quanto mais for postergada a transição energética, maiores serão os custos humanos desse imobilismo | Crédito: Arquivo Agência Brasil

Jean-Paul Sartre, em sua famosa conferência de 1945 sobre o Existencialismo, nos traz um importante questionamento sobre o custo da indecisão, ao afirmar que “se eu não escolher, assim mesmo estarei escolhendo”. A provocação é altamente relevante nos dias atuais, em que nos deparamos, concomitantemente, na iminência da exploração de petróleo na Margem Equatorial pela Petrobrás, tragicamente em paralelo ao “Super El-Niño” de 2026, cujas previsões indicam que pode superar, até mesmo, aquele ocorrido em 1877, que resultou na morte de mais de 50 milhões de pessoas ao redor do Globo.  

É importante nos questionarmos, portanto, quais são os possíveis custos humanos da indecisão sobre a emergência climática, em especial, qual é o nível de risco que nós estamos dispostos a aceitar, enquanto coletividade, em relação às vidas humanas que certamente serão perdidas diante da nossa falta de decisão em abandonar definitivamente os combustíveis fósseis. 

Hoje já contamos com inúmeras previsões acerca dos danos econômicos decorrentes das mudanças climáticas, como, por exemplo, os relatórios do IPCC ou estudos publicados na Revista Nature (IPCC, 2022; Burke et al., 2015; KOTZ et al., 2024/2025), que estimam uma perda de até 20% do PIB mundial até 2050, com um custo anual de US$ 32 trilhões de dólares com medidas de mitigação, adaptação e resposta a desastres. 

O próprio governo brasileiro divulgou, na COP-30, em 2025, um relatório do Ministério de Gestão e Inovação (MGI) prevendo uma perda de 14% a 33% do PIB até 2070, sendo que atualmente o país já perde 1,3% do PIB ao ano devido aos eventos extremos, como ocorrido nas chuvas no Rio Grande do Sul em 2024. 

Em relação às vidas humanas, os dados apresentam uma maior divergência. Um estudo de 2025 da Universidade de Exeter, Reino Unido, intitulado “Solvência Planetária” (TRUST, et al.), afirma que, a depender do cenário (1,5ºC ou mais de 3,0ºC), a mortalidade humana pode chegar à cifra de 4 bilhões de pessoas até o final do século, o que deu origem ao movimento “4 Billion Dead”.  

Outras previsões são mais conservadoras. Richard Parncutt (2019, 2023), da Universidade Karl Franzens de Graz, Áustria, por sua vez, estima em “somente” 1 bilhão de mortos ao longo dos próximos dois séculos (caso o aquecimento não ultrapasse 2ºC). Outro estudo do Instituto de Medicina da Universidade de Washinton (Burkart et al., 2021), prevê 1,02 milhão de mortes por ano até 2100, no (improvável) cenário de cumprimento das metas do Acordo de Paris de 2015, ou de até 3,17 milhões de mortes por ano nos piores cenários. 

Relatórios da Organização Mundial da Saúde (2014, 2023), já estimam em 250 mil a atual média anual tão somente das mortes relacionadas ao calor extremo, algo, contudo, que tende a crescer proporcionalmente com o aumento das temperaturas globais.  

Para além da área de saúde, estudos relativos às mudanças dos sistemas alimentares, como do Instituto de Política Alimentar da Universidade de Oxford (SPRINGMANN et al., 2016), também concluem que haverá aumento significativo da insegurança alimentar e da desnutrição decorrentes de mudanças do clima que, até 2050, resultarão em um número adicional de mortes de 529 mil pessoas por ano (intervalo possível entre 314 mil e 736 mil). 

Decisões concretas

Em suma, tais estimativas dependem muito das decisões concretas que serão (ou não) tomadas de hoje em diante. Ademais, dependem, também, da classificação de quais mortes serão consideradas como “decorrentes das mudanças climáticas”: se somente as resultantes de ondas de calor extremo, ou se a cifra deve incluir também as perdas de vida decorrentes dos seus impactos diretos e indiretos, como secas, desertificação, falta de alimentos, enchentes, etc. 

Certo é, contudo, que, mesmo com as estimativas mais conservadoras, é altamente provável que esse número chegará a centenas de milhões de pessoas que perderão suas vidas em decorrência de eventos extremos relacionados ao aquecimento global. 

Não acredito que a emergência climática implicará o fim da humanidade. Tampouco que a humanidade dependerá, eternamente, dos combustíveis fósseis. O ano de 2025, inclusive, nos trouxe a feliz notícia de que o aumento do uso de energias renováveis foi maior do que a taxa de crescimento da demanda energética global. 

No entanto, precisamos reconhecer que quanto mais for postergada a transição energética, maiores serão os custos humanos desse imobilismo. É necessário assumirmos a responsabilidade de que a falta de decisão será, também, uma decisão. Se isso ocorrerá daqui a 25, 50 ou 100 anos, resta-nos perguntar: quantas pessoas estamos dispostos a matar, para manter, por mais alguns anos, os lucros da indústria de combustíveis fósseis?  

Pedro G. G. Andrade é professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), mestre e doutor em Direito Internacional pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestre em Direito Ambiental pelo Centro Universitário Dom Helder e membro do Coletivo de Direitos Humanos do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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