desigualdade

‘Existe um conflito distributivo na disputa eleitoral’ que influencia resultados, afirma cientista político

Declaração de patrimônio dos candidatos a governador nas eleições deste ano evidencia disparidade econômica

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Maria do Carmo (PL), ACM Neto (UB) e Otaviano Pivetta (Republicanos) disputam os governos do Amazonas, Bahia e Mato Grosso, respectivamente
Maria do Carmo (PL), ACM Neto (UB) e Otaviano Pivetta (Republicanos) disputam os governos do Amazonas, Bahia e Mato Grosso, respectivamente | Crédito: PL; Instagram/ACM Neto; Republicanos

A declaração de patrimônio dos candidatos a governador nas eleições deste ano evidencia a disparidade econômica na disputa: os dez mais ricos somam R$ 1 bilhão, enquanto pelo menos 38 declaram não ter bens, segundo levantamento realizado pelo Brasil de Fato.

O topo da lista dos milionários reflete a concentração de poder econômico, de gênero e de raça no topo da política nacional. Entre os dez maiores patrimônios, oito são de candidatos brancos e apenas dois são negros (declarados pardos). A disparidade de gênero é ainda mais alarmante: há apenas uma mulher entre os dez mais ricos, Maria do Carmo (PL-AM), com R$ 118,4 milhões. Quando se amplia o recorte para os 50 mais ricos da disputa estadual, a presença feminina continua residual, somando apenas cinco candidatas.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio BdF, o cientista político Mateus de Albuquerque, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), avalia que, numa análise mais crua e até “um pouco mais cínica”, é possível afirmar que há diferentes estratos sociais concorrendo às eleições. “Existe um conflito distributivo e, nesse sentido, estou falando de ter ou não dinheiro. Os dados deixam claro que os ricos ainda têm mais acesso à política do que os pobres”, aponta.

Além disso, existe um problema que é a subnotificação de patrimônio, que, lembra o especialista, “não é o mesmo que renda”. “Nós não temos acesso à renda dos políticos. Isso é um elemento importante para a gente entender a riqueza. Talvez sejam mais ricos ainda”, sugere.

Nesse sentido, afirma Albuquerque, “podemos falar em motivos estruturais do Estado, podemos falar no prestígio de uma pessoa e até da capacidade de autofinanciamento ou financiamento que tem determinada pessoa a partir da rede de relações” que uma pessoa rica costuma ter. Tudo isso, reforça o analista, vai acabar impactando no tamanho da campanha e, consequentemente, nas chances de ser eleito.

O levantamento também mostra que os dez candidatos mais ricos do levantamento estão ligados a partidos de direita e centro-direita. Um deles é o governador do Mato Grosso, Otaviano Pivetta (Republicanos), empresário e pecuarista, candidato à reeleição e que declarou patrimônio de mais de R$ 575 milhões. Matheus de Albuquerque aponta que isso faz parte de um fenômeno mais atual da entrada de empresários na política sob o argumento de serem bons gestores.

Em SP, João Doria cumpriu esse papel e Pivetta faz parte dessa seara de políticos. Esse movimento também acaba surgindo de uma certa descrença na política e da falsa ideia de que a máquina estatal é inchada. “O que se vende da imagem desse sujeito é geralmente isso: que ele não é político, é da gestão. É aquela ideia: ‘Chega de político, vamos votar em alguém que faz gestão’. E então o que se fala com gestão privada é corte de gastos, corte de direitos sociais, e isso altera diretamente a classe trabalhadora”, pondera.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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