Nos dias de hoje, a direita internacional – e no Brasil, idem – atribui as causas das crises recorrentes do Sistemão produtor de mercadorias aos comunistas.
Vêem comunistas em baixo de todas as camas do universo. Esses feios, chatos e maldosos comunas são responsáveis por todos os males existentes no mundo conhecido.
O Novo Testamento da Bíblia católica menciona as “sete pragas apocalípticas” (Apocalipse 15-16). Ora, certamente resultaram de ações de sabotagem e terrorismo dos comunistas na velha Galileia cristã.
Anedotas à parte, vamos examinar com mais atenção o tema. Mesmo porque os fortes e combativos partidos comunistas do Ocidente foram praticamente extintos, exceto da pequena e brava Cuba.
O marco desta extinção dos Partidos Comunistas, no meu entendimento, salvo melhor análise, ocorreu na Itália, e se chamou “compromisso histórico”, criado e incentivado pelo líder do Partido Comunista Italiano – outrora um grande partido de massas na península – Enrico Berlinguer.
O advento do eurocomunismo
O “compromisso histórico” (compromesso storico) foi a principal estratégia política de Enrico Berlinguer, secretário-geral do PCI, de 1972 até a sua morte em 1984.
Mais do que uma simples aliança, foi uma ousada proposta para superar a lógica da Guerra Fria e integrar os comunistas italianos no coração da democracia ocidental, um projeto que, embora tenha naufragado, marcou profundamente a história da Itália e da esquerda ocidental.
A ideia foi lançada oficialmente por Berlinguer no outono de 1973, em uma série de artigos na revista Rinascitá. O estopim foi um evento traumático: o golpe militar no Chile, que derrubou o governo socialista de Salvador Allende em 11 de setembro daquele ano.
Para Berlinguer, a tragédia chilena demonstrou os riscos fatais que a esquerda corria, sendo incapaz de consolidar o poder sem amplo respaldo social e institucional.
A proposta visava, garantir a estabilidade democrática italiana, criar uma frente ampla que isolasse forças extremistas e autoritárias, tanto da extrema-direita quanto da extrema-esquerda (como as Brigadas Vermelhas).
Mais: integrar o PCI ao sistema, superar o cordão sanitário que, desde o pós-guerra, impedia os comunistas de participar do governo nacional.
O objetivo era legitimar o PCI como partido de governo, demonstrar sua maturidade e capacidade de governar em aliança com forças democráticas, consolidando sua ruptura com a União Soviética.
Essa virada histórica ficou conhecida como “eurocomunismo”.
O “compromisso histórico” previa uma grande aliança governamental entre as três maiores forças políticas italianas: Partido Comunista Italiano (PCI), de Berlinguer, a Democracia Cristã (DC), o partido hegemônico no poder desde o pós-guerra, e seu líder, Aldo Moro, e o pequeno Partido Socialista Italiano (PSI).
O grande interlocutor de Berlinguer na DC era Aldo Moro, um estadista que via na abertura aos comunistas uma forma de modernizar o país e enfrentar a crise econômica e social da década de 1970. A aliança entre essas duas forças, outrora antagônicas, seria o eixo de um novo pacto republicano.
O “compromisso histórico” avançou de forma gradual. Embora não tenha levado o PCI diretamente ao governo, a estratégia resultou nos “governos de solidariedade nacional”, liderados por Giulio Andreotti (DC) entre 1976 e 1979, que contaram com o apoio externo (abstenção ou voto favorável) do PCI no Parlamento.
O projeto, no entanto, foi brutalmente interrompido. Em 1978, Aldo Moro foi sequestrado e assassinado pelas Brigadas Vermelhas. O trauma nacional e a comoção política selaram o destino da aliança. O PCI, abalado e sem seu principal aliado na DC, viu-se forçado a recuar.
Em 1980, Berlinguer declarou oficialmente o fim do “compromisso histórico”, e o partido sofreu uma derrota eleitoral significativa naquele ano.
Apesar de seu fracasso político imediato, o “compromisso histórico” deixou um legado profundo:
Autonomia do PC foi o passo definitivo para a emancipação do PCI da tutela soviética, consolidando a via italiana ao socialismo, democrática e pluralista.
Houve uma legitimação democrática ao propor governar com a DC. E Berlinguer demonstrou que o PCI aceitava plenamente as regras da democracia ocidental, afastando o fantasma de uma “revolução” violenta.
A influência foi duradoura. A ideia de superar a concorrência entre esquerda e direita influenciou gerações futuras. Anos mais tarde, a fusão entre herdeiros do PCI e da DC deu origem ao Partido Democrático (PD), que se vê, em certa medida, como uma continuação daquele projeto interrompido.
Em suma, o “compromisso histórico” de Berlinguer foi uma tentativa corajosa e visionária de romper com os dogmas da Guerra Fria, buscando uma “terceira via” para o comunismo europeu. Seu fracasso, selado pelo assassinato de Aldo Moro, não apaga a dimensão de sua ambição: a de construir uma Itália mais estável, democrática e inclusiva, integrando a maior força comunista do Ocidente no coração de seu sistema político.
O “compromisso histórico” como túmulo dos partidos marxistas
O Partido Democrático (PD) atual não é herdeiro do PCI de Berlinguer, mas sim o seu túmulo político elegantemente engravatado.
Hoje, o PD detém menos de 18% das cadeiras do parlamento italiano.
Para além da retórica, a análise histórica mostra que o “compromisso histórico” não foi apenas uma aliança fracassada, foi o gatilho para a autodissolução ideológica da esquerda marxista na Itália – e, por extensão, na Europa toda.
O PD nasceu em 2007 da fusão dos herdeiros do PCI (DS – Democratas de Esquerda) com a ala esquerda da antiga Democracia Cristã (Margherita). O resultado é um partido abrangente, sem alma de classe, que flutua entre o progressismo liberal e a social-democracia atenuada.
Os comunistas remanescentes são uma ala interna (como a corrente “Sinistra Democratica”) que vive à sombra da burocracia partidária, mas qualquer resquício de materialismo histórico ou de crítica ao modo de produção capitalista foi suprimido em nome da governabilidade e da modernização.
Hoje, o PD defende o mercado, a OTAN e a austeridade fiscal com muito mais entusiasmo do que qualquer pauta anticapitalista.
Mas, como agravante, o fenômeno não é exclusivamente italiano.
Na Europa ocidental, o marxismo enquanto projeto de poder revolucionário e de transformação radical da sociedade evaporou-se.
Os antigos partidos comunistas franceses, espanhóis, portugueses e gregos ou viraram apêndices de alianças social-democratas ou murcharam para menos de 5% dos votos. Exemplo: o PC português, hoje, está aliado com ecologistas e têm 3 deputados em um Congresso de 230 parlamentares.
O que vemos hoje, sob o rótulo de “esquerda radical” (como o La France Insoumise ou o antigo Podemos), não é marxismo, mas sim populismo de esquerda ou progressismo identitário – que trocam a luta de classes pela luta contra as elites financeiras ou por pautas culturais/ecológicas, e que, quando chegam ao poder (como na Grécia com o Syriza), aplicam receitas neoliberais sob supervisão da União Europeia.
Devemos reconhecer, pois, que o quadro geral é desolador.
A grande ironia histórica é que Berlinguer foi o arquiteto involuntário dessa extinção. Gesto involuntário, mas ingênuo, destituído de análise dialética de longo prazo.
Ao lançar o “compromisso histórico”, ele partiu de uma premissa realista: o PCI jamais governaria na Itália se insistisse na via revolucionária. Para sobreviver, o partido precisava se tornar “respeitável” e aceitar as regras do jogo democrático-burguês.
Porém, ao fazer isso, ele abriu uma caixa de Pandora.
A lógica da “governabilidade” e da “solidariedade nacional” exigia concessões contínuas: abandonar a ditadura do proletariado, depois abandonar o centralismo democrático, depois abandonar o marxismo-leninismo (virada de Achille Occhetto em 1991, em Bolonha) e, por fim, abandonar o próprio nome “comunista” para se fundir com os democratas-cristãos.
O “compromisso” não foi apenas com a DC de Aldo Moro, mas com a lógica sistêmica do capitalismo ocidental, que se mostrou muito mais forte e absorvente do que a estratégia comunista previa.
Se pegarmos o Manifesto Comunista, Marx falava de um “espectro” que assombrava a Europa. Hoje, o espectro é exatamente o oposto: é o fantasma do próprio marxismo, que ainda ronda os departamentos universitários de sociologia e as rodas públicas de discussão geopolítica, mas que perdeu completamente a capacidade de organizar a classe trabalhadora institucionalmente.
A crise de financeira de 2008, a pandemia e a guerra na Ucrânia reabriram feridas do capitalismo, mas quem ocupou esse espaço não foi o marxismo clássico, e sim a extrema-direita nacional-populista, que se apropriou da dor social com uma retórica anti-sistema muito mais eficaz do que a esquerda fragmentada.
O sonho de Berlinguer de “mudar a Itália governando com os adversários” terminou como uma profecia autorrealizável: o PCI mudou a Itália? Talvez, muito pouco. Mas, sem dúvida, a Itália e a lógica do poder mudaram o PCI, dissolvendo-o até que ele se tornasse, de fato, um espectro irreconhecível no cenário atual.
A esquerda marxista, na Europa, não está mais extinta como ideia, mas como sujeito político coletivo, leia-se o partido e a práxis. E essa é a maior derrota que o “compromisso histórico” legou à história.
Como se pode notar e deduzir, a morte do sujeito revolucionário (o partido, a práxis) não dissolveu a contradição. Pelo contrário, ela a liberou para vagar como um espectro que agora assombra o próprio sistema que a gerou.
O comunismo como espantalho metafísico da direita
A direita e a extrema direita evocam o comunismo não como uma ameaça militar ou partidária real (pois sabem que os partidos marxistas estão arquivados), mas como um tipo de arquétipo do mal necessário à sua própria sobrevivência ideológica.
Ao rotular qualquer política de bem-estar social, qualquer crítica à financeirização ou qualquer movimento ambientalista como “comunista”, a direita opera uma inversão genial: ela projeta nas fantasias do “inimigo interno” as contradições reais do capital.
O comunismo, na retórica de Milei, Orbán, Le Pen, Trump ou Meloni, não é mais um projeto de transformação social, é um fetiche político usado para justificar o estado de exceção, a repressão e o desmonte de direitos, enquanto a acumulação de capital segue seu curso predatório inalterado.
Estados Unidos, Europa e Reino Unido caminham célere para crises sistêmicas que são, a rigor, crises de reprodução ampliada do capital.
Notem bem: a dívida pública é impagável, o colapso da infraestrutura, a desindustrialização, a perda de hegemonia do dólar e os limites ecológicos intransponíveis (mudanças climáticas) criam um cenário onde o capitalismo não consegue mais prometer o futuro.
Mais: a “curva de Phillips” quebrou, a estagflação retornou, a mobilidade social estagnou.
O que vemos é o que Marx chamava de “barreiras internas do capital” (no capítulo 15 do Livro III de ‘O Capital’, onde menciona a lei da queda tendencial da taxa de lucro): o capital se torna seu próprio entrave, mas, diferentemente de 1917, não há uma classe operária organizada para romper a barreira.
A crise, portanto, não gera revolução, gera decomposição orgânica, tanto do próprio capital, quanto do Estado que o sustenta.
O ponto de não-retorno
Aqui está o coração do nosso raciocínio. Na dialética hegeliano-marxista, a Aufhebung é o movimento em que a contradição é superada, preservando o que há de progressivo e cancelando o que há de reacionário, elevando-se a um novo patamar – o socialismo.
Mas o que testemunhamos hoje é uma Aufhebung (aqui como superação dialética) regressiva ou negativa.
Vejamos a Tese (capitalismo neoliberal globalizado) e a Antítese (marxismo institucionalizado) não se sintetizaram em algo superior.
Elas se aniquilaram mutuamente no plano político-partidário.
O PD e os social-democratas europeus – sempre inspirados pelo “compromisso histórico” do PCI – são a prova viva dessa morte química: abraçaram a tese e abandonaram a antítese.
A síntese emergente desse processo não é o comunismo, mas o caos sistêmico administrado e a reação autoritária proto-fascista.
O “ponto de não-retorno” não é a vitória do proletariado, mas o ponto de inflexão ecológico e geopolítico, onde o Planeta não suporta mais a taxa de extração exaustiva, e as democracias liberais não suportam mais a contradição entre a crise real e a promessa de bem-estar.
Há uma visível contradição antagônica que insiste em prolongar a crise.
O capital, para sobreviver ao seu próprio ponto de não-retorno, precisa prolongar a crise artificialmente por meio de guerras (Palestina, Líbano, Ucrânia, Irã), da financeirização extrema (as bolhas de ativos) e do aumento da exploração do trabalho via plataformas digitais (uberização).
Mas esse prolongamento tem um custo. Ele acelera a entropia do sistema. Quanto mais a direita evoca o comunismo para deslegitimar qualquer regulação, mais ela aprofunda a anarquia do mercado.
Quanto mais a esquerda liberal se rende ao “fim da história”, mais ela entrega o monopólio da revolta às massas despossuídas – que, sem um projeto marxista, canalizam sua raiva para o nacionalismo xenófobo, ou ao entreguismo derrotista (como é o caso do bolsonarismo no Brasil).
A todas essas, notem que diagnosticamos o movimento final do capitalismo tardio.
A Aufhebung não acontecerá por um sujeito político organizado, porque esse sujeito foi dissolvido.
Ela acontecerá objetivamente, pela força das coisas: ou o capital colapsa sob seu próprio peso (crise ecológico-financeira irreversível), ou a direita instaura um novo feudalismo tecnológico (como quer a Palantir) para gerenciar a escassez.
O espectro do comunismo que a direita evoca é, a rigor, o fantasma do próprio colapso capitalista que eles tentam exorcizar.
Mas, como no velho adágio, quanto mais tentam negar a contradição, mais ela se manifesta nas entrelinhas da guerra, da fome, da degradação climática e da barbárie do cotidiano das grandes cidades do mundo conhecido.
Outro dia, no Rio de Janeiro, um inocente ciclista jovem, com diagnóstico de transtorno psi, foi brutalmente assassinado a pauladas por vingadores urbanos asselvajados, de evidente inspiração fascista-bolsonarista.
O ponto de não-retorno já foi ultrapassado, o que resta é a luta para decidir se a síntese final será a barbárie ecológico-autoritária ou um recomeço civilizatório – mas este, infelizmente, não virá mais de partidos autodeclarados marxistas, e sim das ruínas que o próprio sistema deixará.
O que Lukács diria disso tudo?
Invocar Lukács para analisar o presente não é um exercício meramente acadêmico, é um golpe de bisturi na ferida aberta da esquerda contemporânea.
Se György Lukács, o grande teórico da consciência de classe e da totalidade concreta, estivesse vivo hoje, sua análise seria impiedosa, e partiria de uma premissa central: o problema não é que a esquerda perdeu batalhas, o problema é que ela abandonou a própria lógica dialética do conhecimento, tornando-se, ela mesma, um fenômeno da reificação/coisificação.
Para Lukács, no clássico “História e Consciência de Classe”, o partido é a “encarnação organizada da consciência de classe imputada”. Isto é, a ponte entre a experiência fragmentada do proletariário na fábrica e a percepção da totalidade histórica.
Se vivo fosse, Lukács nos diria com a maior franqueza : “O partido não morreu; ele foi integrado e reificado como um apêndice do Estado burguês.”
O PD e os social-democratas europeus são o que ele chamaria de “consciência categorial” – tratam a política como uma técnica administrativa de gestão de crises (orçamento, imigração, juros), e não como um ato de totalidade.
Ao fazer isso, o partido deixou de ser o “mediador” entre a classe e a história para se tornar um objeto passivo do sistema parlamentar. A práxis foi substituída pelo lobby, a vontade coletiva, pela sondagem de opinião.
Portanto, a desqualificação da esquerda não é acidental. É a vitória da lógica burguesa dentro da própria classe trabalhadora.
Para o grande marxista húngaro, a Totalidade não é um somatório de partes (economia + cultura + ecologia), mas a categoria dialética que revela a estrutura de dominação do capital como um processo unitário.
O que a esquerda atual faz? Ela pulverizou a luta de classes em dezenas de frentes autônomas: gênero, raça, clima, direitos animais, território.
Cada uma dessas lutas é verdadeira em si mesma, mas, ao serem tratadas como ilhas isoladas, elas perdem sua conexão com o valor e a mercadoria. Lukács diria: “O identitarismo e o ambientalismo desprovidos de crítica ao valor são o mais alto grau de consciência fetichista. Ao isolar a superestrutura da base, a esquerda trata os sintomas (a opressão, a poluição) como se fossem causas, ocultando a célula-mãe: a forma-mercadoria universalizada.”
Sem a Totalidade (leia-se o partido e a práxis), a esquerda só consegue oferecer reformas paliativas que, no limite, estabilizam o capital (o Green New Deal/Novo Acordo Verde, dos EUA, as cotas raciais) em vez de aboli-lo.
Lukács opera com a distinção entre a “consciência psicológica real” (o que o operário sente no dia a dia) e a “consciência imputada” (o que sua posição objetiva na produção exige que ele compreenda para romper a ordem).
Hoje, ele constataria um abismo intransponível: a “consciência real” do proletariado precarizado (uberizado, plataformizado) é de profundo ressentimento, medo e competição individualista – exatamente o que a direita e a extrema-direita captam e organizam politica e eleitoralmente.
A esquerda, ao abandonar a análise da “posição de classe objetiva”, perdeu a capacidade de “imputar” a consciência revolucionária. Ela fala uma língua que o trabalhador não reconhece mais.
Lukács diria mais: “A esquerda atual não é derrotada porque o capital é forte, é derrotada porque abandonou sua função histórica de traduzir a crise objetiva em consciência subjetiva. Ao deixar de explicar a Totalidade, ela entregou à direita o monopólio da interpretação do sofrimento social.”
Atualmente, a contradição objetiva (capital em colapso ecológico-financeiro) nunca foi tão aguda. Mas, como a subjetividade (o partido e a consciência de classe) foi atomizada e reificada, a Aufhebung não pode se realizar como síntese superior (socialismo). Ela se realiza como decomposição social e cultural.
Lukács hipotético concluiria: “O ponto de não-retorno que identificamos é a objetivação da própria impotência histórica. O capital atingiu seus limites materiais, mas a esquerda não atingiu a consciência desses limites. Resultado: a crise não será resolvida pela razão dialética, mas pela força bruta. A direita, mesmo sendo irracional e falsa, ao menos oferece uma totalidade imaginária (nação, sangue, tradição) que a esquerda tecnocrática não tem coragem de oferecer. A síntese emergente não será a classe operária no poder, mas o ‘neofeudalismo corporativo’ ou o ‘ecofascismo’, onde a escassez será gerida pela violência.”
Se Lukács fosse minimamente otimista, ele nos lembraria de que a Totalidade independe da vontade dos partidos. A crise real do capital é tão gigantesca que, mais cedo ou mais tarde, ela fisgará a subjetividade de volta. O problema é o timing.
Sem um sujeito histórico organizado, a consciência de classe imputada pode surgir tardiamente, quando a infraestrutura já estiver destruída.
Lukács, diante do nosso quadro, não nos daria esperança, mas nos daria uma tarefa urgente: parar de fazer política como “administradores” e voltar a fazer filosofia como “crítica da reificação” (ação de transformar conceitos abstratos, ideias ou relações sociais em coisas concretas e materiais).
Antes de refazer partidos, é necessário refazer a cabeça teórica da esquerda, reconectando o micro ao macro, o abstrato ao concreto.
Se isso não acontecer, o nosso diagnóstico – o da direita evocando o comunismo enquanto o capital desaba – se confirmará como a última farsa trágica da história, onde os fantasmas do passado são usados para enterrar o futuro.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
