Li Baoda faz parte do grupo de cientistas chineses que estuda e registra pulsares utilizando o maior radiotelescópio em operação no mundo, o Fast, sigla em inglês para “Radiotelescópio Esférico de Quinhentos Metros de Abertura”. No ano de 2026, sua equipe registrou o primeiro exemplo de pulsar binário do tipo viúva-negra descoberto totalmente por uma equipe local na província de Guizhou.
O Fast fica em Pingtang, no interior de Guizhou, numa depressão cárstica, um fenômeno que ocorre quando o teto de uma caverna desaba, deixando um buraco em forma de tigela. Essa caverna é formada antes pela água da chuva que se infiltra e dissolve rochas solúveis, como calcário, dolomito ou gesso.
A concepção do projeto surgiu em 1993, quando o astrônomo Nan Rendong apresentou a proposta de construir um radiotelescópio de nova geração durante uma conferência de radioastronomia no Japão.
Nos dez anos seguintes, sua equipe percorreu o interior de Guizhou, mapeando mais de 3 mil depressões naturais até selecionar a de Pingtang. As obras foram iniciadas em 2011, e o telescópio entrou em operação em setembro de 2016. Diferentemente dos telescópios ópticos, o Fast é projetado para captar ondas de rádio provenientes de outras regiões do universo; quanto maior a estrutura, maior a quantidade de sinal que o instrumento consegue registrar.
Pulsares são estrelas de nêutrons que emitem dois feixes de rádio a partir de seus polos magnéticos. Desde sua inauguração, em 2016, o telescópio já identificou mais de 1.300 pulsares, ultrapassando a soma de todos os outros telescópios do planeta no mesmo período. A equipe de Li Baoda contribuiu com 22 novos pulsares do tipo milissegundo, distribuídos por seis aglomerados globulares, que são conjuntos de estrelas que orbitam o centro da galáxia. A descoberta mais recente do Fast, feita neste ano, é um sistema de pulsares com um padrão de rotação atípico, no qual três estrelas interagem entre si.
Garimpando dados celestiais
“Um único dia de observações gera dezenas de milhares de gráficos de sinais candidatos”, explica Li Baoda. “A triagem realizada por computador apresenta uma alta taxa de erro; por isso, os pesquisadores precisam revisar manualmente milhões de imagens. Alguns colegas examinaram milhões de quadros sem conseguir detectar um único sinal novo.”
O pesquisador diz que seu trabalho é como o de um garimpeiro, só que de dados. “Temos o instrumento e os dados brutos, mas, sem pesquisadores para analisar e interpretar, objetos celestes desconhecidos e fenômenos científicos inéditos continuariam desconhecidos”, afirma.
O pulsar viúva-negra que ele e sua equipe descobriram é um sistema binário em que a estrela de nêutrons libera ventos estelares que vão gradualmente corroendo a atmosfera da estrela companheira, deixando exposto apenas o núcleo. O nome vem da aranha que, às vezes, se alimenta do macho após o acasalamento.
Pulsares binários correspondem a cerca de 30% de todos os pulsares conhecidos; os do tipo viúva-negra representam apenas 5% a 10% desse subgrupo. São sistemas que permitem estudar a evolução de estrelas de nêutrons em condições extremas que não podem ser recriadas em laboratório. “Os artigos foram publicados e obtiveram alto reconhecimento dos astrônomos”, conta Li Baoda.
“Sinto uma responsabilidade especial de utilizar o Fast para impulsionar a pesquisa astronômica nacional e estimular a inovação tecnológica local”, diz Li.
Brasil e China na cooperação internacional astronômica
Nos últimos anos, a China abriu o tempo de observação do Fast para cientistas estrangeiros. O Brasil é talvez o principal parceiro da China nessa área. Entre os projetos conjuntos dos dois países está o Bingo (sigla em inglês de Observações de Oscilações Acústicas de Bárions em Gás Neutro), um radiotelescópio sino-brasileiro projetado para mapear o hidrogênio neutro no cosmos e investigar a chamada energia escura, que está relacionada à expansão do universo.
Em junho de 2025, a estrutura principal do Bingo foi enviada da China para a Paraíba, dando início à fase de construção do radiotelescópio no país. O Bingo, que poderá operar de forma complementar ao Fast, é desenvolvido por pesquisadores da China, Brasil, Reino Unido, França e Suíça.
Os dois países também criaram o Laboratório Conjunto China-Brasil de Tecnologia em Radioastronomia, gerido pela empresa estatal chinesa CETC em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande e a Universidade Federal da Paraíba. A diferença de projetos como o Alma (Conjunto de Grandes Antenas Milimétricas/submilimétricas do Atacama), da União Europeia no deserto do Atacama, no Chile, é que o Bingo é de copropriedade do Brasil e da China. No Alma, os astrônomos chilenos podem participar, mas o país é apenas anfitrião do projeto europeu, não coproprietário.
“O encontro de ideias diversas acelera consideravelmente o progresso científico”, diz Li Baoda, ao ser questionado sobre a importância da cooperação internacional em astronomia.
Entre os objetivos do Fast, também está incluída a busca por civilizações extraterrestres. “Pessoalmente, creio que a existência de civilizações extraterrestres é muito provável”, responde Li Baoda. “O universo é imensamente vasto, contendo incontáveis trilhões de estrelas e sistemas estelares com capacidade de abrigar formas extraordinárias de vida.”
