O candidato à Presidência da República e ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), cometeu uma gafe ao falar sobre o combate à violência contra as mulheres durante sabatina da TV Globo nesta segunda-feira (24). Ao responder a uma pergunta sobre o aumento dos feminicídios no estado durante seu mandato, Zema afirmou que tem “uma série de programas contra as mulheres”.
“Eu tenho uma série de programas contra as mulheres que, inclusive, levei adiante. Primeiro, ampliar o número de delegacias especializadas no atendimento às mulheres. Ter lá pessoas, mulheres, capacitadas a estarem dando esse atendimento. Casas de acolhimento. Uma mulher que foi vítima de violência doméstica precisa ter um lugar onde ficar, não pode voltar para casa”, afirmou.
Pelo contexto da resposta, Zema se referia a programas de enfrentamento à violência contra as mulheres. Ele também citou o uso de tornozeleiras eletrônicas para monitorar agressores, com acionamento automático da polícia caso eles se aproximem das vítimas, e defendeu ações de conscientização nas escolas.
A declaração repercutiu nas redes sociais e foi explorada por parlamentares mineiras para questionar a atuação de Zema em relação às mulheres.
A deputada estadual Ana Paula Siqueira (PT), presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), resgatou uma declaração feita pelo ex-governador em 2020. Na ocasião, durante o lançamento de um aplicativo de proteção às mulheres em Belo Horizonte, Zema afirmou que a agressão contra mulheres seria “instinto do homem”.
“Isso não é uma gafe. É, de fato, o que esse senhor pensa. Afinal, é o mesmo que já afirmou que a opressão contra a mulher seria um instinto natural do homem. Durante seu mandato à frente do governo de Minas, o estado ocupou a segunda posição no país em número de feminicídios”, escreveu a deputada, candidata à reeleição.
A presidenta da Comissão de Direitos Humanos da ALMG, deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL), também associou a fala de Zema ao cenário da violência contra as mulheres no estado.
“Uma série de programas contra as mulheres mesmo. Não à toa Minas está entre os estados que mais têm casos de feminicídios no país. Não à toa ele se negou a aderir ao pacto nacional de enfrentamento ao feminicídio. O programa dele é contra as mulheres”, afirmou a parlamentar, que neste ano concorre a uma vaga no Congresso.
A deputada federal mineira Célia Xakriabá (PSOL-MG) também comentou a declaração nas redes sociais e relacionou a fala ao número de feminicídios registrados em Minas durante o período em que Zema esteve à frente do governo estadual.
“Romeu Zema governou Minas por quase oito anos e deixou o estado como o segundo que mais mata mulheres por razão de gênero no país. Foram 177 feminicídios em 2025, alta de 4,4%. Quem governou por oito anos precisa explicar isso. Proteger mulher não é discurso, é dado”, escreveu.
Minas registrou 177 feminicídios em 2025
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostram que Minas Gerais registrou 177 feminicídios em 2025. O número representa um aumento de 4,4% em relação aos 169 casos registrados em 2024.
Com esse resultado, Minas foi o segundo estado brasileiro com maior número absoluto de feminicídios em 2025, atrás apenas de São Paulo. A taxa mineira chegou a 1,6 morte por grupo de 100 mil mulheres, acima da média nacional, de 1,4.
No acumulado de uma década, o número de feminicídios no estado aumentou 32%.

Plano de governo cita “mulher” três vezes e traz uma menção a feminicídio
As propostas de Zema voltadas especificamente às mulheres estão concentradas em um trecho do plano de governo dentro do eixo de Segurança Pública. Ao todo, a palavra “mulher” aparece três vezes no documento, enquanto “feminicídio” é mencionada apenas uma vez.
No trecho dedicado ao tema, intitulado “Reduzir a subnotificação e reincidência de casos de violência contra a mulher”, o plano propõe ampliar a rede de Delegacias da Mulher, com funcionamento 24 horas e equipes preferencialmente femininas capacitadas em violência de gênero. Também prevê apoiar os estados na criação de sistemas integrados entre Saúde, Segurança Pública e delegacias.
O documento propõe ainda expandir as Patrulhas Maria da Penha, responsáveis por monitorar o cumprimento de medidas protetivas, e as Salas Lilás, destinadas ao acolhimento de vítimas em unidades policiais.
A única menção ao feminicídio aparece na parte final do documento, em um diagnóstico sobre grupos considerados mais expostos a situações de violência. O texto afirma que “a violência doméstica e o feminicídio seguem em patamares inaceitáveis”, mas não apresenta, nesse trecho, uma proposta específica para o enfrentamento do crime.
