CONTROVERSO

Cleitinho se apresenta como antissistema, mas acumula votos em pautas antipopulares

Candidato do Republicanos é contrário às câmeras corporais em policiais e votou a favor do marco temporal

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O senador Cleitinho (Republicanos-MG). Foto: Ton Molina/Agência Senado
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) | Crédito: Ton Molina/Agência Senado

Nascido em Divinópolis, região Centro-Oeste de Minas Gerais, Cleiton Azevedo (Republicanos-MG), mais conhecido por seu apelido “Cleitinho”, começou sua carreira na política em 2016, quando foi eleito como vereador de sua cidade natal. Em 2019, atuou como deputado estadual e, hoje, atua como Senador, sendo um dos principais nomes da extrema direita para as eleições do governo de Minas Gerais em 2026. 

Durante seus mandatos, Cleitinho defendeu propostas antipopulares e se destacou ao tirar uma foto com a influenciadora Virgínia em meio à CPI das Bets, onde, na ocasião, a influenciadora foi indiciada por estelionato, envolvida com as casas de apostas. 

No entanto, sua atuação parlamentar não se restringe a este evento. Cleitinho, enquanto senador, votou a favor de propostas que vão de encontro aos interesses do povo, como o PL da Devastação, o PL do Marco Temporal e a anistia de golpistas pelos atos em 8 de janeiro de 2023.  

Nas eleições de 2026, Cleitinho, que adota o discurso de “anticorrupção”, declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL), alvo de denúncias e investigações. A mais recente envolve o caso do Banco Master, conhecido como “BolsoMaster”, no qual o ex-controlador Daniel Vorcaro é apontado como figura central. Segundo informações divulgadas sobre o caso, Flávio teria solicitado R$ 134 milhões ao banqueiro para a produção do filme Dark Horse. O candidato à presidência também é citado no caso das “rachadinhas”, que envolve suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de bens e organização criminosa.

O discurso de Cleitinho, no entanto, também se revela nas pautas que ele escolhe defender.

Câmeras corporais em policiais militares

No primeiro debate entre candidatos ao governo de Minas, promovido pela Band no dia 16 de agosto, Cleitinho afirmou ser contrário ao uso de câmeras corporais por policiais militares no estado. Ao falar sobre segurança pública, disse que, caso seja eleito, os agentes não utilizarão o equipamento nos uniformes.

O trecho foi posteriormente publicado pelo próprio candidato nas redes sociais e passou a receber críticas negativas de parte de seus apoiadores. 

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) apontou que a adoção de câmeras corporais pela Polícia Militar de São Paulo reduziu em 57% as mortes decorrentes de intervenções policiais, evitando 104 óbitos no primeiro ano do programa “Olho Vivo”. Além disso, um levantamento do Instituto Sou da Paz, realizado em 2025, mostra que 82% dos brasileiros aprovam o uso de câmeras corporais pelas polícias.

Relações 

Cleitinho também é conhecido pelo temperamento. Ao longo da trajetória política, construiu uma imagem associada a discursos inflamados nas redes sociais e a uma atuação de viés antissistema, acumulando posicionamentos que frequentemente provocam controvérsias.

O presidente do Republicanos em Minas Gerais e aliado político de primeira hora do senador, o deputado federal Euclydes Pettersen, foi indiciado pela Polícia Federal (PF) no âmbito da investigação sobre desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Segundo a PF, Pettersen teria recebido ao menos R$ 14,7 milhões para oferecer proteção política ao esquema. O deputado nega qualquer participação e afirma que o indiciamento é unilateral, ressaltando que não há, até o momento, ação penal contra ele. Em pronunciamento, Cleitinho afirmou que mantém com Pettersen apenas uma relação política.

A manifestação, no entanto, causou estranheza entre apoiadores, sobretudo porque o senador costuma adotar um discurso duro e crítico diante de denúncias de corrupção e de casos semelhantes que ganham repercussão pública.

PL da Devastação

O PL 2.159/2021 flexibiliza as regras de licenciamento ambiental no país e permite a dispensa de licenças para uma série de atividades, especialmente no setor agropecuário e na mineração, através da Licença por Adesão e Compromisso (LAC), um mecanismo que concede ao próprio empreendedor o direito de se auto licenciar, a partir do preenchimento de um formulário online.

Além disso, o texto enfraquece a participação de órgãos técnicos como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), cujas manifestações deixam de ter poder de veto, inclusive em casos que envolvem territórios não regularizados e unidades de conservação.

Em maio, o texto foi ao Senado e, junto ao senador Carlos Vianna (PSD), Cleitinho foi favorável ao projeto de lei, aprovado pela casa. 

PL do Marco Temporal 

O PL 2903/2023, também chamado de PL do Marco Temporal, tem gerado grandes repercussões nos últimos anos. O texto estabelece a tese do marco temporal como critério para a demarcação de terras indígenas, ou seja, busca a  inviabilização das novas demarcações de terras indígenas, além de barrar os processos demarcatórios em curso e abrir as terras já demarcadas para a exploração predatória.

Criada em 2009, a tese do marco temporal institui que os povos indígenas só podem ter o direito de demarcar suas terras se estas já estivessem em sua posse no dia 5 de outubro de 1988, ou se conseguirem comprovar que os povos indígenas da região em questão já lutavam pela terra na data em que a constituição de 1988 se estabeleceu. 

Portanto, o PL dificulta a demarcação de terras por parte dos povos originários e, além disso, abre brechas para devastações e crimes ambientais. 

“O PL vai na contramão das conversas globais, agora encabeçadas pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de proteção ao meio ambiente e liderança brasileira na agenda contra as mudanças climáticas”, afirmou o Ministério dos Povos Indígenas, em nota, à época.

Em setembro de 2023, o texto foi para votação no Senado e Cleitinho foi favorável.. 

Apoio ao golpismo

Em discurso no plenário, em março deste ano, Cleitinho, após declarar seu apoio a Nikolas Ferreira (PL), defendeu a aprovação de uma proposta de anistia para os condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. Ele pediu, no discurso, para que o Congresso Nacional coloque a proposta de pedido de anistia em pauta. 

Em julho, o senador defendeu o ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro, classificando o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) como “perseguição”. Ele disse, ainda, que “o processo contra Bolsonaro carece de fundamento, uma vez que não houve golpe no país”. 

Na mesma audiência, Cleitinho convocou os parlamentares a prestar solidariedade ao ex-presidente, que hoje está preso domiciliarmente. 

“Espero que todos os senadores que estão aqui e tiveram o apoio do Bolsonaro em eleições estejam no Plenário e nas suas redes sociais dando apoio contra essa covardia e essa perseguição”, relatou.

CPI das Bets

“A Virginia é fonte de riqueza, nós somos fonte de despesa. A Virgínia, não, ela traz fonte de riqueza, ela gera emprego”, proferiu o senador, na CPI que investigava a influenciadora Virgínia Fonseca e outros em relação à divulgação de casas de apostas, as chamadas Bets. 

Em vez de questioná-la, Cleitinho manifestou elogios à influenciadora – indiciada por crimes de publicidade enganosa e estelionato. Em um determinado momento da CPI, o senador pediu, inclusive, uma foto com Virgínia

“Inclusive, vou terminar aqui, pode mandar um abraço para a minha esposa?”, disse Cleitinho, com o celular na mão, prestes a tirar a foto. 

O caso repercutiu negativamente e, posteriormente, o senador Cleitinho pediu desculpas publicamente e reconheceu que errou ao pedir uma foto com a influenciadora durante os trabalhos da CPI. Ele classificou a própria atitude como “afobada” e “idiota” e admitiu que a conduta não foi adequada para um parlamentar.

Editado por: Lucas Wilker

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