CLÁSSICOS E NOVOS

Festival Noturno leva 60 filmes e programação gratuita a cinemas do Recife a partir desta quinta-feira (27)

Programação ocupa os cinemas São Luiz e da Fundação (Derby), com clássicos e novidades experimentais

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'Excitação', clássico de Jean Garret, agora restaurado, integra programação
‘Excitação’, clássico de Jean Garret, agora restaurado, integra programação | Crédito: Noturno/Divulgação

A segunda edição do Noturno, Festival Internacional de Cinema do Recife, começa nesta quinta-feira (27) e segue até domingo (30), com atividades gratuitas no Cinema São Luiz, no Centro, e no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, no Derby. Ao longo dos quatro dias, o público poderá acompanhar 60 filmes, entre curtas e longas-metragens, além de seminários, oficinas, sessões especiais, homenagens e shows, em uma programação que aproxima diferentes períodos, linguagens e formas de produção cinematográfica.

A abertura oficial acontece nesta quinta, às 19h30, no Cinema da Fundação, com uma seleção voltada à produção pernambucana experimental. Entre os destaques está a estreia no Recife de “Cerimônia” (2026), dirigido por Fábio Ramalho, André Antônio e Chico Lacerda, integrantes do coletivo Surto & Deslumbramento. A sessão também marca a apresentação de versões restauradas de dois filmes importantes para a história do cinema pernambucano: “Chá” (1987), de Paulo Caldas, e “Inventário de Um Feudalismo Cultural Nordestino ou Fricção histórico existencial” (1978), de Jomard Muniz de Britto, este em cópia 2K inédita.

A ampliação da programação para os longas-metragens é uma das novidades desta edição. A proposta é colocar em diálogo obras de diferentes épocas e procedências, permitindo que produções pernambucanas sejam vistas ao lado de clássicos brasileiros e estrangeiros e de títulos contemporâneos de outros países.

“Nessa segunda edição, buscamos expandir o conceito do festival também para o longa-metragem, construindo, a partir da programação, um diálogo entre as histórias do cinema pernambucano, brasileiro e mundial. Nosso foco é explorar o que acontece no interior do filme: seus modos de fazer, seus processos de experimentação e criação, assim como as diferentes formas colaborativas de produção. No final, a sala de cinema se torna esse espaço onde podemos embaralhar a produção pernambucana do passado e do presente, clássicos e novidades do cinema nacional e internacional, gerando novas possibilidades de leitura, aproximação e descobertas”, explica João Rêgo, diretor e programador do Noturno.

A programação formativa começa também na quinta-feira (27). Às 16h, o Cinema da Fundação recebe o seminário Imaginações Noturnas, com o tema “Ruído Infinito: Programando Imagens Pretas”, conduzido pela historiadora, curadora e crítica Lorenna Rocha. A atividade propõe uma reflexão sobre outras possibilidades de interpretação da história do cinema negro a partir do conceito de “imagens pretas”.

Na sequência, a sessão especial “Para ir no fundo do bagulho: o cinema com Afrânio Vital” apresenta os filmes Ataulfo Alves (1973), Antônio Maria (1977), Pérola Negra (1979) e Dois Nilos (2024).

Na sexta-feira (28), às 15h, o seminário retorna com o filósofo, professor e tradutor Victor Galdino, que conduz a discussão “Filmar e desfilmar raça: os destinos do arquivo”.

Além dos debates, o festival aposta em oficinas, atividades de crítica e aulas realizadas dentro das próprias salas de cinema. A intenção é aproximar formação e exibição e criar espaços de troca entre realizadores, pesquisadores, críticos e espectadores.

“O Noturno pensa o território e o público para além da programação de exibição. Este ano os núcleos de formação, oficinas de crítica e aulas dentro da própria sala de cinema, atravessam memória, arquivo, cinema e crítica, abrindo um espaço de conversa com quem já frequenta as nossas sessões. O que buscamos é um princípio formativo, uma permanência do festival através das pessoas, seja pela forma como os filmes as movem, seja pelo que se constrói junto nessas trocas”, afirma Felipe Karnakis, diretor e programador do festival.

A entrada dos longas na programação também amplia o repertório apresentado pelo Noturno. Entre os filmes brasileiros selecionados está “A Mulher de Todos” (1969), de Rogério Sganzerla, estrelado por Helena Ignez, em versão restaurada em 4K. O festival também exibe O Convite ao Prazer (1980), de Walter Hugo Khouri.

Entre os títulos estrangeiros, a programação reúne Mulheres Diabólicas (1995), do francês Claude Chabrol, e Yeast (2008) e The Wolf Knife (2010), ligados à produção independente norte-americana.

Uma das sessões especiais acontece à meia-noite do sábado (29), com a exibição de Excitação (1977), de Jean Garret. O diretor brasileiro, associado ao cinema da Boca do Lixo, é conhecido como “o Chabrol paulista”, em uma referência ao cineasta francês. A sessão aproxima as obras dos dois realizadores a partir de elementos como desejo, violência e tensão.

A produção internacional contemporânea aparece no Panorama Internacional, que reúne Mid/Evil Times (Devon Daniel Green, 2025, EUA), Tycoon (Charlotte Zhang, 2026, EUA/Canadá) e Genesis (José Oliveira e Marta Ramos, 2024, Portugal).

Já o Panorama Nacional apresenta Amante Difícil (João Pedro Fato, 2026, RJ), Palco Cama (Jura Capela, 2025, PE), A Voz da Virgem (Pedro Almeida, 2026, RJ), Tannhauser (Vinicius Romero, 2026, SP/RJ) e Disciplina (Affonso Uchôa, 2026, MG).

O festival também dedica sessões especiais a dois nomes importantes da cinematografia brasileira. A pernambucana Adelina Pontual, que atua no cinema desde os anos 1980 como diretora, roteirista e continuísta, será homenageada com a exibição dos curtas El Monstruo (1991), O Pedido (1999), Cachaça (1995) e Samyradash, os artistas de rua (1993).

Outro homenageado é Paulo César Saraceni (1932-2012), um dos nomes ligados à formação do Cinema Novo. Sua obra, marcada pela influência do neorrealismo italiano e por questões relacionadas à história brasileira, será representada pelos longas Porto das Caixas (1962) e A Casa Assassinada (1971).

Apesar da expansão para os longas, os curtas-metragens continuam no centro da programação do Noturno. As mostras competitivas são organizadas em quatro sessões e reúnem filmes de diferentes gêneros, territórios e propostas estéticas, explorando temas como desejo, violência, memória, assombração e performance.

A produção pernambucana também ganha destaque com sessões de curtas locais realizadas antes das exibições de longas. A seleção percorre diferentes momentos do cinema recifense desde os anos 1980 e reúne trabalhos de realizadores como Fernando Spencer, Lula Lourenço, Renata Pinheiro, Camilo Cavalcante, Fellipe Fernandes, Fábio Leal, Bisoro, Henrique Arruda, Ander Beça, Rodrigo Almeida, Fernando Peres, Irma Brown, Leonardo Amaral, Pedro Maia de Brito e Ralph Antunes.

Inspirado na obra Noturno em Re(cife) Maior, de Jomard Muniz de Britto, o festival foi criado pelos curadores Felipe André Silva, Felipe Karnakis e João Rêgo com foco na valorização do curta-metragem, da experimentação e da formação de público. Nesta segunda edição, a programação amplia esse escopo para incluir também os longas e estabelecer conexões entre diferentes períodos e cinematografias.

Editado por: Rostand Tiago

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