HOMENAGEM

‘Uma imensa tristeza’: adeus, querida Michèle Mattelart

Intelectual, que morreu em 22 de agosto, abriu caminhos para estudos sobre mídia e mulheres na América Latina

No audio source provided.
Michèle Mattelart foi pioneira nos estudos sobre a relação entre mulheres, mídia e indústria cultural na América Latina e atuou no Chile a partir de 1963, antes de partir para o exílio
Michèle Mattelart foi pioneira nos estudos sobre a relação entre mulheres, mídia e indústria cultural na América Latina e atuou no Chile a partir de 1963, antes de partir para o exílio | Crédito: Arquivo pessoal

No sábado, 22 de agosto de 2026, no período da manhã na França, Michèle Mattelart deixou este planeta, a Grande Mestra das Ciências da Comunicação latino-americana e mundial. Optou por amar, aprender e ser latino-americana na luta concreta pela justiça, pela autêntica democracia participativa e popular e, em especial, pela construção de conhecimento e saberes no campo da comunicação social. Foi fundadora, organizadora, produtora, pensadora e realizadora de importantes projetos de transformação e de pesquisa, primeiro no Chile, a partir de 1963, até que os fascistas a obrigaram a se exilar, e depois em toda a América Latina, África e Ásia.

Seu compromisso ético, filosófico, político e epistemológico fez dela uma autora primordial, que abriu frentes e caminhos para a pesquisa sobre a inter-relação mulher/sistemas midiáticos e se antecipou em décadas a questões que hoje o feminismo crítico pensa, propõe, trabalha e defende.

Suas pesquisas sobre as apropriações, os usos, os desejos e os imaginários das operárias e trabalhadoras da América Latina em suas relações com a telenovela, a fotonovela, as revistas femininas, as produções românticas e os produtos midiáticos de entretenimento voltados às mulheres abriram perspectivas profundas sobre o funcionamento simbólico/político/ideológico das grandes indústrias midiáticas regionais e transnacionais.

A densidade teórico-metodológica de Michèle Mattelart se expressou em obras centrais, de referência mundial, incorporou às suas tramas argumentativas autores e autoras de diversos campos do conhecimento e estruturou um pensamento comunicacional transdisciplinar e transmetodológico fecundo, crítico e potente. Seu amor intelectual, político, filosófico e familiar com Armand Mattelart constitui uma história paradigmática de produção coletiva de conhecimento; foram cúmplices inventivos de belas e relevantes histórias.

Querida Michèle, nossa Cátedra no Ciespal, organizada em homenagem a vocês, manterá o legado de vossos sentipensares, de vosso compromisso com os povos do mundo, de vossa solidariedade com as mulheres exploradas e submetidas à violência na Terra, de vosso amor pelo conhecimento, de vosso entusiasmo, alegria e potência para amar.

* Efendy Maldonado G. é professor e pesquisador, referência latino-americana em Economia Política da Comunicação e Epistemologia Crítica. É professor titular sênior visitante da UFRN, catedrático-titular da Cátedra Michèle e Armand Mattelart no Ciespal e coordenador-geral da Rede Amlat.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter