O presidente Lula está encerrando o seu terceiro mandato presidencial que, somado aos dois exercícios de Dilma, ainda que incompletos, devido a um covarde golpe de Estado que a ejetou do poder, perfazem cinco administrações petistas no cargo máximo da República brasileira.
Nestas cinco administrações petistas do Estado brasileiro houve visível e concreto ganho social dos assalariados em geral.
Nunca ocorreu outro período na história recente do Brasil – pelo menos desde 1964 – com a mesma combinação de crescimento de renda na base da pirâmide, redução expressiva da desigualdade social (Índice de Gini) e formalização do emprego.
Tivemos valorização real do salário mínimo. Houve aumento real acumulado superior a 70% acima da inflação nos primeiros mandatos petistas, elevando diretamente o piso dos assalariados e das aposentadorias.
Tivemos geração de emprego formal. Inclusão de milhões de trabalhadores no mercado formal (carteira assinada), transferindo contingentes do subproletariado para o proletariado com direitos garantidos.
Tivemos descentralização da renda. Resultando em redução contínua da desigualdade medida pelo Índice de Gini e expansão da chamada Classe C, impulsionada pelo consumo de massas e acesso ao crédito.
No Brasil, se nota que a democracia liberal-burguesa com benefícios distributivos via salário, direitos sociais, educacionais e culturais, resulta em grande medida no deslocamento ascensional das classes médias baixas assalariadas para um patamar melhor na pirâmide socio-econômica.
A opção conservadora
Mas a opção político-eleitoral destes setores não-raro se endereçam para opções conservadoras e mesmo de extrema direita.
O bolsonarismo se nutriu deste complexo caldo social mais que temerário, destrutivo, corruptivo, fascistoide e entreguista.
Estamos em plena corrida eleitoral visando eleger o presidente da República para o período de 2027-2030.
Se observa que em diversas regiões do Brasil, aquelas classes, segmentos e frações de classe que ascenderam na pirâmide, hoje, tendem a votar, não em Lula, mas em candidatos francamente reacionários, populistas de direita e aventureiros de ocasião.
Esse fenômeno que cega ou nega a identificação clara e objetiva da origem política de quem os beneficiou pode ser explicado pela estreita cognição dos indivíduos, por preconceito de distintas naturezas (talvez místico-religioso) ou mesmo por ranço ideológico usinado e estimulado pela própria extrema direita, justo a herdeira desse eleitorado errante e confuso.
Esse diagnóstico ligeiro que faço é próprio das subjetividades que sustentam todo o fenômeno da escolha eleitoral nas democracias formais que conhecemos, aqui e alhures.
Cabe, no entanto, verificar e analisar tais fenômenos à luz dos fundamentos que sustentam e legitimam o poder de Estado – sempre na ótica de uma análise de perspectiva marxista. Neste caso, examino o quadro brasileiro atual baseado em dois ensaios do filósofo alemão Robert Kurz publicados na obra “A democracia devora seus filhos”, do longínquo 1993.
É de ressaltar a clarividência de Kurz ao examinar um quadro político complexo como o brasileiro, e identificar com clareza solar o futuro que estava reservado a nós, 33 anos antes. Isso tudo resulta da capacidade de trabalhar com categorias da dialética hegeliano-marxistas com precisão e afinco intelectual.
O fetichismo da mercadoria
A socialização capitalista é fetichista. As relações sociais aparecem como relações entre coisas (dinheiro, bens).
O fetichismo da mercadoria é um conceito central da obra O Capital, de Karl Marx. Descreve como no capitalismo, as relações sociais entre as pessoas são mascaradas como relações materiais entre coisas.
A mercadoria funciona como um feitiço (fetiche), passa a parecer que tem valor próprio, ocultando o trabalho humano real por trás dela.
As pessoas se relacionam por meio das mercadorias (comprando e vendendo). As mercadorias parecem ganhar vida e ditar as regras do mercado. O dinheiro e os produtos parecem ter o poder intrínseco de gerar riqueza, mas esse poder vem unicamente da força de trabalho explorada (contida em cada molécula da mercadoria).
Quando um trabalhador assalariado da classe C ou D sobe de patamar via formalização do emprego, acesso ao crédito e consumo de bens duráveis (carro, eletrodomésticos, viagens), ele não atribui essa conquista a uma luta coletiva de classes ou a uma política pública redistributiva.
Ele atribui ao seu próprio esforço, à sua disciplina e à sua inserção meritocrática no mercado. O que vale, para ele, é o mérito pessoal.
O Estado, nesse caso, é visto apenas como o garantidor da ordem que permitiu que ele jogasse o “jogo do mercado” e vencesse.
Ao se sentir um vencedor dentro do sistemão, sua subjetividade se alinha automaticamente à pequena-burguesia: defesa da propriedade, horror à “bagunça” e repúdio a qualquer discurso que ameace desestabilizar a hierarquia que ele acabou de escalar.
O fascismo e o radicalismo de direita florescem não entre os miseráveis absolutos, mas entre as camadas que temem a proletarização.
No Brasil, o novo eleitorado conservador (que elegeu Bolsonaro e uma maioria do Congresso formada de estafermos e inúteis) é composto majoritariamente por aqueles que saíram da pobreza extrema, mas vivem com o pé no freio, constantemente ameaçados pela inflação, pelo desemprego, pelo endividamento e pelas crises periódicas do capitalismo como um todo.
Esse medo de cair de volta é o que Robert Kurz chama de “pavor da desintegração”.
A extrema direita se apropria desse terrível medo com uma retórica de segurança e ordem. O discurso do perigo comunista ou da desapropriação do pequeno patrimônio ressoa profundamente porque, para quem acabou de conquistar uma geladeira nova, um carro usado ou um imóvel na periferia, a esquerda (associada ao coletivismo e à desordem) aparece como a maior ameaça à sua frágil estabilidade.
O distributivismo legitima o sistema, não o supera
A crítica de Kurz à esquerda tradicional (partidos de esquerda não-marxistas, social-democracia, sindicalismo de resultados, etc.) é implacável. Ao focar exclusivamente na distribuição (aumento do salário mínimo, Bolsa Família, direitos trabalhistas) sem atacar a forma-valor (a lógica financeira, a mercantilização total da vida), a esquerda fortalece o fetichismo.
A esquerda rósea diz ao trabalhador: “Vamos te dar mais fatias do bolo”.
Quando consegue, o trabalhador agradece, mas sua consciência política continua sendo a do velho ”homo economicus” – um modelo teórico da economia que representa o ser humano como um agente perfeitamente racional, egoísta e focado em maximizar sua própria utilidade e lucro com o menor esforço possível, conforme a concepção original de John Stuart Mill e raízes em Adam Smith.
Ora, se o sistema de mercado é sagrado e eu estou indo bem nele, por que eu votaria em quem promete “mudar as regras do jogo”?
O bolsonarismo, então, aparece como o guarda-costas desse status recém-conquistado: promete menos Estado na economia (para o rico não “pagar a conta”) e mais Estado na segurança e nos costumes (para proteger o que o pobre conquistou).
A guinada cultural e identitária
Uma vez saciadas – ainda que precariamente – as necessidades materiais básicas, a luta política se desloca para o campo simbólico e cultural. O que podemos chamar de derrocada do realismo da velha política de classes.
A nova classe média baixa não quer mais ouvir sobre “mais-valia” ou “luta de classes“. Quer reconhecimento social e status, com direito à lacração diária nas redes.
A extrema direita oferece exatamente isso: uma identidade forte (patriota, cristã/evangélica, da família tradicional) que confere dignidade e pertencimento, enquanto a esquerda (com suas pautas identitárias progressistas, ambientalismo e defesa de minorias) é vista como uma ameaça elitista que quer destruir os valores que sustentam a vida dessas pessoas.
Ratificando, pois a ótica de Kurz, o Brasil não é uma exceção, mas uma confirmação brutal da tese. Ao promover a mobilidade social dentro dos marcos do capitalismo dependente e periférico, o Estado democrático de direito gera uma classe média conservadora que se agarra desesperadamente à ilusão da propriedade privada.
O bolsonarismo não se nutriu da miséria, nutriu-se do medo da volta à miséria e do desprezo pelo outro que está embaixo (os “vagabundos”, os “bandidos”, os “pobres que querem o que é meu”).
É exatamente isso que Kurz quer dizer quando afirma que “a democracia devora seus filhos”: ao conceder migalhas dentro da forma-mercadoria, ela cria os próprios agentes políticos que, movidos pelo pânico e pelo individualismo, irão sufocar a democracia em nome da ordem e da propriedade.
É a lógica do capital se reproduzindo no inconsciente político das massas que ascenderam, mas continuam cativas do feitiço/fetiche.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
