O economista Maurício Metri, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro História e Diplomacia Monetária, finalista do Prêmio Jabuti 2024 , defende que a hegemonia do dólar no sistema financeiro internacional representa uma forma de “extorsão” que afeta sobretudo os países do Sul Global. Segundo ele, os privilégios dos Estados Unidos como emissores da moeda de referência mundial permitem ao país se endividar e financiar sua estrutura militar sem limites aparentes.
“Quem sustenta essa cronologia de guerra e essa estrutura militar global americana é o mundo. […] Não é difícil entender que, por exemplo, quando os Estados Unidos financiam o genocídio ao povo palestino em Gaza, existe uma conexão direta entre a posição americana e a barbárie que assistimos na Faixa de Gaza”, afirma Metri ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato. “A moeda, por definição, é a contrapartida de um sistema de extorsão. O que os Estados Unidos fizeram foi criar uma ordem financeira internacional cujo único acesso é através do dólar”, declara.
O professor explica que o domínio do dólar foi consolidado por meio de decisões políticas, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, e que a imposição de sanções econômicas é uma das expressões mais visíveis dessa violência monetária. “As sanções financeiras são instrumentos extremamente perversos do ponto de vista da desestruturação da vida econômica e social e material de vários desses países. […] Mas, em termos dos objetivos da política externa americana, a efetividade delas é zero”, denuncia.
Alternativa exige decisão política
Entre as alternativas possíveis, ele cita a criação de mercados de hidrocarbonetos fora do circuito do dólar, como já vem sendo ensaiado pela China, o fortalecimento de instituições multilaterais, como o Banco do Brics, e o arranjo contingente de reservas. “Se você constrói uma institucionalidade financeira, como um Banco Mundial do Brics ou um FMI [Fundo Monetário Internacional] dos Brics, […] países da periferia com necessidades de aportes poderiam se endividar com esses organismos para lidar com os seus problemas de balanço de pagamentos”, sugere. “É uma decisão política de se criar organismos que permitam resolver os problemas de escassez de divisas”, acrescenta.
Metri destaca ainda que o Brasil desempenhou um papel estratégico na tentativa de regionalizar a agenda de soberania monetária, especialmente durante os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que hoje lidera o Brics, e da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), atualmente no comando do banco do bloco. Segundo ele, a cúpula do Brics de 2014 foi “a mais importante da história”, por ter criado mecanismos que buscavam desafiar a ordem financeira internacional centrada no dólar.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.