A Presidência da 30ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP30) e o Círculo do Balanço Ético Global, junto com o Movimento Global da Carta da Terra, fizeram um convite aberto a todos os interessados para contribuírem para o Balanço Ético Global (BEG).
Portanto, como membro da Carta da Terra Internacional, me proponho a responder as questões formuladas pela Presidência da COP30. Vejo na Carta da Terra e na encíclica do Papa Francisco Como cuidar da Casa Comum fontes inspiradoras para uma Ética Global face ao nosso conturbado tempo.
Perguntas / Respostas:
1. Por que tantas vezes negamos ou ignoramos o que a ciência e os saberes tradicionais dizem sobre a crise climática, e compartilhamos ou compactuamos com a desinformação, mesmo sabendo que vidas estão em risco?
A desinformação é voluntária. Muitos chefes de Estados ricos e CEOs de grandes corporações sabem dos riscos, pois eles estão presentes e são inegáveis, como o aquecimento global, as enchentes destrutivas de cidades inteiras, as fogueiras imensas na Califórnia, no Amazonas, na Espanha e ainda a presença de vários vírus em particular do coronavírus, que atingiu a humanidade inteira.
Negam estes dados claros porque são antissistêmicos. O sistema do capital hoje mundializado mais e mais se concentra (1% contra 99%). Tomar a sério estes dados obrigaria este capital a mudar de lógica, cuidar da natureza em vez de superexplorá-la, cultivar uma justiça social e uma justiça ecológica. Não basta descarbonizar e manter a voracidade de acumulação. Como diz a Carta da Terra: “Adotar padrões de produção e consumo que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário”(§II,7).
Este sistema inumano e sem qualquer solidariedade jamais vai renunciar a suas vantagens e privilégios. Ao seguir a lógica do capital, iremos ao encontro, cedo ou tarde, de uma grande tragédia ecológico-social que poderá afetar a biosfera e, no limite, a sobrevivência dos seres humanos sobre este planeta, que, limitado, não suporta um projeto de crescimento/desenvolvimento ilimitado.
2. Por que continuamos com modelos de produção e consumo que prejudicam os mais vulneráveis e não estão alinhados à Missão 1.5°C?
Não é do interesse do sistema dominante de produção que superexplora a natureza e os trabalhadores, pois isso implicaria mudar de paradigma de acumulação para um paradigma de sustentação de toda a vida humana e da natureza (CT§ I.). Os representantes deste sistema colocam o lucro acima da vida, a violência contra a natureza e os seres humanos e a competição acima da paz e da colaboração de todos com todos. Não conhecem o fato cientificamente comprovado do “espírito de parentesco com toda a vida”(CT § Preâmbulo c). Esse sistema impede “a justiça social e econômica e de erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental”(CT III§9). Nega o seu lugar no conjunto dos seres, pois todos são importantes para compor o Todo. O sistema de acumulação seja capitalista ou de outra denominação é contra a lógica da natureza e do processo de cosmogênese, pois “deve-se tratar todos os os seres com respeito e consideração”(CT § III,15), coisa que ele não faz. Aqui reside seu vazio ético.
3. O que podemos fazer para garantir que os países ricos, grandes produtores e consumidores de combustíveis fósseis, acelerem suas transições e contribuam com o financiamento dessas medidas nos países mais vulneráveis?
Devemos alimentar indignação contra esse sistema que tantas vítimas faz. Devemos ter a coragem de fazer todo tipo de pressão contra este sistema que mata, e propor-nos a modificá-lo. Usar os movimentos que “cuidam da comunidade de vida com compreensão, compaixão e amor”(CT § I,2) e pressionar os Estados e as corporações. Saber usar as legislações existentes que protegem o meio ambiente e limitam a concentração de riqueza. Tudo isso se conseguiu graças à pressão vinda de baixo. Mas não basta a indignação e a pressão. Devemos começar com algo novo e alternativo. O caminho mais direto e com bons resultados é viver e fomentar o biorregionalismo. Dar valor à região e ao território. Não aquele estabelecido com limites feitos arbitrariamente pelos Estados, como, por exemplo, os municípios. Deve-se assumir a região como a natureza a desenhou, com suas florestas, seus rios, suas montanhas, enfim, sua natureza com a população que lá vive. Ela possui sua cultura singular, suas festas, suas personalidades notáveis que aí existiram: “Trata-se de proteger e restaurar os distemas ecológicos da Terra com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos que sustentam a vida”(CT § II,5).
Pode-se realizar um modo de produção com os bens e serviços naturais locais, sem precisar grandes fábricas, nem fazer grandes transportes. Tirar da natureza o que se precisa e respeitar os ritmos dela e dar-lhe tempo para se recuperar (§ todo o número II: Integridade ecológica). É possível e viável “construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas e pacíficas”(CT§ I,3), diminuindo fortemente a pobreza e até superá-la. O centro é a comunidade humana e de vida e tudo o mais a serviço deste centro. O resultado é alcançar um modo sustentável de vida como afirma a Carta da Terra (§ O caminho adiante) e com seu desenvolvimento sustentável, adequado àquela região. Hoje, no mundo, há inúmeras regiões que vivem este projeto com grande integração de todos. A Terra inteira poderia ser como um tapete de biorregiões que se relacionam entre si e se ajudam e, assim, salvam a sustentabilidade de todo o planeta Terra.
4. Que tradições, histórias ou práticas (culturais, espirituais) da sua comunidade nos ensinam a viver em maior equilíbrio com a natureza?
Muitas cidades rearborizam as ruas e praças com plantas nativas. Outras fazem campanhas para arborizar espaço degradados ou limpar os rios dos dejetos, especialmente plásticos e outros, assegurar a mata ciliar de todos os rios e riachos, incentivar a agricultura agroecológica na campo e o cultivo de hortaliças e outros produtos naturais nos espaços de terra entre os prédios ou nas coberturas. Ainda estabelecer uma relação amigável entre os consumidores da cidade e os produtores do campo. Visitam-se mutuamente e trocam os saberes. Então se cria uma verdadeira democracia de produção e consumo.
5. Considerando que precisamos garantir a diversidade no coletivo, como podemos mobilizar mais pessoas, lideranças, corporações, empresas e nações para apoiar mudanças justas e éticas no combate à crise climática? Que ideias e valores poderiam nos inspirar nessa missão?
Em primeiro lugar, cabe repassar todo tipo de informação sobre o estado da Terra e das ameaças que pesam sobre ela a ponto de pôr em risco a biosfera e a existência do ser humano. Aqui é importante fornecer os dados sobre a sobrecarga da Terra, vale dizer, quanto de solo e de mar precisamos para garantir a subsistência da humanidade.
Verificou-se que a Terra entrou no cheque especial. No ano 2024, nos primeiros sete meses do ano, temos consumido todos os bens e serviços renováveis da Terra que garantem a vida. Precisamos, no atual momento, de quase duas Terras para atender o consumo humano, especialmente, aquele suntuoso dos países ricos, em detrimento de grande parte da humanidade, que não possui alimentos suficientes e padece de falta de água potável e de infraestrutura sanitária (CT § III,10).
Lançamos, só no ano de 2024, 40 bilhões de toneladas de CO² na atmosfera, que lá fica por 100 anos, acrescido de 20 bilhões de toneladas de metano, que é 28 vezes mais danoso que o CO², embora fique na atmosfera por uns 10 anos. Toda essa poluição produz um efeito estufa que aquece mais e mais o planeta. Agora ele ultrapassou a medida suportável de 1,5ºC. Neste ano de 2025, ele está com 1,7ºC, acima do que era postulado pelo Acordo de Paris em 2015. Este visava chegar a este nível somente até o ano de 2030.
O calor foi antecipado e teve graves consequências humanas, com temperaturas de acima de 40-45ºC nos países europeus e grande frio no Sul do mundo. A ciência chegou atrasada e não pode reter esse aquecimento, nem retrocedê-lo, só advertir sua chegada e mitigar os efeitos danosos. Quando a Terra irá estabilizar seu novo nível climático? Se for por volta de 38-40ºC muitas vidas não conseguirão adaptar-se e desaparecerão, seja na natureza seja na humanidade.
Sequer nos referimos a uma eventual guerra nuclear com “a destruição mútua assegurada”, que poria um fim à vida humana. Ou outro tipo de guerra utilizando a Inteligência Artificial Geral pela qual uma potência pode imobilizar a outra de tal forma que nada mais pode funcionar, energia, carros, aviões, foguetes, meios de comunicação, a ponto de colocar de joelhos a outra nação. Essa guerra não é impossível. Não destrói nada, mas subjuga toda uma nação ou toda a humanidade, um despotismo cibernético que controlaria tudo, até a vida privada. A IA autônoma pode decidir que não lhe é mais conveniente a espécie humana e resolve exterminar a vida na Terra.
Todo esse cenário sombrio nos leva a postular um novo paradigma, sugerido pela Carta da Terra e pelas duas encíclicas do Papa Francisco: a Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) e a Fratelli tutti (2020). Assim se diz claramente na Carta da Terra:
“Estamos num momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro… A escolha nossa é: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida” (2003, Preâmbulo)
Ou do Papa Francisco: “Estamos todos no mesmo barco: ninguém se salva sozinho, ou nos salvamos todos, ou todos pereceremos”(Fratelli n.34).
A Carta da Terra postula respeito e cuidado por tudo que existe e vive e pela responsabilidade universal (§ I,1). O Papa aponta a passagem do dominus, – o paradigma da modernidade e prevalente no mundo – o ser humano como dono e senhor da natureza sem se sentir parte dela, para o frater, o ser humano irmão e irmã com todos os seres. Pois todos vieram do mesmo pó da Terra; todos possuem o mesmo código biológico de base (os 20 aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas); o ser humano se sente parte da natureza, não seu dono e senhor, sendo sua missão cuidar e guardar do Jardim do Éden (a Terra). A fraternidade universal deve ser, principalmente, entre todos os seres humanos, formando a grande comunidade humana e terrenal”(Fratelli tutti,n.6)
Este seria o paradigma novo. O centro seria a vida em toda a sua diversidade. A economia, a política e a cultura a serviço da vida.
Importa enfatizar que uma ética do cuidado, da responsabilidade geral e da fraternidade/sororidade universal não se garante por si mesma sem a espiritualidade natural. Esta não se deriva diretamente da religião, mesmo que possa reforçá-la, mas da própria natureza humana. Esta espiritualidade natural é parte da natureza humana, como é a inteligência, a vontade e a sensibilidade. Ela se revela pelo amor incondicional, pela solidariedade, pela empatia, pela compaixão e pelo cuidado e reverência face à totalidade da natureza e do universo e ao Criador de todas as coisas. É a vivência da espiritualidade natural com seus valores que sustentam comportamentos éticos, necessários para a salvaguarda da vida na Terra.
Só este novo paradigma poderá garantir o futuro da vida em geral, da vida humana e de sua civilização. Caso contrário, poderemos engrossar o cortejo daqueles que caminham na direção de sua comum sepultura. Mas como diz a Carta da Terra: “Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos poderemos forjar soluções includentes”(CT§ Preâmbulo c). Por aqui, passa a solução de nossa crise planetária. Por isso, prevalece a esperança de que o ser humano pode mudar de rumo e inaugurar uma nova etapa da aventura humana sobre o planeta Terra.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.